Novembro/2009

O Livros dos Monstros Guardados - Crítica

Duchamp levou o urinol para a galeria e o diretor Zé Henrique de Paula colocou privadas no palco. Soa antigo? Talvez, mas o espetáculo "O Livro dos Monstros Guardados" acaba indo além do clichê que o cenário sugere

Por Dirceu Alves Jr.

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Admirador dos diretores Antunes Filho e Eduardo Tolentino de Araújo, o paulista Zé Henrique de Paula firmou sua identidade ao apropriar-se das duas principais características dos mestres. Das aulas do Centro de Pesquisa Teatral, de Antunes, levou a ambição de investir em uma estética autoral; da experiência junto ao Grupo Tapa, de Tolentino, carregou o rigor na interpretação. A simbiose dessas referências resultou em pelo menos três espetáculos que alçaram seu nome a sinônimo de qualidade e ousadia: Senhora dos Afogados (2007), Cândida (2008) e As Troianas, Vozes da Guerra (2009). Agora, volta a exibir suas virtudes em O Livro dos Monstros Guardados.

A peça parte da difícil tarefa de teatralizar uma obra praticamente literária, que não sugere imagens óbvias. Dividido em monólogos independentes, o texto do dramaturgo paulistano Rafael Primot reúne sete personagens sufocados por situações-limite. Expondo um pouco do lado mau existente em todos nós, cada um ganha interpretações que fogem do naturalismo em um instigante desabafo pouco interessado em absolver vilões ou condenar mocinhos. O cenário, idealizado pelo próprio diretor, coloca em cabines sanitárias, lado a lado, os atores Otávio Martins, Fabio Redkowicz, Fabricio Pietro, Sandra Corveloni, Daniel Tavares, Patricia Pichamone e Luciano Gatti. Sentados ou apoiados em suas respectivas privadas, cada ator-narrador expurga frustrações e amarguras.

Parece uma metáfora óbvia, e recorrer a louça de banheiro é um clichê da vanguarda desde que o artista francês Marcel Duchamp levou um urinol para uma galeria — e foi exaustivamente imitado por artistas de todas as áreas. Mesmo assim, o espetáculo se sustenta, em grande parte, por causa das boas interpretações dos atores. Eles vivem no palco tipos estranhos. Entre eles, um executivo na veemente defesa de suas fantasias sexuais, um garoto com problemas urinários e um maníaco por limpeza. As boas atuações garantem humanidade e até certa simpatia a esses personagens. A mão firme de Zé Henrique se evidencia principalmente nas composições dos personagens de Patricia Pichamone e Otávio Martins. Tão fáceis de cair na caricatura ou até no ridículo, as interpretações para a menina Magali e para o executivo Mister M ressaltam o cuidado de um diretor que, mesmo apostando em encenações de impacto, sabe que sem atores não há efeito que sustente uma montagem.

Dirceu Alves Jr. é crítico de teatro de Veja São Paulo.

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A PEÇA
O Livro dos Monstros Guardados. De Rafael Primot. Direção de Zé Henrique de Paula. Com Sandra Corveloni, Otávio Martins, Patricia Pichamone, entre outros. Teatro Imprensa (rua Jaceguai, 400, Bela Vista, São Paulo, SP, tel. 0++/11/3241-4203). 4ª e 5ª, às 21h. Até 26/11. R$ 10.

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17/11/2009

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