
Revista BRAVO! | Maio/2009
Por Manoela Sawitzki
É provável que a maioria estranhe o nome destacado no programa: Daniel MacIvor. Até há pouco inédita no Brasil, a obra do dramaturgo canadense chega ao país por meio do diretor Enrique Diaz, que montou a peça In on It. O mérito de Diaz não se encerra na descoberta de um texto de tantas formas instigante. Ele também se cercou de uma equipe que faz da encenação, em cartaz no Rio de Janeiro, um desses raros episódios em que o jogo do teatro, voltando-se ao essencial, mostra sua força.
Marcada por diálogos fluidos, que vão do humor sutil ao cáustico, do lirismo quase literário à linguagem de simplicidade tocante, a peça é divida em três planos que se alternam. Num (o presente), dois homens discutem o enredo e os caminhos para a encenação de um texto escrito por um deles — discussão que logo se amplia e abrange a antiga ligação amorosa de ambos. Em outro (a peça), se dá a representação do texto: cenas breves revelam os conflitos de um personagem diante da morte iminente. No último (o passado), etapas da relação dos dois homens são revividas e esmiuçadas.
JUNÇÃO DE FRAGMENTOS
O exercício metalinguístico é permanente. No centro da discussão está o confronto com a finitude: da vida, do amor, dos laços. Se a ideia do fim turva e dilacera, o ato de representar pode ser um corajoso método de recuperação e, talvez, de entendimento. O sentido do espetáculo, construído por meio da junção desses fragmentos, é múltiplo e mutável, porque condicionado ao olhar de cada espectador.
A direção de Diaz, exemplar, se concentra na compreensão da carpintaria do texto e no ótimo trabalho dos dois atores, Emílio de Mello e Fernando Eiras, que combinam densidade e leveza, dando conta de todas as camadas dramatúrgicas com atuações em que nada sobra e nada falta. A luz de Maneco Quinderé marca as passagens de um plano ao outro com precisão e valoriza os climas diferentes. O trabalho de Luciana Cardoso, com os figurinos, e Lucas Marcier, com a trilha sonora, ajuda a compor a unidade da encenação. Minimalista, a cenografia de Domingos de Alcântara atende às indicações do autor: duas cadeiras num palco quase nu.
No teatro, na vida, na memória, os bastidores estão expostos. A mesma simplicidade que serve de base para a construção engenhosa de Daniel MacIvor permeia o conjunto de criação dessa montagem de In on It. O resultado final toca, provoca, confunde e desafia. É, sem dúvida, um encontro imperdível.
A PEÇA
In On It, de Daniel MacIvor. Direção de Enrique Diaz. Com Emílio de Mello e Fernando Eiras. Oi Futuro (rua Dois de Dezembro, 63, Flamengo, Rio de Janeiro, tel. 0++/21/3131-3060). De 6ª a dom., às 19h30. R$ 7,50 a R$ 15. Até 28/6.