
Revista BRAVO! | Dezembro/2008
Assista a versões diferentes do clássico ''O Lago dos Cisnes''
Há 121 anos, desde sua estréia em Moscou, O Lago dos Cisnes vem atravessando os tempos como a mais popular e uma das mais bem realizadas obras do balé clássico. Esse espetáculo com música igualmente emblemática, concebida pelo compositor russo Piotr Ilitch Tchaikovsky (1840-1893), sempre estimulou a imaginação de espectadores e artistas da dança, que a ele emprestaram, muitas vezes, suas interpretações pessoais. Neste mês, o coreógrafo paulista Sandro Borelli estréia, no Teatro Municipal de São Paulo, O Lago dos Cisnes? (com interrogação mesmo), acrescentando mais um capítulo a uma história em que os clássicos, mais que venerados em suas formas originais, ganham novas leituras.
No libreto original do Lago, a heroína, transformada em cisne por obra de um feitiço, se libertaria da condição apenas à noite, quando um príncipe por ela se apaixonasse e lhe fosse fiel. Para Borelli, conhecido pelo desconforto causado por suas criações, uma releitura do clássico só poderia se basear na infidelidade. Mais "pântano" do que "lago", talvez evocando um mundo em decrepitude, o espetáculo radicaliza ao explorar movimentos rasteiros, que exigem dos bailarinos um contato quase permanente com o chão, o que contradiz a tradição aérea e etérea dos balés clássicos. "A verticalidade existe em alguns momentos em minha coreografia. Ela surge como se fossem bolhas, que logo se desfazem e retornam a uma condição putrefata, mas que também podem ser a síntese da vida", diz Borelli, acrescentando que a fermentação poluída do rio Tietê foi uma das imagens que lhe vieram à mente quando criou tais cenas.
Excesso de imaginação? Nem tanto, se as idéias de Borelli forem comparadas às dos vários coreógrafos que decidiram rever os clássicos sob ótica própria. Em sua versão de O Lago dos Cisnes, de 1987, o coreógrafo sueco Mats Ek, por exemplo, colocou em cena bailarinas descalças e carecas no lugar das personagens românticas do libreto original. Além disso, investiu numa interpretação edipiana da relação do príncipe Siegfried com sua mãe. A abordagem psicanalítica, aliás, é uma das marcas do sueco. Em 1982, na releitura de outro clássico, Giselle, ele ambientou a história num manicômio: ali, a heroína desencantada com o amor do original se transforma numa mulher cuja emancipação a leva à loucura.
A busca pela atualização de clássicos, por sua vez, levou a radicalizações ainda maiores. Em 1990, o francês Angelin Preljocaj estreou sua versão de Romeu e Julieta, que, em vez da tragédia de Shakespeare, se inspirava no livro 1984, de George Orwell. Sob atmosfera opressora, enfatizada pelos cenários e figurinos de Enki Bilal, cineasta e autor de histórias em quadrinhos, o espetáculo de Preljocaj fez de Julieta a filha de um ditador e de Romeu um sem-teto. Juntos, viviam a impossibilidade do amor sob um regime totalitário. Rudolf Nureyev, por sua vez, transformou a protagonista de Cinderela em popstar ao inseri-la no universo hollywoodiano, em montagem de 1986, quando ele dirigia o Ballet da Ópera de Paris. A mesma obra foi revisitada pela francesa Maguy Marin, em 1985. Para evocar os contos infantis, Marin colocou máscaras de bonecas nos personagens e permeou a música de Prokofiev com balbucios de bebês.
Fidelidade
Na versão, O Lago dos Cisnes?, Borelli conserva apenas a música de Tchaikovsky, porém entremeada pelas sonoridades eletrônicas incidentais, concebidas por Gustavo Domingos, que desde 2001 trabalha com Borelli em espetáculos sobre a obra de Franz Kafka. Dos quatro atos originais, o Lago do paulista dura pouco mais de uma hora. "Embora eu não siga a íntegra original, há uma síntese do Lago dentro de mim, que eu procuro compreender dentro de um sistema vigente atual, quando há um império ruindo", diz o coreógrafo, que assim explicita a chave para uma adaptação bem-sucedida de um clássico: traduzir o espírito original, ainda que para isso tenha de alterar seus preceitos.
Segundo Borelli, para não deixar o público completamente órfão do que há de mais conhecido no Lago, a produção do Balé da Cidade traz referências como a dança dos quatro cisnes brancos, famosa pela brilhante precisão. Para lembrar levemente as encenações convencionais, há, ainda, a música ao vivo, tocada pela Orquestra Experimental de Repertório, sob regência de Jamil Maluf, que também é diretor do Teatro Municipal de São Paulo.
"O Lago de Borelli é completamente diferente de tudo o que já se viu. O público tem que estar desarmado para assistir a essa versão tão contemporânea e arrojada", diz Maluf, que escolheu o que seria utilizado da obra de Tchaikovsky. Para tanto, valeu-se das afinidades com a dança, que vem do início de sua carreira. Maluf entusiasmava-se com a releitura de clássicos já na década de 1970, quando estudou regência na Alemanha e teve oportunidade de acompanhar as célebres montagens que o coreógrafo John Cranko fazia para o Ballet de Stuttgart e sua musa, a bailarina brasileira Marcia Haydée.
Música tocada ao vivo por orquestra sempre valorizou espetáculos de balé, embora represente uma exigência a mais. De início, a oportunidade chegou a preocupar Borelli ("Achei que não tinha muito a ver comigo"), mas logo ele se rendeu ao desafio, que também lhe proporcionou o convívio com a abertura e a versatilidade musical de Jamil Maluf. Como a composição de Tchaikovsky tem vida própria, a coreografia não se atém a ela. Pelo contrário, também existe como elemento auto-suficiente que, segundo Borelli, acaba "abraçado" pela música.
"Alimentei-me mais, especialmente quanto ao conteúdo, de uma canção medonha e genial de Bertolt Brecht e Kurt Weill, A Balada da Menina Afogada, que descreve como o corpo de uma garota vai se desfazendo, depois que ela morre num lago." Borelli também se apoderou, de forma inusitada, de mais um detalhe do original: o lago feito de lágrimas, habitado pela princesa transformada em cisne. "Imaginei uma gota de lágrima vista por um microscópio, que desvenda uma desordem povoada por vermes, que me remetem a uma visão do purgatório e que me conduziram ao Inferno de Dante."
Para o Balé da Cidade de São Paulo, a releitura de um clássico por um coreógrafo como Borelli mostra que o grupo continua em sintonia com as propostas que considera de vanguarda. É o que acredita Mônica Mion, diretora da companhia, que tomou a iniciativa de produzir O Lago dos Cisnes?. Tudo indica que Mônica está certa quanto ao potencial de sucesso do espetáculo. Um mês antes da estréia, duas récitas da obra já estavam com ingressos esgotados, provando que a mística do Lago dos Cisnes seja na versão original, seja numa releitura continua imbatível.
Onde e Quando
O Lago dos Cisnes? Coreografia de Sandro Borelli, com as Companhias 1 e 2 do Balé da Cidade de São Paulo e a Orquestra Experimental de Repertório, regida por Jamil Maluf. Teatro Municipal de São Paulo (pça. Ramos de Azevedo, s/nº, Centro, São Paulo. Ticketmaster: 0++/11/2846-6000). Dias 12, 13 e 15, às 20h30; dia 14, às 17h. R$ 5, R$ 10 e R$ 15.