
Revista BRAVO! | Novembro/2008
Por Gabriela Mellão
PERGUNTAS E RESPOSTAS
O resultado é um espetáculo minimalista e, como pretendia Pinter, capaz de provocar um profundo estranhamento no espectador. Prêmio Nobel de Literatura de 2005, o inglês se tornou, por essa característica, um dos revolucionários do teatro na segunda metade do século 20, ao lado de nomes como o alemão Bertolt Brecht e o irlandês Samuel Beckett. Nascido em Londres, em 1930, numa família de judeus portugueses, o britânico teve o sobrenome Pinto convertido para o anglicizado Pinter. O dramaturgo, que também foi ator, diretor, poeta, roteirista e escritor, mostrou que, no palco, provocar perguntas é bem mais estimulante do que apresentar respostas. Sua dramaturgia aberta e estranha sempre teve a capacidade nas mãos de bons diretores de fascinar o público. "Isso acontece porque sua obra permanece como enigma", diz Alvim.
Se espectadores de teatro costumam sair de uma peça acalentando uma sensação de familiaridade com os personagens, Pinter intriga ao convidar suas platéias a voltar para casa com a constatação de que conhecem os protagonistas menos no final do espetáculo do que quando este se iniciou. Para o dramaturgo, na ficção não há uma linha clara entre verdadeiro e falso: "Uma coisa pode ser falsa e verdadeira ao mesmo tempo", declarou certa vez. Além de provocar pela ausência de explicações, a obra de Pinter é inspiradora por conseguir, quase sempre sem apresentar conflito, manter a tensão no espectador. "Há uma sensação constante de que algo terrível está para acontecer", diz Alvim.
Mais de 50 anos se passaram. O mundo, o teatro e o próprio Pinter mudaram. Suas obras dramatúrgicas mais recentes, como One for the Road (1984), The New World Order (1991) e Ashes to Ashes (1996), dedicadas à militância política, não apresentam a qualidade de seus primeiros textos. Enquanto as duas primeiras fases da carreira do autor classificadas em teatro da ameaça (em que se inclui O Quarto) e da memória (Traição, 1978) apontaram novos caminhos para as artes cênicas, por meio de uma dramaturgia aberta a múltiplas interpretações, a última perdeu força justamente pela necessidade de ser didática.
Há três anos, Pinter, que hoje está com 78 anos, anunciou o fim de sua carreira de dramaturgo. O homem que marcou a história do teatro contemporâneo por desestabilizar os conceitos da dramaturgia tradicional preferiu canalizar sua energia para a militância. Em 2005, sugeriu que o presidente americano, George W. Bush, e o então primeiro-ministro britânico Tony Blair fossem julgados por crimes de guerra, por causa do conflito do Iraque. Coincidência ou não, foi nessa fase que a Academia Sueca lhe conferiu o Nobel de Literatura.
Com essa espécie de "renúncia" em prol de um discurso mais fechado e pobre, os palcos de todo o mundo sofreram uma grande perda. Mas a possibilidade de que sua obra se renove pelas mãos de outros tantos devolve, de certa maneira, o teatro de Pinter à sua grandeza perdida.
A Peça
O Quarto. De Harold Pinter. Direção, cenário, trilha sonora e tradução de Roberto Alvim. Com Juliana Galdino, Ligia Yamaguti, Gê Viana e Rodrigo Pavon. Club Noir (rua Augusta, 331, Centro, São Paulo, tel. 0++/11/3257-8129). 6ª e sáb., às 21h, e dom., às 20h. Até fevereiro de 2009. R$ 10.