
Revista BRAVO! | Agosto/2009
Por Gabriela Mellão
É quase impossível não tentar enxergar algo de significativo na última obra de um artista. Celebração, a peça derradeira de Harold Pinter, morto no ano passado, parece oferecer esse significado tão procurado. No texto, o dramaturgo inglês "festeja" de maneira absolutamente irônica a ausência de sentido da vida. O título "comemora" o desrespeito do homem contemporâneo consigo próprio e com os outros, sua falsidade, sua falta de cultura e completa obsessão por sexo e dinheiro. Essa ode ao suposto fracasso do mundo atual, escrita em 2000 e encenada em Londres pelo próprio Pinter, ganha a primeira temporada brasileira, sob o comando seguro de Eric Lenate — primeiro diretor formado por Antunes Filho em seu Centro de Pesquisa Teatral (CPT), em São Paulo. O espetáculo apresenta uma batalha corrosiva entre três casais, travada no salão de um restaurante refinado. Não se trata de guerra de sexos: o combate é contra a natureza humana. Nesse mundo de endinheirados solitários e individualistas, não se economiza sarcasmo ou sorriso. A agressão é geral e contínua, porém dita com toda a pompa, conforme manda a etiqueta. A montagem, que venceu o 13º Festival de Teatro da Cultura Inglesa, em São Paulo, apodera-se da partitura dramatúrgica de Pinter com propriedade. Afina o tom de cada farpa atirada em cena, por atores que demonstram domínio do palco, formados, em sua maioria, também no CPT. As célebres pausas da obra de Pinter — momentos em que os diálogos se atropelam e dão lugar ao silêncio — delatam abismos, revelando o discurso presente no vazio, ainda mais valioso que o audível. A grande qualidade da montagem, entretanto, é apostar no aspecto absurdo da história, contrapondo-se ao lado panfletário de Pinter — que existe aqui como também em outras obras recentes que apresentam temas políticos, como Cinza às Cinzas (1994). Inspirado pelos impulsos psicóticos de um dos personagens de Celebração, Lenate cria, por exemplo, uma cena misteriosa, passada inteiramente na coxia. Também acentua a presença enigmática do garçom do restaurante, interpretado por Pedro Guilherme: com um sorriso indefinido no rosto e patins nos pés, ele interfere nas conversas vazias dos casais, relatando vivências fantasiosas de seu avô. Talvez sejam esses os momentos que mais se aproximem do significado da última obra de Pinter. É como se, por meio do garçom, o autor sugerisse que a imaginação é a única saída possível para a felicidade. Gabriela Mellão é jornalista e dramaturga, autora da peça Minha Loucura É o Amor da Humanidade.
A PEÇA
Celebração. De Harold Pinter. Direção de Eric Lenate. Com Luciano Gatti, Carlos Morelli, entre outros. Teatro Cultura Inglesa (rua Deputado Lacerda Franco, 333, Pinheiros, São Paulo, SP, tel. 0++/11/3814-0100). 6ª e sáb., às 21h, e dom., às 20h. Até 13/9. R$ 20.