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João Wainer
Maíra Dvorek com a máscara de Liza Eu e Tu, seu personagem em Olerê! Olará!. “O acaso é o pai da felicidade”
Maíra Dvorek com a máscara de Liza Eu e Tu, seu personagem em Olerê! Olará!. “O acaso é o pai da felicidade”

 

Revista BRAVO! | Maio/2009

Máscara - Liza Eu e Tu

Híbrido de homem e mulher, o personagem do espetáculo “Olerê! Olará!” incorpora na atriz Maíra Dvorek e se desentende com o editor de BRAVO!

Por Armando Antenore

Eles levaram o romantismo às últimas consequências e se uniram num só corpo, em que a mulher ocupa a metade esquerda e o homem, a direita.

BRAVO!: Como vocês se chamavam antes de se juntarem?

Ele: Desculpe, mas não podemos responder. Segredo de casal...

Ela: É que o antes deixou de contar para nós.

Ele: Exato. Decidimos apagar o passado, já que nossa existência se fez plena somente depois de nos ligarmos. Agora somos apenas Liza Eu e Tu.

Por que Liza e não um nome masculino?

Ele: Ora, porque as mulheres sempre têm preferência. O senhor nunca ouviu falar de cavalheirismo?

Ela: Ele não é mesmo um gentleman?

Quando vocês se conheceram?

Ele: Há três primaveras. Eu frequentava festas de casamento, sabe? Ali as moças solitárias se mostram mais vulneráveis...

Ela: Até me fisgar, ele se portava como um sedutor irresponsável. Um Dom Juan, imagine!

Ele: De fato. Era um autêntico heartbreaker. E não me incomodava de agir assim. Mas as coisas mudaram da água para o vinho mal a avistei em uma daquelas festas.

Ela: Eu estava distraída, muito distraída. Perto da meia-noite, saquei da bolsa minha cigarrilha francesa e...

Ele: ...prontamente acendi meu Zippo prateado.

Ela: Um isqueiro robusto que, numa fração de segundos, se colocou à minha frente, com uma labareda irrecusável.

Ele: E olhe que nem fumo! Carregava o Zippo no paletó justamente para emergências do gênero.

Ela: Costumo dizer que nos completamos desde o primeiro instante. Eu com a cigarrilha francesa, ele com o Zippo prateado.

Vocês buscavam a alma gêmea ou tudo se deu por acaso?

Ele: Não buscava conscientemente. Só compreendi que a procurava quando a encontrei.

Ela: Também não creio que buscasse. Estava distraída demais para pensar nisso. Gosto de acreditar que o acaso nos apadrinhou.

Ele: O acaso é o pai da felicidade, meu caro. E a expectativa, a mãe da decepção.

O que o atraiu nela?

Ele: A distração, sem dúvida. Adoro mulheres distraídas. Uma dama distraída é uma dama desprotegida.

E o que a atraiu nele?

Ela: A elegância, a masculinidade germânica e, principalmente, o ar protetor.

Em que momento vocês se fundiram?

Ela: Foi quando nos abraçamos, ainda naquela deliciosa festa de casamento.

Ele: Um único abraço, enquanto os músicos tocavam uma valsa...

Ela: ...e não nos separamos mais. Como nos folhetins.

Vocês têm saudade da época em que eram inteiros?

Ele: Que pergunta estranha! Nós somos inteiros, senhor!

Ela: Um inteiro que se compõe de duas metades. Não parece óbvio?

Vou indagar de outra maneira: depois que vocês se aglutinaram, o que ocorreu com os desejos de cada um? Sumiram? Modificaram-se?

Ele: Não sumiram de jeito nenhum. Ela, inclusive, se esforça bastante para realizar os meus desejos.

Quais?

Ele: Francamente! Pedir que um cavalheiro desnude intimidades de alcova em público...

Não me refiro a desejos sexuais.

Ele: Ah, perdão. Na verdade, jamais examinei o assunto em detalhes. Permita-me consultá-la: "Querida, você acha que possuí­mos desejos individuais?".

Ela: Não sei... O meu olhar já se confundiu tanto com o seu...

Ele: O que existe são diferenças de comportamento.

Ela: Sim, algumas.

Por exemplo?

Ela: Eu fumo, como mencionei no início da conversa.

Ele: Eu abomino cigarro.

E de que modo resolvem o impasse?

Ela: Tento fumar longe dele.

Impossível, não?

Ela: Nada é impossível para o amor.

Ele: Bingo! A danadinha sempre tira a frase da cartola quando se vê em apuros.

Ela: Eu também aprecio um bom drinque.

Ele: Eu bebo pouco. Mas não me importo de, às vezes, surpreendê-la alegrinha. Admiro o senso de humor dela sob a inspiração do álcool.

Ela: Em contrapartida, dormimos e acordamos no mesmíssimo horário.

Ele: É incrível! Todas as manhãs, tão logo me espreguiço, lhe pergunto: "Acordou?"...

Ela: ...e eu: "Acabei de despertar".

Caso vocês se separem...

Ela: Por favor, nem continue! Não suporto a ideia de nos separarmos. Se uma tragédia dessas acontecer, vou tomar muita champanhe de quinta. Litros e litros!

Ele: Os profissionais da imprensa deveriam poupar os leitores de ilações sensacionalistas...

Ela: Mas por que o senhor levantou a hipótese? Ele lhe confidenciou algo? O canalha planeja me abandonar?!?

Ele: Alto lá! Vamos encerrar imediatamente a entrevista! O senhor não percebe que está magoando minha esposa?

Deixe-me apenas finalizar... Qual a maior vantagem de dividir o mesmo corpo?

Ele e ela: Nunca ficar só.

E a maior desvantagem?

Ele e ela: Nunca ficar só.


ONDE ENCONTRAR LIZA EU E TU
No espetáculo Olerê! Olará!, escrito e dirigido por Dionisio Neto. Com Maíra Dvorek, Giovanna Velasco, Jeyne Stakflett, Mayana Neiva, Sabrina Orthmann e outros. Café-teatro O Inflamável (rua Maria Borba, 87, Consolação, São Paulo, tel. 0++/11/2533-8543). Até junho.  

 

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