
Revista BRAVO! | Janeiro/2009
Por Eurípedes Alcântara
Quando as coisas não dão muito certo em suas parcerias artísticas, Bob Dylan ativa um mecanismo de sobrevivência que parece ser seu estado natural. Ele some. Desaparece. Abandona tudo. Sai andando pela noite de New Orleans, Los Angeles, São Francisco, Montreal, Berlim, São Paulo... ou aonde quer que o leve a Never Ending Tour, o pé na estrada sem fim que serve de metáfora da sua vida. Nas caminhadas ele recupera um pouco daquela liberdade da juventude, quando subia a enregelada rua Thomas Paine, no Village nova-iorquino, de braços dados com a namorada Suze Rotolo apenas para "tomar um pouco de ar". Hoje ele anda só e busca sons novos, se detém a cada quebrada onde alguém toque algum instrumento. Na mais extraordinária dessas fugas, Dylan deixou o grande Grateful Dead, da lenda Jerry Garcia, no palco durante um dos ensaios do que viria a ser descrito por alguns críticos como uma bem-sucedida turnê. Não foi. Foi um porre. Um desencontro quase tão grande quanto Mick Jagger cantando Like a Rolling Stone como se a canção fosse uma homenagem a ele, ou Dylan e Paul Simon se apresentando juntos no Madison Square Garden. Os shows eram cabos-de-guerra com aquela química artificial de casais tentando se acertar com a ajuda de conselheiros externos. Dylan não via a hora de o tormento acabar — e acabou numa das caminhadas em São Francisco. Ele ouviu um velho e desconhecido tocar e cantar jazz de um jeito que descreveu mais tarde ao produtor musical Daniel Lanois como "o ruído feito por alguém dizendo uma verdade".
Lanois é um sujeito duro. Implacável no estúdio. É um Muricy, um Felipão da música que toca melhor guitarra e compõe quase tão bem quanto os ídolos que o procuram para fazer seus discos, gente do calibre de Peter Gabriel, do U2 e Bob Dylan. Os dois tinham feito um disco juntos, Oh Mercy, em 1989, e se reencontraram em Miami. Fisicamente. Musical e mentalmente tudo indicava que dessa vez seria mais um daqueles melancólicos desencontros da carreira e da vida de Dylan, situações descritas com expressões como "o ar se congelou" ou "o tempo parou" por quem assistiu a uma delas — e sobreviveu para contar. A pior? Amigos comuns decidiram que o já famoso e idolatrado Bob Dylan tinha que conhecer Jimi Hendrix, o gênio daquela geração. Marcaram um encontro em Nova York. Dylan foi de bicicleta. Hendrix apareceu em uma daquelas limusines de chassi alongado dirigida por um motorista de luvas brancas. Ele abriu o vidro da janela. Dylan se aproximou e os dois trocaram umas poucas palavras. Nunca mais se viram, mas Hendrix, que morreu em 1970, gravaria uma versão hipnótica da música mais enigmática de Dylan, All Along the Watchtower. Como fizera em Oh Mercy, Daniel Lanois domou a fera Dylan, que se recuperava de uma rara forma de infecção respiratória. Do encontro surgiu um dos mais memoráveis e pessimistas trabalhos musicais de Bob Dylan, Time out of Mind.
Lanois, Hendrix, Paul Simon e o Grateful Dead foram lembrados aqui para introduzir a questão que nos leva a tratar do fenômeno Bob Dylan mais uma vez nas páginas de BRAVO!. Eles aparecem para, como Dylan quando incomodado, sumir. Trata-se, aqui, de celebrar o lançamento de Tell Tale Signs, o oitavo volume das Bootleg Series, as músicas gravadas por Dylan, mas que, como migalhas de um banquete, ficaram de fora de seus álbuns oficiais. "Bootleg" é uma expressão de um outro tempo. Já significou vender bebida alcoólica ilegalmente nos tempos da lei seca. Para o pessoal do rock, bootlegs eram discos de vinil prensados ilegalmente a partir de pedaços de fitas surrupiados das gravadoras ou registrados magneticamente em shows ou ensaios dos grandes artistas. Consta que Dylan foi o primeiro de sua geração a ter um bootleg vendido nas filas de seus shows em Nova York. As Bootleg Series de Dylan são, porém, lançamentos genuínos da gravadora. Não têm mais aquele ar de transgressão dos anos 60. Mas são ótimos. Nelas Dylan aparece cantando e tocando sem a direção de mãos pesadas como Daniel Lanois e livre dos incômodos das parcerias mal concretizadas. É essência. Para iniciados, esses CDs são um raro privilégio que há 18 anos vêm sendo lançados regularmente, como testemunhos das riquezas produzidas pelo método de obcecada experimentação musical e poética de Bob Dylan.
Tell Tale Signs literalmente se traduz por "sinais denunciadores". Não se vai saber o que Dylan quis expressamente dizer com esse título. Felizmente isso importa pouco ou quase nada. Ele nunca foi bom em dar nome a seus álbuns. Basta lembrar escolhas sem inspiração, como Shot of Love (Injeção de Amor, 1981) ou Under The Red Sky (Sob o Céu Vermelho, 1990), e de dramaticidade exagerada, como Before the Flood (Diante do Dilúvio, 1974), e Blood on the Tracks (Sangue nas Faixas, 1975). O CD começa com Mississippi, que não teve lugar no lançamento de Time out of Mind, de 1997. Não havia lugar para otimismo naquele álbum em que uma das canções dizia "meu senso de humanidade/desceu pelo ralo". Mississippi é risonha. Dylan em um de seus papéis prediletos, o do solitário que desfruta da solidão, do prisioneiro cujos ossos foram moldados na cela, do narrador com poder de vida e morte sobre suas criações, mas refém do enredo.
"Caminhando entre folhas caindo das árvores
Sentindo-me como um estranho invisível
São tantas as coisas que não podem mais ser desfeitas.
Sei que você está triste, eu também estou"
Mississippi abre o segundo CD do álbum em uma versão musicalmente mais burilada. Impossível saber qual a melhor. Ambas soam como "o ruído feito por alguém dizendo uma verdade".
Um artista tem que ter uma imagem muito elevada e pura de si próprio para dar o nome de Dignity (Dignidade) a uma música. Isso sim é um "sinal denunciador" de como Dylan se enxerga. Ele incluiu no álbum uma gravação de Dignity (feita quando gravava Oh Mercy) em que ele mesmo se acompanha ao piano. O objetivo era obter uma fita de demonstração para efeito de o estúdio registrar os direitos autorais. Alcançou bem mais do que isso. A poesia de Dignity tem a marca característica de Dylan, em que as idéias se desenvolvem como em um transe, um devaneio, um sonho acordado, com um encadeamento que não pode ser definido de outra maneira, mas como "natural". Em Dignity ele diz:
Fat man lookin' in a blade of steel
Thin man lookin' at his last meal
Hollow man lookin' in a cottonfield
For dignity
(O homem gordo procura numa lâmina de aço
O homem magro procura em sua última refeição
O homem vazio procura no campo de algodão
A dignidade)
E termina assim:
Oh the lines are long
And the fighting is strong
And they're breaking down the distance
Between right and wrong.
(Oh as filas são compridas
E a luta é renhida
E elas encurtam a distância
Entre o certo e o errado)
Essa é ainda uma poética beatnik mais própria dos saraus psicodélicos, dos poetas amadores que acham impróprio ou não têm força bastante para conduzir as palavras para o centro da pista e obrigá-las a confessar como as estatísticas fazem com os números. Por isso, a poesia de Dylan nos passa sempre a impressão de que, mesmo trafegando inegavelmente nas altas esferas da expressão, o que seus versos querem dizer parece já ter sido dito de forma mais bela e definitiva antes dele. Grande leitor de grandes poetas, Dylan, com razão, recusa-se a alinhar-se na mesma galeria deles. Dylan, com propriedade, se define como um entertainer, alguém que se apresenta diante de uma audiência que paga para, durante algum tempo, ser entretida. No caso de Dylan, um entertainer que é pago para dizer algumas verdades poéticas, filosóficas e musicais.
O oitavo bootleg é prova disso, como em Most of The Time (A Maior Parte do Tempo).
Most of the time I'm halfway content
Most of the time I know exactly where I went
I don't cheat on myself, I don't run and hide,
Hide from the feelings, that are buried inside
I don't compromise and I don't pretend
I don't even care if I ever see her again
Most of the time
(A maior parte do tempo
Eu estou meio contente
A maior parte do tempo
Eu sei exatamente aonde fui
Eu não me engano, não fujo, não me escondo
Não me escondo dos meus sentimentos profundos
Eu não faço concessões e não finjo
Eu nem me importo de não vê-la nunca mais
A maior parte do tempo)
O oitavo bootleg é prova também de que ninguém mais do que Dylan desperta tanto respeito em seus pares e de que poucos, no mundo musical pop, conseguem arrastar para um estúdio sempre os melhores instrumentistas e arranjadores e colocá-los a serviço de suas canções. Mais bootlegs devem estar a caminho, como a luz das estrelas supernovas que nos chega intacta muito depois de que sua fonte de energia se esgotou.