
Revista BRAVO! | Fevereiro/2009
Por Armando Antenore
Assista um trecho da entrevista com Deus
Curioso para averiguar se as lições de bondade que disseminou surtiram efeito, Deus se disfarçou de homem e saiu de bicicleta pelo mundo à procura de almas generosas. Uma pomba branca e tagarela o acompanhou. Quando os viajantes avistaram Setsuan, um lugarejo pobre da China, interromperam a jornada e pediram abrigo à população. Apenas a prostituta Chen Tê os recebeu. "Ela, sim, é bondosa", concluiu Deus, que fez questão de pagar pela acolhida. Com a recompensa, a jovem abriu uma modesta tabacaria. Os miseráveis da aldeia, porém, inundaram Chen Tê de cobranças: exigiam-lhe doações de dinheiro, arroz e cigarro. Sem conseguir impor limites, a moça se travestiu secretamente de Chui Ta, um primo longínquo que assumiu o comando da loja. Tirânico, o novo gerente subjugou os aproveitadores e acabou enriquecendo.
BRAVO!: Antes de mais nada, como devo chamá-lo?
Deus: Prefiro que me trate informalmente. Se me chamar de Senhor ou Altíssimo, precisarei chamá-lo assim também, o que tornará nossa conversa muito solene.
Não compreendo: terá de me tratar por Senhor ou Altíssimo?
Lógico. Eu, afinal, sou você. Fugiu das aulas de religião? Eu sou três, lembra? Eu próprio, o Espírito Santo e tudo que me cerca, inclusive você. Por isso, morro de rir quando dizem que Deus não existe. Se não existo, ninguém existe — nem mesmo os que duvidam de mim.
O que é exatamente o Espírito Santo?
É um sopro, uma inspiração, a minha fagulha criativa, representada pela pomba branca que carrego no ombro.
A pomba? Mas você vive xingando a coitada e despreza a maioria das opiniões dela. Está em crise de identidade?
De fato, há divergências entre nós. Eu, na qualidade de Pai, preciso ordenar o universo inteiro. Sou pragmático. Já o Espírito Santo, à semelhança de qualquer espírito, é mais dispersivo, mais irresponsável, e frequentemente me propõe absurdos. No entanto, como também me inspira, não consigo abandoná-lo. Uma lástima...
Por que você percorreu a Terra de bicicleta em vez de pegar um avião? Deus não tem pressa?
Nenhuma. Criei o tempo, esqueceu? E posso matá-lo quando me der na telha. Criar e matar são minhas especialidades. Mas, no fundo, evitei o avião e outros veículos motorizados porque bicicleta não polui. Fiz um gesto ecológico. Sem contar que, pedalando, exercito os músculos. Eu andava meio sedentário, pois raramente ganho corpo. A bicicleta me garantirá um preparo físico de maratonista.
E o charuto que você está fumando agora? Vai na contramão desse papo saúde...
É para imitar o Groucho Marx, humorista de quem gosto bastante.
Só que charuto provoca uma série de doenças.
Não em mim... Percebe? Pouco me importa se vocês fumam! Não levanto bandeiras antitabagistas. Inventei o livre-arbítrio justamente para não me preocupar com as decisões dos homens.
De onde você vem?
Venho de trás e vou em frente. Sempre em frente.
Não me enrole. Quero saber onde você mora. No céu?
Moro no céu e no mar, nas ovelhas e no pastor, na metrópole e no deserto, nas páginas desta revista e nas da concorrência.
Por que você buscou almas caridosas em um vilarejo chinês paupérrimo e não em lugares mais ricos? Bondade e riqueza são incompatíveis?
Negativo! É possível fisgar almas generosas em qualquer canto. Elegi Setsuan por estratégia de marketing. A China está na moda. Tudo o que acontece ali desperta enorme atenção do mundo.
Deus necessita de marketing?
Não necessito de nada. Os homens é que necessitam. Desde os primórdios, a humanidade parece apreciar a linguagem do marketing. Ou você imagina que ditei a Bíblia e demais livros sagrados à toa?
Enquanto se mostrou solidária, Chen Tê atraiu a cobiça dos que a rodeavam. Só prosperou depois que adotou a faceta cruel de Chui Ta. Por que o mal se deu tão bem e o bem se deu tão mal?
Sei lá. Não tenho respostas para perguntas que derivam das escolhas humanas. Repito: inventei o livre-arbítrio, preguei a fraternidade e saí de cena. O resto é com vocês. Os homens constroem o próprio destino. Posso interferir de vez em quando para botar uma lenhazinha na fogueira, mas o grosso da história depende de vocês.
Está tirando o corpo fora?
Claro! O corpo de Deus é sempre transitório.
Piadinhas, jogos de palavras... Você nunca se cansa de agir como um bufão?
Nunca. Todos os bufões são sábios. Desnudam o nonsense da condição humana e da minha própria. Sendo o maior dos sábios, sou também o maior dos bufões.
Onde Encontrar Deus
Na peça A Alma Boa de Setsuan, de Bertolt Brecht. Direção de Marco Antônio Braz. Com Denise Fraga, Ary França, Cláudia Mello e outros. Teatro Renaissance (al. Santos, 2.233, Cerqueira César, São Paulo, SP, tel. 0++/11/3188-4147). Até 1º/3.