
Revista BRAVO! | Outubro/2008
Ana Francisca Ponzio
Confrontos e Enconcotros
Já as ousadias de Wim Vandekeybus podem ser conferidas no país em Spiegel (2006), composta de trechos das principais obras de seu repertório. O coreógrafo de 45 anos se projetou em 1987, quando seu grupo apresentou What the Body Does not Remember (O que o Corpo não Lembra). Valendo-se de reações precisas e instintivas, o elenco do espetáculo arremessava pedras no ar e escapava de ser atingido por elas, desde que um bailarino tirasse o outro do lugar ou agarrasse, em tempo, o bloco de rocha em queda. De lá para cá, Vandekeybus firmou-se como um dos mais importantes criadores de sua geração.
Também fotógrafo e cineasta, ele mantém atividade multidisciplinar. "Não tenho um sistema fixo", diz. "Posso refazer algo que produzi há 20 anos com motivação diferente, explorando a nova energia que surge no mundo a cada década. Acho necessário destruir o que me parece seguro, para ter a chance de recomeçar sempre." Sem formação convencional em dança, Vandekeybus lançou novos parâmetros de linguagem ao recusar a dança pura como recurso principal. Do pai veterinário, herdou a familiaridade com os animais, cujos movimentos instintivos, somados à confiança no próprio poder físico, lhe servem de inspiração. Além disso, procura estabelecer "confrontos e encontros" entre dança, teatro, cinema, literatura e pessoas.
Spiegel ("espelho") surgiu em 2006, como parte das comemorações dos 20 anos da Ultima Vez, nome espanhol que Vandekeybus deu a sua companhia. "Escolhi cenas-chave da linguagem que desenvolvi até agora, capazes de existir por si, independentemente de seus contextos originais", diz o coreógrafo. Ao longo de uma hora e meia de espetáculo, sete cenas diversas, uma delas retirada de What the Body Does not Remember, se estruturam por meio das composições de parceiros musicais de Vandekeybus, como David Byrne e Thierry De Mey.
A vitalidade de coreógrafos referenciais da dança contemporânea também estará representada no programa que o Ballet da Ópera de Lyon traz para o Teatro Alfa, em São Paulo. Porém, as obras de William Forsythe e Jiri Kylian escolhidas são amostras clássicas do repertório dos dois coreógrafos, que nos últimos tempos já exploraram novas possibilidades no caso de Forsythe, mais radicalizadas. Pertencentes à mesma geração, Kylian, nascido em 1947, e Forsythe, em 1949, baseiam suas coreografias na técnica do balé clássico, desenvolvendo propostas renovadoras com base nele.
Kylian é um caso à parte. Além da técnica clássica, ele não precisou romper com elementos essenciais da encenação coreográfica, como a música, com a qual dialoga para produzir uma obra que paira acima de modismos. Para ele, o básico é fonte eterna, instigante e inesgotável. De sua autoria, o Ballet de Lyon interpreta Sinfonia dos Salmos, sobre música de Stravinsky, e Bella Figura, ao som de Lukas Foss, Pergolesi, Alessandro Marcello, Antonio Vivaldi e Giuseppe Torelli.
O mesmo programa inclui Second Detail (1991), de Forsythe. Com música de Thom Willems, parceiro constante do coreógrafo, a obra é uma bela amostra da chamada "desconstrução" da técnica clássica promovida pelo americano. Virtuosísticas, as complexas combinações de movimentos desenvolvidas pelo coreógrafo desafiam os códigos acadêmicos, dos quais são extraídas novas possibilidades. Em meio a desequilíbrios imediatamente controlados e modulações diversas na velocidade e na lentidão, suas coreografias produzem resultados únicos e surpreendentes.
Ultimamente, à frente de seu grupo sediado na Alemanha e reestruturado em 2004, Forsythe está cada vez mais experimental. Em Heterotopia, que estreou recentemente, ele confirma sua capacidade de renovação, por exemplo, com relação à intercomunicação dos dançarinos, que se movem em dois palcos desarticulados, exigindo que os espectadores também se mantenham em permanente deslocamento. Depois do eixo clássico da dança, agora é o espaço coreográfico que está sendo "desconstruído". Com o domínio dos gênios, ele diz que está apenas fazendo arte no momento presente. Sem esperanças, sem fins utilitários, mas como mera necessidade humana. Talvez seja essa a sua receita de renovação constante.
Onde e quando
Umwelt, de Maguy Marin, com a Cia. Maguy Marin. Dia 14, no Festival de Recife (www.dancarecife.blogspot.com). Dia 17, na Bienal de Fortaleza (www.bienaldedanca.com). Dia 25 e 26, no Sesc de São Paulo (tel. 0++/11/3095-9400). Dia 30, no Panorama de Dança no Rio de Janeiro (www.panoramafestival.com). Dia 2/11, no Festival Internacional de Dança de Belo Horizonte (www.fid.com.br).
Spiegel, de Wim Vandekeybus, com a Cia. Ultima Vez. Dias 17 a 19, em São Paulo, na Mostra Sesc de Artes, unidade Pinheiros (tel. 0++/11/3095-9400). 6ª a sáb., às 21h; dom., às 18h. R$ 7,50 a R$ 30.
Sinfonia dos Salmos, Bella Figura, de Jiri Kylian, e Second Detail, de William Forsythe. Com o Ballet da Ópera de Lyon. Dia 23 a 26 no Teatro Alfa (0++/11/5693-4000). 5ª a sáb., às 21h ; dom., às 18h. R$ 50 a R$ 120.