Outubro/2009

Antonio Fagundes - Restos

Em "Restos", peça provocadora do americano Neil LaBute, Antonio Fagundes brilha no papel de um viúvo de meia-idade que tenta conviver com a dor da perda

Por Gabriela Mellão

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Fazia três anos que Antonio Fagundes não pisava num palco de teatro. Mais identificado com o cinema e a TV nos últimos anos, o ator - que já interpretou textos engajados do Teatro de Arena (Arena Conta Tiradentes, 1967), musicais da Broadway (Godspell, 1973), experimentações (Carmem com Filtro, 1986) e clássicos (Macbeth, 1992) - tira o atraso, com louvor, em Restos, peça do dramaturgo e diretor de cinema americano Neil LaBute.


No segundo monólogo de sua carreira (o primeiro foi Muro de Arrimo, de Carlos Queiroz Telles, em 1975), Fagundes interpreta Edward Carr, um homem de meia-idade, no momento em que sofre a sua perda mais dolorida: ele está no velório de sua mulher, 15 anos mais velha, com quem viveu três décadas de uma paixão única. Minutos antes do enterro, reflete sobre a força do sentimento que os uniu, contesta os hábitos moralistas da sociedade e revisa sua trajetória pouco convencional.


Plenamente possuído pelo personagem, Fagundes é preciso e expressivo no palco. Por exemplo: ao rememorar o sexo com a mulher, pressiona com força uma das pernas e contorce o tronco para o interior, exprimindo com o corpo a intensidade de seu desejo. O ator brilha solitário em cena, mas seu bom desempenho se deve em parte à regência do diretor Marcio Aurelio. Além de se concentrar no trabalho de atuação, o encenador dá qualidade poética ao espetáculo. Em suas mãos, o realismo contundente de LaBute é aproximado de um universo simbólico, ainda mais profundo.


O cenário de Ruy Cortez delimita o palco, ocupado por cinco cadeiras e dois cinzeiros pretos, com um painel translúcido também negro que, quando iluminado, projeta imagens. A menos abstrata delas apresenta uma metáfora sobre a passagem do tempo: durante longos 20 minutos, um jato fino de areia jorra do teto sobre uma cadeira. É um movimento que continua poderoso mesmo quando acaba - o tempo se esgota, e os grãos jazem imóveis no chão.


Restos é um texto provocador, como o restante da obra de LaBute0- que, no cinema, já dirigiu filmes como Possessão (2002), baseado no romance da inglesa A. S. Byatt. Em sua dramaturgia, o americano lança observações ácidas sobre o cotidiano do homem contemporâneo e instiga a mente dos espectadores com habilidade, surpreendendo-os com uma reviravolta no desfecho. Com a interpretação de Antonio Fagundes e a direção de Marcio Aurelio, Restos é um espetáculo que merece ser visto.

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Gabriela Mellão é jornalista e dramaturga, autora da peça Parasita, entre outras.

A PEÇA
Restos. De Neil LaBute. Direção de Marcio Aurelio. Com Antonio Fagundes. Teatro Faap (rua Alagoas, 903, Pacaembu, São Paulo, SP, tel. 0++/11/3662-7233). 5a e 6a, às 21h; sáb., às 20h; e dom., às 18h. Até 29/11. R$ 100.

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