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Os atores da companhia Os Fofos Encenam, em Memória da Cana. Na montagem, o retrato de um Brasil arcaico e patriarcal
Os atores da companhia Os Fofos Encenam, em Memória da Cana. Na montagem, o retrato de um Brasil arcaico e patriarcal

 

Revista BRAVO! | Julho/2009

Crítica - O Vendaval que Vem da Terra

Em “Memória da Cana”, adaptação livre de “Álbum de Família” para o interior de Pernambuco, o dramaturgo Newton Moreno reconduz Nelson Rodrigues às suas origens

Por Gabriela Mellão

A família universal dessacralizada por Nelson Rodrigues em Álbum de Família renasce revigorada ao encontrar raízes no interior de Pernambuco. Em Memória da Cana, adaptação livre da principal tragédia mística (ou "desagradável") do maior dramaturgo brasileiro, a família incestuosa do casal Jonas e Dona Senhorinha surge como rebento da cultura nordestina. Seus integrantes dialogam com sotaque, dançam maracatu, entoam cânticos religiosos e manipulam santos, numa grande montagem da companhia Os Fofos Encenam, sob liderança do diretor e dramaturgo Newton Moreno.

A ambientação tem fundamento. Assim como o diretor e grande parte dos integrantes da companhia, Nelson Rodrigues é pernambucano. Desse modo, Moreno prossegue seu caminho de retorno às origens, percorrido em Agreste (2004), Assombrações do Recife Velho (2005) e As Centenárias (2007). De certa maneira, o dramaturgo reconduz Nelson à sua — talvez inconsciente — fonte de inspiração. Como já afirmou o crítico Sábato Magaldi, se Nelson não fosse de Pernambuco, jamais teria escrito sua obra. "Por mais cariocas que sejam algumas de suas características, por mais visível que seja a cor local, há em seus textos um sopro, um vendaval, que vem da terra", escreveu.

Além de imbuídos da potência primária de figuras arquetípicas das tragédias gregas e rodriguianas, os protagonistas de Memória da Cana são formados com base nas memórias nordestinas dos próprios atores, que se misturam com as tradições populares e mitos da região. Como resultado, o elenco homogêneo esbanja intensa energia em cena, com exceção de Viviane Madureira. A atriz dá vida à Glória — a filha desejada pelo pai Jonas — de maneira demasiadamente pueril, desperdiçando as forças ocultas de sua personagem. Separado do palco apenas por uma cortina fina e translúcida, o público como que participa do desenrolar da trama, ambientada, em grande parte, no cômodo da casa que congrega a família: a sala de jantar, formada por uma imponente mesa de madeira sobre um piso de barro batido.

Ao mesmo tempo em que devolve Nelson Rodrigues à sua primeira memória, Moreno apresenta um estudo sobre o Brasil arcaico, dominado pelo instinto primário do homem e estruturado segundo as relações patriarcais. A inspiração, claro, vem das leituras de Casa-Grande & Senzala, do também pernambucano Gilberto Freyre. Tudo somado, a ambientação nordestina de Álbum de Família, em vez de limitar seu alcance, atribui ao texto um peso raramente visto nos palcos do país nas últimas décadas.


Gabriela Mellão é jornalista e dramaturga.

A PEÇA
Memória da Cana. Texto e direção de Newton Moreno. Com Cia. Os Fofos Encenam. Espaço dos Fofos Encenam (rua Adoniran Barbosa, 151, Bela Vista, São Paulo, SP, tel. 0++/11/3101-6640). 6ª e sáb., às 21h; dom. e 2ª, às 19h. De 3/7 a 2/11. R$ 16 

 

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