
Revista BRAVO! | Março/2009
Por Gabriela Mellão
Leia também a programação completa do festival.
Em sua 18a edição, que acontece entre os dias 17 e 29 deste mês em vários espaços da cidade, o Festival de Curitiba mostra de que maneira essa sua maioridade, mais que simbólica, pode representar um avanço para a maturidade dos grandes acontecimentos culturais do Brasil. Ele nasceu como uma mostra de teatro que pretendia levar a Curitiba montagens do eixo Rio-São Paulo. Depois, incorporou uma mostra paralela inspirada no festival de teatro de Edimburgo, o Fringe ("franja" ou "margem", em inglês). O Fringe escocês é uma mostra de teatro sem curadoria, aberta a todos os que desejam apresentar suas peças. Nos últimos anos, o Festival de Curitiba seguiu outro caminho trilhado por Edimburgo: apostou cada vez mais na diversidade da programação, que passou a incorporar outras linguagens artísticas. A ideia era transformar a cidade não apenas na sede temporária de uma reunião de peças de teatro, mas num grande polo artístico, turístico e de viabilização econômica da própria atividade cultural.
Sem a palavra "teatro" em seu nome oficial desde o ano passado, o Festival de Curitiba reúne atividades relacionadas a teatro, dança, música, literatura, artes visuais, artes performáticas, mostras de ilusionismo, stand-up e, pela primeira vez, gastronomia. Ao contrário de outros eventos similares, com curadorias por vezes imbuídas de concepções estéticas e ideológicas restritivas, o modelo de Curitiba é inclusivo na sua programação, justamente porque pretende falar com o maior número de pessoas possível. No ano passado, o público chegou a 160 mil pessoas, e a expectativa é que chegue a 180 mil nesta edição.
No teatro, que continua sendo o carro-chefe do evento, o Fringe de Curitiba hoje faz sombra ao original de Edimburgo — são 290 espetáculos de 21 estados do país. Ao lado disso, a organização leva sucessos da última temporada no Rio de Janeiro e São Paulo para engrossar a programação da mostra principal. Como o Festival de Curitiba acontece no início do ano, ele favorece a estreia de montagens profissionais, nacionais e internacionais. Estas, por sua vez, fazem o movimento contrário: de Curitiba, elas partem para outras grandes capitais do país.
Além da capacidade de atrair grande público, essa fórmula vem contribuindo para a vitalidade artística e econômica do setor. Pensado também para ser uma espécie de "feira", o Festival de Curitiba serve de vitrine, atraindo "olheiros" de teatros e eventos do país. Armando Fernandes, profissional responsável pela programação teatral do Sesc Avenida Paulista, em São Paulo, diz que a administração central da entidade forma equipes de técnicos para acompanhar os grandes eventos teatrais e que há inúmeros casos de espetáculos vistos em Curitiba selecionados para compor a programação das unidades do Sesc. "Um exemplo bem recente é Deus Danado, da companhia A Máscara de Teatro, de Mossoró, do Rio Grande do Norte. Essa produção esteve no Fringe e foi vista por dois técnicos. Pela ousada proposta de encenação e a ótima atuação do elenco, a companhia foi convidada para uma temporada na unidade Avenida Paulista, numa linha que chamamos internamente de 'fora do eixo', espetáculos produzidos em estados que não Rio de Janeiro e São Paulo", afirma.
STOPPARD E MÁGICA
Neste ano, o cardápio variado tem como destaque a estreia da montagem brasileira de Rock 'n' Roll, escrita por um dos dramaturgos mais importantes da atualidade, Tom Stoppard. Na peça, situada entre Cambridge e Praga entre os anos de 1968 até 1990, Stoppard opõe dois personagens — o inglês Max Morrow, um comunista radical, e seu aluno Jan, idealista tcheco que luta por uma sociedade libertária — para explorar as contradições do comunismo numa época de explosão do rock. Em boa parte, a trama reflete a própria trajetória de Stoppard, que passou a infância na Tchecoslováquia e emigrou mais tarde para a Inglaterra.
Outro destaque é o internacional Sin Sangre, junção inovadora de teatro e cinema feita pela companhia Teatro Cinema, do Chile, para contar uma história sobre vingança e reconstrução de memória, adaptada do romance homônimo do escritor italiano Alessandro Baricco. Na grade destinada aos sucessos já consagrados, a diversidade continua valendo — inclui dos mais palatáveis aos mais sofisticados. Entre eles, Calígula, de Albert Camus, montagem de Gabriel Villela; A Cabra ou Quem É Sylvia?, de Edward Albee, com direção de Jô Soares; e Inveja dos Anjos, da Armazém Companhia de Teatro.
No que se refere à mostra paralela do Fringe, ela é, por definição, um tiro no escuro. Pode abrigar boas surpresas ou produções de baixa qualidade, que, segundo alguns críticos, têm o potencial de afastar definitivamente dos teatros espectadores em formação. O fato é que a postura inclusiva do festival implica riscos — e tentar eliminá-los totalmente equivaleria a acabar com a defesa radical da diversidade. "Não existe outro espaço no Brasil que acolha uma parte tão extensa da produção nacional, diferente de muitos festivais que escolhem poucos espetáculos", diz Edmilson Suassuna, ator e produtor do Grupo Oxente de Teatro, de Aracaju, Sergipe, que participou do Fringe em 2003 e neste ano retorna com o espetáculo O Casamento Suspeitoso, de Ariano Suassuna. Na primeira vez, ele conta, o grupo sofreu alguns meses para pagar a dívida de mais de R$ 4 mil adquirida com a compra das passagens rodoviárias de Aracaju a Curitiba, onde os sete integrantes ficaram hospedados na casa de uma amiga. Mas Edmilson garante que a repercussão da peça valeu o investimento.
A taxa de inscrição do Fringe, de R$ 60, garante aos grupos um espaço de apresentação equipado com luz e som, um produtor e um técnico, alguns serviços de assessoria de imprensa, além de uma apostila que dá dicas de como se dar bem no evento — mais uma cópia de Edimburgo. A intenção é criar condições para que essas peças tenham o mínimo de suporte logístico e de divulgação, a fim de que o Fringe não caia na armadilha de ser mais uma mostra mambembe de teatro amador. Se as peças forem boas, e se puderem se viabilizar técnica e economicamente, ganha o evento como um todo. Até hoje, revelações como Por Elise, do grupo mineiro Espanca!, e A Vida É Cheia de Som e Fúria, da Sutil Companhia de Teatro, de Felipe Hirsch, fazem a fama do festival.
O restante dos eventos completa o clima festivo na cidade. Um dos destaques é o Risorama, mostra de stand-up idealizada pelo comediante Diogo Portugal, em que ele e humoristas convidados se apresentam num bar especialmente montado para o evento. No Mish Mash, o ilusionista Celio Amino organiza uma série de shows de mágica, malabarismo e outras performances. Já no Gastronomix, três chefs brasileiros vão comandar menus-degustação preparados especialmente para o evento. Nos cardápios, uma receita de sucesso que combina alta gastronomia com música. Além de vinho, a trilha sonora deve estar em harmonia com a sequência de entradas, pratos principais e sobremesas.
Tudo isso para transformar Curitiba na "Edimburgo brasileira". "Hoje, todos as atividades têm a mesma importância. O teatro só está na frente porque começou antes", diz o diretor do evento, Leandro Knopfholz. "Quero que o festival esteja para Curitiba da mesma forma que Carnaval está para Salvador e a festa de São João está para João Pessoa. Quero que o Brasil inteiro vá para Curitiba em março, apesar de não ser mês de férias e de não termos mar." Se conseguir, será um feito e tanto para um país como o Brasil.
Gabriela Mellão é jornalista e dramaturga, autora da peça Minha Loucura É o Amor da Humanidade.
ONDE e QUANDO:
Festival de Curitiba. De 17 a 29/3, em diversos espaços da cidade. Locais, preços e programação podem ser conferidos no site http://www.festivaldeteatro.com.br.