
Revista BRAVO! | Abril/2009
Por Armando Antenor
Se o raciocínio binário de repente desse conta de explicar a complexidade humana, poderíamos dividir os habitantes da Terra em apenas duas tribos: a dos que sabem e a dos que experimentam. Felipe, então, pertenceria à primeira. Ele sabe, por exemplo, tudo do mar. Nasceu em Ipanema, na rua Joaquim Nabuco, perto de uma das mais festejadas praias cariocas. Cresceu observando o oceano e assimilou cada detalhe da rotina marítima: o silêncio alvoroçado dos peixes, a tonalidade indecisa do horizonte, a persistência involuntária das ondas, a geometria barroca das conchas. Também apreendeu do mar o que só existe em sonho: os tesouros de Atlântida, as promessas das sereias, o perfume de Iemanjá. É capaz de discorrer longamente sobre o assunto — sobre peixes, horizonte, ondas, conchas e devaneios. Ainda assim, fazia 14 anos que não provava o mar. Catorze anos sem entrar na água. Catorze anos sem experimentar tudo o que sabe. Às vezes, justifica a abstinência ressaltando que mora em São Paulo, bem longe da areia. Peca por omissão: deveria acrescentar que, vira e mexe, vai para o Rio de Janeiro — uma assiduidade que transforma a justificativa em vergonhosa desculpa. No último réveillon, quebrou finalmente o jejum. Mergulhou em uma enseada de Parati. Gostou. Gostou muito. Mas não tem ideia de quando repetirá a dose. — Por residir mais no mundo de dentro que no de fora, costuma descuidar do corpo. Prioriza as reflexões às flexões, como diz, oscilando entre a ironia e o desalento. Movimenta-se tão pouco que adquiriu uma inflamação generalizada nos músculos. Para amenizá-la, precisaria se alongar com uma regularidade que lhe parece obscena. Do mesmo modo, em vez de atender os imperativos do sono, prefere driblá-los e atravessar as noites lendo, pensando ou dirigindo ensaios. Resultado: vai dormir às cinco da manhã e se levanta antes das 11. Não bastasse, come desreguladamente e amarga um perene sobrepeso. Os adversários do racionalismo alegariam que Felipe se tornou prisioneiro da própria cabeça. Ignoram, no entanto, que a cabeça é uma prisão contraditória. Por um lado, enclausura. Por outro, propicia voos magníficos, que inventam gestos, sentimentos e sensações.
O que há de real e o que há de mitológico nas memórias de família? O diretor, filho único da nutricionista Maria Izabel Lopes com o médico Emílio Werneck Hirsch, não se preocupa em responder à indagação traiçoeira sempre que repete uma história narrada pelos parentes mais velhos. Era 1972 ou 1973 (quem liga para datas?). Felipe mal engatinhava quando Maria Izabel contraiu uma doença grave e misteriosa que lhe atacou a garganta. No auge da crise, Emílio examinou a mulher e avisou, enigmático, que iria sair. "Não demoro", garantiu. Sozinha em casa com o bebê, Maria Izabel aguardou séculos pelo marido. "Como pôde me largar aqui?", perguntava-se, desolada. Às tantas, Emílio retornou. Ele, que se especializara em pneumologia e se dedicava sobretudo à pesquisa, raspara discretamente a garganta de Maria Izabel e levara a espátula para o laboratório. Ficou um tempão analisando o material até identificar a bactéria que provocara o estrago e arrumar um jeito de eliminá-la. — Mesmo quando admite que o relato beira o folhetinesco, Felipe se comove. Toma o episódio como um espelho perfeito do caráter de Emílio. Pacato, caloroso e doce, aquele homem não hesitava em ser disciplinadamente prático e impassível se as circunstâncias exigissem. Escutava com sincera atenção os infortúnios alheios, mas evitava se abrir por inteiro. Deixava nos interlocutores a impressão de que ocultava algo. Uma angústia? Um medo? Uma frustração? Impossível desvendar — Emílio morreu em 1996 sem nunca compartilhar a zona nebulosa. Felipe se ressente um pouco do recolhimento paterno. Entretanto, suspeita que age de maneira parecida e que raríssimas vezes se mostra de todo. — A mãe, em contrapartida, é luminosa. Valoriza a transparência e rejeita o sombrio por intuir que uma ordem essencialmente vital norteia a ilusória bagunça do universo. Mudou-se para Curitiba na década de 1980 e continua atada à metrópole tristonha onde Felipe passou boa parte da juventude. Sem hastear bandeiras ecológicas, Maria Izabel cultiva um sólido amor pela natureza. "Não se esqueça de fotografar os bichos e as plantas diferentes que encontrar no caminho", recomenda tão logo ouve a notícia de que o filho vai viajar. Felipe jamais esquece.
Ele está completando 37 anos. Quando tinha 6, viu os pais se separarem. A dissolução do casamento, porém, não privou o menino de afeto e segurança. Felipe desbravou a infância em paz. Só pressentiu o absurdo inescapável de existir na puberdade, depois de ler Esperando Godot. Fisgou o clássico de Samuel Beckett entre as centenas de livros que recheavam a biblioteca de Emílio. Nada até aquele momento lhe causara tanto impacto quanto a incoerência dos diálogos, a imprecisão espacial e o vazio dramatúrgico que caracterizam a peça. — Visitar a mãe sempre hospitaleira, jantar com os amigos do peito ou matar o tempo em companhia da mulher. Felipe desconhece antídotos melhores contra a estranheza das coisas. Em nenhuma outra circunstância, nem mesmo sob os aplausos do público, o encenador se sente tão pleno e acolhido. Há quem chame isso de clichê. Felipe talvez chame de felicidade.