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As atrizes Andréa Beltrão (à esq.) e Marieta Severo. O tom geral é cômico, mas também há emoção na história das carpideiras
As atrizes Andréa Beltrão (à esq.) e Marieta Severo. O tom geral é cômico, mas também há emoção na história das carpideiras

 

Revista BRAVO! | Junho/2009

Crítica - A Morte de um País Arcaico

Com atuações memoráveis de Marieta Severo e Andréa Beltrão, “As Centenárias” leva ao grande público a oralidade sublime do Brasil mítico retratado na obra de Newton Moreno

Por Gabriela Mellão

Marieta Severo e Andréa Beltrão são mestras na difícil tarefa de mesclar cultura de qualidade e sucesso comercial. Há oito anos, as atrizes garantem ibopes rechonchudos para a série de TV A Grande Família e, juntas, já rodaram o Brasil em peças como A Dona da História (1998). Repetem o feito lançando-se num voo ainda mais alto com a comédia As Centenárias, de Newton Moreno, que chega a São Paulo depois de um ano e meio de temporada carioca e 11 prêmios.

Trata-se do primeiro sucesso comercial de Moreno, o mais talentoso dramaturgo da nova geração do país. Com uma obra marcada pela síntese e musicalidade da palavra, retratando a riqueza de um Brasil mítico, o autor explora em As Centenárias um ofício importante da cultura popular: o das carpideiras, mulheres que são pagas para chorar e entoar cânticos fúnebres em velórios. É uma arte que traduz o lirismo da oralidade do Nordeste brasileiro, transpondo para a ficção a história de amizade entre as atrizes.

Marieta e Andréa interpretam, respectivamente, Socorro e Zaninha, carpideiras centenárias do Cariri. O espetáculo se alterna entre passado e presente, tendo a morte como fio condutor de causos diversos da história das protagonistas. O tom geral é cômico, sobretudo por salientar aspectos ingênuos das carpideiras. Há graça na ignorância da dupla diante de tecnologias como a luz elétrica e o rádio, mas também há emoção no encantamento da jovem Zaninha pelo ofício de Socorro, que impõe uma condição para o início do trabalho conjunto: ter um filho para aprender a temer a morte.

MAMULENGOS
O diretor Aderbal Freire-Filho mantém as referências à cultura nordestina usando 240 mamulengos para decorar a parede de fundo do palco. Ao mesmo tempo em que servem de adereço, os bonecos representam os demais personagens da trama. Embora não materialize a síntese tão explorada na linguagem de Moreno, poderosa por estabelecer a ponte entre o arcaico e o moderno, o recurso do diretor permite que as protagonistas se alternem entre todos os personagens — com exceção da Morte e da Mulher de Luto, representados por Sávio Moll. Dessa forma, Marieta e Andréa transmutam múltiplas vezes diante dos olhos do espectador, construindo e desconstruindo vidas com a riqueza de detalhes e a naturalidade dos grandes, em performances memoráveis.

Gabriela Mellão é jornalista e dramaturga, autora da peça Minha Loucura É o Amor da Humanidade.


A PEÇA
As Centenárias. De Newton Moreno. Direção de Aderbal Freire-Filho. Com Marieta Severo, Andréa Beltrão e Sávio Moll. Teatro Raul Cortez — Fecomércio (r. Dr. Plínio Barreto, 285, Bela Vista, São Paulo, SP, tel. 0++/11/2198-7701). 6ª, às 21h30, sáb., às 21h, e dom., às 17h. Até 28/6. De R$ 40 a R$ 90.

 

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