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As atrizes Georgette Fadel (esq.) e Isabel Teixeira, que ao longo do espetáculo combinam o drama com a banalidade do cotidiano das mulheres
As atrizes Georgette Fadel (esq.) e Isabel Teixeira, que ao longo do espetáculo combinam o drama com a banalidade do cotidiano das mulheres

 

Revista BRAVO! | Dezembro/2008

Crítica - Soberania do Singelo

Em ''Rainha(s) – Duas Atrizes em Busca de um Coração'', Cibele Forjaz faz uma leitura minimalista e delicada do drama histórico de Maria Stuart

Gabriela Mellão

O dramaturgo Friedrich Schiller já foi chamado de Shakespeare alemão por causa de seu domínio de linguagem e habilidade em retratar diferentes estados de alma de um personagem. Foi na obra desse escritor do século 18, famoso pelo poema Ode à Alegria, incorporado à Nona Sinfonia de Beethoven, que o diretor José Celso Martinez Corrêa encontrou a peça para comemorar os 50 anos do Oficina — Os Bandidos. Agora, Cibele Forjaz, encenadora que iniciou carreira justamente no grupo paulista, volta à obra de Schiller com Rainha(s) — Duas Atrizes em Busca de um Coração, uma criação sua com as atrizes Georgette Fadel e Isabel Teixeira a partir do original do alemão, Maria Stuart (1800).

Na montagem, Cibele, Georgette e Isabel se apropriam de um clássico com a propriedade­ de quem sabe colocar uma história tradicional a serviço de uma nova leitura. No caso, a tragédia da rainha da Escócia Maria Stuart, condenada à morte depois de ficar presa quase 20 anos sob ordem de sua prima, a rainha da Inglaterra Elizabeth 1ª, no século 16. A intenção só escorrega no que a adaptação tem de excessivo no uso da metalinguagem, um recurso desgastado no teatro nos últimos 20 anos.

Mesmo assim, é com graça que as atrizes entram em cena, interpretando elas mesmas: pedem desculpas à platéia, conversam sobre particularidades da vida real e só depois vestem as roupas das personagens. Ao longo do espetáculo, saem de seus papéis diversas vezes, convidando o público para um jogo em que opõem o majestoso — terreno de Maria Stuart — e o singelo do cotidiano de mulher contemporânea, traduzido pelas duas atrizes.

Poesia do essencial
Ao colocar em cena a poesia do ordinário, Rainha(s) conquista uma delicadeza inexistente em Maria Stuart. Do texto, a diretora extrai o essencial. Corta cerca de duas dezenas de personagens, elimina diversas ações secundárias e dispensa o cenário das guerras religiosas que contextualiza a história original. Mantém apenas as protagonistas e o encontro imaginado por Schiller entre elas, antes de Elizabeth assinar a sentença de morte de Maria Stuart.

Se falta inovação a Rainha(s) em meio a jogos de metalinguagem, não falta beleza ao texto final da adaptação. A estética, minimalista, é extremamente sofisticada, com um cenário a um só tempo belo e funcional, que serve de adereço e iluminação. É decisiva a direção precisa e generosa de Cibele, que  valoriza o talento das atrizes, dando suporte para que Georgette e Isabel desempenhem atuações que dificilmente escaparão da memória dos espectadores. 

A peça
Rainha(s) — Duas Atrizes em Busca de um Coração. Adaptação de Isabel Teixeira, Georgette Fadel e Cibele Forjaz da obra Maria Stuart, de Friedrich Schiller. Direção de Cibele Forjaz. Com Georgette Fadel e Isabel Teixeira. Sesc Paulista (av. Paulista, 119, Paraíso, São Paulo, SP, tel. 0++/11/3179-3700). De 6ª a dom., às 20h30. Até 21/12. De R$ 5 a R$ 20.

Leia também
Os Bandidos. Adaptação de Zé Celso Martinez Corrêa da peça de Friedrich Schiller. No Teatro Oficina (tel. 0++/11/3106-2818).

 

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