Por Gabriela Mellão
Antunes Filho está de volta à peça A Falecida, a primeira tragédia carioca de Nelson Rodrigues. Em seu currículo, o diretor paulista tem duas montagens dessa obra - a primeira em 1965 e a segunda em 1989, quando o texto, justaposto a Os Sete Gatinhos, formou o espetáculo Paraíso Zona Norte. Vinte anos depois dessa última incursão, Antunes quer tudo, menos se repetir. Não é pouco. Aos 79 anos, o diretor paulista merece aplausos por continuar empenhado em inovar. No entanto, os seus experimentos parecem inconclusos em A Falecida Vapt-Vupt. Na montagem, Antunes acelera as peripécias de Zulmira, a suburbana tuberculosa obcecada por um enterro digno. O problema não é tanto o ritmo "vapt-vupt" - a narrativa original já era formada por cenas rápidas -, mas o modo como o diretor tenta adaptar ao palco as ideias da videoarte. Inspirado nas teorias de sobreposição de imagens, ele enche o palco de personagens, criando um cenário vivo em que transcorrem situações paralelas. Embora ousado, o recurso não mostra ser decisivo para o desenrolar da história contada. É gratuito, sem resultado concreto para o espetáculo. Na peça, o destino desafortunado de Zulmira e de seu marido, Tuninho (como de hábito, uma grande interpretação do ator Lee Thalor), acontece entre as mesas de um bar. Entre os frequentadores está, no canto esquerdo do palco, uma senhora de aparência refinada tomando seu chá, movimentando-se lentamente, como num espetáculo de dança butô. Ao lado dela, um casal joga dominó. Mais à direita, quatro marmanjos esquecem a passagem do tempo, entre cervejas e partidas de cartas. No centro do palco, um homem escreve incessantemente, representando o próprio Nelson Rodrigues. A quantidade de informações trabalhadas em simultaneidade tem grande impacto no início, obrigando o espectador a ampliar o olhar - um feito admirável, uma vez que o público de teatro foi treinado para se concentrar em uma única cena. No decorrer do espetáculo, entretanto, a imobilidade desses personagens-cenário vira excesso e enfraquece a peça. Do começo ao fim, a senhora da mesa de canto bebe, inalterada, seu chá. O jogo de dominó continua exatamente como começou, assim como o jogo de cartas e as rodadas de cerveja. A ambientação humana não se justifica se nada (ou quase nada) nela se altera. Na sua busca por novos caminhos, Antunes mostra disposição e ânimo louváveis - mas também que seus recursos ainda carecem de amadurecimento para ir além da inovação pela inovação. A PEÇA
A Falecida Vapt-Vupt. De Nelson Rodrigues. Direção de Antunes Filho. Com Bruna Anauate, Lee Thalor e outros. Sesc Consolação (rua Dr. Vila Nova, 245, São Paulo, tel. 0++/11/3234-3000). 6a, às 21h; sáb., às 19h e às 21h. Até 12/12. De R$ 2,50 a R$ 10.