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Felipe Hirsch no cenário de Avenida Dropsie, um dos espetáculos da Sutil. Dificuldade para se revelar por inteiro
Felipe Hirsch no cenário de Avenida Dropsie, um dos espetáculos da Sutil. Dificuldade para se revelar por inteiro

 

Revista BRAVO! | Abril/2009

Confessionário - Felipe Hirsch

O diretor comemora os 15 anos de sua companhia teatral, a Sutil

Por Armando Antenor

Se o raciocínio binário de repente desse conta de explicar a complexidade humana, poderíamos dividir os habitantes da Terra em apenas duas tribos: a dos que sabem e a dos que experimentam. Felipe, então, pertenceria à primeira. Ele sabe, por exemplo, tudo do mar. Nasceu em Ipanema, na rua Joaquim Nabuco, perto de uma das mais festejadas praias cariocas. Cresceu observando o oceano e assimilou cada detalhe da rotina marítima: o silêncio alvoroçado dos peixes, a tonalidade indecisa do horizonte, a persistência involuntária das ondas, a geometria barroca das conchas. Também apreendeu do mar o que só existe em sonho: os tesouros de Atlântida, as promessas das sereias, o perfume de Iemanjá. É capaz de discorrer longamente sobre o assunto — sobre peixes, horizonte, ondas, conchas e devaneios. Ainda assim, fazia 14 anos que não provava o mar. Catorze anos sem entrar na água. Catorze anos sem experimentar tudo o que sabe. Às vezes, justifica a abstinência ressaltando que mora em São Paulo, bem longe da areia. Peca por omissão: deveria acrescentar que, vira e mexe, vai para o Rio de Janeiro — uma assiduidade que transforma a justificativa em vergonhosa desculpa. No último réveillon, quebrou finalmente o jejum. Mergulhou em uma enseada de Parati. Gostou. Gostou muito. Mas não tem ideia de quando repetirá a dose. Por residir mais no mundo de dentro que no de fora, costuma descuidar do corpo. Prioriza as reflexões às flexões, como diz, oscilando entre a ironia e o desalento. Movimenta-se tão pouco que adquiriu uma inflamação generalizada nos músculos. Para amenizá-la, precisaria se alongar com uma regularidade que lhe parece obscena. Do mesmo modo, em vez de atender os imperativos do sono, prefere driblá-los e atravessar as noites lendo, pensando ou dirigindo ensaios. Resultado: vai dormir às cinco da manhã e se levanta antes das 11. Não bastasse, come desreguladamente e amarga um perene sobrepeso. Os adversários do racionalismo alegariam que Felipe se tornou prisioneiro da própria cabeça. Ignoram, no entanto, que a cabeça é uma prisão contraditória. Por um lado, enclausura. Por outro, propicia voos magníficos, que inventam gestos, sentimentos e sensações.

O que há de real e o que há de mitológico nas memórias de família? O diretor, filho único da nutricionista Maria Izabel Lopes com o médico Emílio Werneck Hirsch, não se preocupa em responder à indagação traiçoeira sempre que repete uma história narrada pelos parentes mais velhos. Era 1972 ou 1973 (quem liga para datas?). Felipe mal engatinhava quando Maria Izabel contraiu uma doença grave e misteriosa que lhe atacou a garganta. No auge da crise, Emílio examinou a mulher e avisou, enigmático, que iria sair. "Não demoro", garantiu. Sozinha em casa com o bebê, Maria Izabel aguardou séculos pelo marido. "Como pôde me largar aqui?", perguntava-se, desolada. Às tantas, Emílio retornou. Ele, que se especializara em pneumologia e se dedicava sobretudo à pesquisa, raspara discretamente a garganta de Maria Izabel e levara a espátula para o laboratório. Ficou um tempão analisando o material até identificar a bactéria que provocara o estrago e arrumar um jeito de eliminá-la. Mesmo quando admite que o relato beira o folhetinesco, Felipe se comove. Toma o episódio como um espelho perfeito do caráter de Emílio. Pacato, caloroso e doce, aquele homem não hesitava em ser disciplinadamente prático e impassível se as circunstâncias exigissem. Escutava com sincera atenção os infortúnios alheios, mas evitava se abrir por inteiro. Deixava nos interlocutores a impressão de que ocultava algo. Uma angústia? Um medo? Uma frustração? Impossível desvendar — Emílio morreu em 1996 sem nunca compartilhar a zona nebulosa. Felipe se ressente um pouco do recolhimento paterno. Entretanto, suspeita que age de maneira parecida e que raríssimas vezes se mostra de todo. A mãe, em contrapartida, é luminosa. Valoriza a transparência e rejeita o sombrio por intuir que uma ordem essencialmente vital norteia a ilusória bagunça do universo. Mudou-se para Curitiba na década de 1980 e continua atada à metrópole tristonha onde Felipe passou boa parte da juventude. Sem hastear bandeiras ecológicas, Maria Izabel cultiva um sólido amor pela natureza. "Não se esqueça de fotografar os bichos e as plantas diferentes que encontrar no caminho", recomenda tão logo ouve a notícia de que o filho vai viajar. Felipe jamais esquece.

Ele está completando 37 anos. Quando tinha 6, viu os pais se separarem. A dissolução do casamento, porém, não privou o menino de afeto e segurança. Felipe desbravou a infância em paz. Só pressentiu o absurdo inescapável de existir na puberdade, depois de ler Esperando Godot. Fisgou o clássico de Samuel Beckett entre as centenas de livros que recheavam a biblioteca de Emílio. Nada até aquele momento lhe causara tanto impacto quanto a incoerência dos diálogos, a imprecisão espacial e o vazio dramatúrgico que caracterizam a peça. Visitar a mãe sempre hospitaleira, jantar com os amigos do peito ou matar o tempo em companhia da mulher. Felipe desconhece antídotos melhores contra a estranheza das coisas. Em nenhuma outra circunstância, nem mesmo sob os aplausos do público, o encenador se sente tão pleno e acolhido. Há quem chame isso de clichê. Felipe talvez chame de felicidade.

 

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