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Rachel Guedes/ Divulgação
Antonio Abujamra entre Miguel Hernandez e Nathália Corrêa. O melhor e o pior da peça se devem ao egocentrismo do ator principal
Antonio Abujamra entre Miguel Hernandez e Nathália Corrêa. O melhor e o pior da peça se devem ao egocentrismo do ator principal

 

Revista BRAVO! | Novembro/2008

Alma Veterana

Aos 76 anos, o ator, diretor e dramaturgo Antonio Abujamra encena uma peça sobre a velhice. Depois de Renato Borghi (71 anos), Antonio Petrin (70) e Sérgio Britto (85), ele é o quarto homem de teatro de sua geração a abordar o tema

Por Dirceu Alves Jr.

Nos primeiros minutos de Começar a Terminar, como se estivesse em meio a uma desconfortável entrevista, Antonio Abujamra lança alguns recados para a platéia. Ainda com o teatro iluminado, o ator, diretor e dramaturgo alerta que pretende "desconstruir" a obra de Samuel Beckett. Impaciente, cessa naquele momento as explicações sobre a hora seguinte. Entre a melancolia e o sarcasmo, Começar a Terminar aborda a iminência da morte e questiona a validade do reconhecimento, quase sempre de uma minoria, para um artista experiente. Inspirado em clássicos do autor irlandês, como as peças Ato sem Palavras 1 e Esperando Godot, o protagonista criou uma dramaturgia sem texto determinado. Co-dirigida por Hugo Rodas, a montagem, em cartaz em São Paulo, traz no elenco, ainda, os atores Miguel Hernandez e Nathália Corrêa.

Com o espetáculo, Abujamra reitera uma constante entre os artistas de sua geração. Somente nessa temporada, ele é o quarto a pintar um retrato pessimista da alma veterana nos palcos. Mais provocativo, Renato Borghi, 71 anos, questionou suas conquistas em Cadela de Vison, enquanto Antonio Petrin, 70 anos, transbordou amargura em relação à velhice no monólogo Só os Doentes do Coração Deveriam Ser Atores. Mais urgente parece ser o apelo de Sérgio Britto, 85 anos, que uniu Ato sem Palavras e A Última Gravação de Krapp, do mesmo Beckett, em elogiada performance.

 Dono de personalidade fortíssima, Abujamra preocupa-se bem menos em criar um personagem. No palco, mal se esforça para deixar de ser ele mesmo. Se não fossem as rápidas intervenções de Miguel Hernandez e Nathália Corrêa, muitos espectadores pensariam estar diante de uma edição ao vivo do programa Provocações, da TV Cultura. Nesse egocentrismo concentra-se o melhor e o pior de Começar a Terminar. Enquanto a força dramática se esvai ao ver Abujamra com sua capa e a mesma impostação de voz o tempo inteiro, os lamentos oriundos de Beckett chegam à platéia de forma bem mais sutil. Ele usa sua figura popularizada pela televisão para levar à platéia algo da sofisticação do autor irlandês. Consegue passar a mensagem, mesmo que muitos não captem sua real origem.

A Peça
Começar a Terminar, de Antonio Abujamra. Direção do autor e Hugo Rodas, com Antonio Abujamra, Miguel Hernandez e Nathália Corrêa. Teatro João Caetano (rua Borges Lagoa, 650, Vila Clementino, São Paulo, SP, tel. 0++/11/5573-3774). 6ª e sáb., às 21h; dom., 19h. R$ 10. Até 23/11.

Leia Também
Esperando Godot, de Samuel Beckett. Tradução de Fábio de Souza Andrade. Cosac Naify, 240 págs., R$ 59.


Dirceu Alves Jr. é crítico de teatro da revista Veja São Paulo.

 

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