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Da esq. para a dir., as atrizes Patrícia Selonk (em pé), Verônica Rocha, Simone Mazzer (em pé) e Simone Viana. Elenco trabalha sem desníveis
Da esq. para a dir., as atrizes Patrícia Selonk (em pé), Verônica Rocha, Simone Mazzer (em pé) e Simone Viana. Elenco trabalha sem desníveis

 

Revista BRAVO! | Fevereiro/2009

Nos Escombros da Memória

Poética e rigorosa no enredo, a peça “Inveja dos Anjos” revela a linguagem coesa conquistada pela Armazém Companhia de Teatro em duas décadas de história

Por Manoela Sawitzki

Enquanto tantos projetos teatrais são pautados pela descontinuidade, feitos e desfeitos com a velocidade de casamentos de revistas, é preciso aplaudir a Armazém Companhia de Teatro, que completa 21 anos. Se a longevidade por si só já possui mérito, a vocação para preencher essa trajetória com realizações de peso demonstra que nem sempre é imperativo ser um refém indefeso da falta de fôlego atual. Seu repertório, que recentemente visitou Nelson Rodrigues e Bertolt Brecht, retoma a construção de uma dramaturgia própria. O resultado pode ser visto em Inveja dos Anjos, na Fundição Progresso, no Rio de Janeiro.

Fruto da parceria de Maurício Arruda Mendonça e Paulo de Moraes, o texto trata, de uma perspectiva poética, da passagem (e dos desvios) do tempo, de seus reflexos sobre a memória e das batalhas afetivas. Embora o simbolismo pulse, a construção do enredo não é negligenciada. O ponto de partida é o encontro de três amigos numa pequena cidade atravessada por uma ferrovia. Ao falarem de memórias que compartilham ou omitem, um deles propõe que suas más lembranças, convertidas em palavra escrita, sejam queimadas num ritual simbólico de apagamento. Porém a chegada de dois novos personagens evidencia conflitos e transporta o passado para o primeiro plano, colocando presente e futuro em xeque.

Linguagem Própria
Uma das vantagens da atividade contínua de um grupo é o desenvolvimento de linguagem própria e coesa. A direção vigorosa de Paulo de Moraes consegue ser também delicada e denota uma arquitetura minuciosa. A bonita luz de Maneco Quinderé ajuda a compor os climas com sutileza. O mesmo se pode dizer dos figurinos de Rita Murtinho, com predomínio de estampas e sobreposições para o feminino e cores chapadas para o masculino. No cenário, de Moraes e Carla Berri, um extenso trilho corta o espaço cênico — o que permite movimentos inusitados a quem está dentro e a sensação de movimento para quem está fora da cena. A trilha sonora de Ricco Viana cria momentos de emoção. E a intimidade entre os sete atores permite que o jogo aconteça sem desníveis.

Alguns detalhes merecem atenção, como a opção por rostos limpos — velhos e jovens carregam as marcas do tempo em subcamadas; é preciso penetrá-las para conhecê-los — e as coreografias da personagem Branca com seu "espantalho". Enfim, é provável que o espectador que se entregar à experiência que Inveja dos Anjos propõe volte às ruas da Lapa com a sensação de ter feito uma daquelas viagens belas, intensas e modificadoras.


Manoela Sawitzki é escritora, dramaturga e jornalista. Blog: www.manoelasawitzki.blogspot.com.

A Peça
Inveja dos Anjos, de Maurício Arruda Mendonça e Paulo de Moraes. Espaço Armazém, na Fundição Progresso (rua dos Arcos, 24, Lapa, Rio de Janeiro, tel. 0++/21/2210-2190). 5ª a dom., às 20h. R$ 15 e R$ 30. Até abril.

 

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