Por Redação
Junto de seu novo romance, Refrão da Fome, chega neste mês às livrarias outra obra do atual Nobel de Literatura, Jean-Marie Le Clézio, Pawana. A história é o relato de uma viagem em 1856, durante a colonização da costa da Califórnia. O aventureiro capitão Charles Melville Scammon parte a bordo do navio Léonore em busca da enseada desconhecida, escondida pelas rochas do litoral. Na viagem, é descoberta uma espécie de santuário para baleias. Depois do encantamento pelo esconderijo dos animais, a tripulação atina para o bem valioso que tem diante de si, e tem início o extermínio.
O escritor, que nasceu em Nice e viveu parte de sua infância na ex-colônia francesa das Ilhas Maurício, recria de modo comovente a caça aos animais e a agressão à natureza inspirado na lenda mauriciana de que há um lugar encantado onde as baleias-cinzentas vão parir seus filhotes.
O livro se reparte em dois, e apresenta, em cada uma das metades, um testemunho da jornada. Dividem as vozes o capitão, cujo nome relembra, não por acaso, o autor de Moby Dick, e o jovem grumete da embarcação, John, de Nantucket - cenário que Herman Mellville adotou para o clássico da literatura.
O livro apresenta ilustrações e uma linguagem mais jovem que a habitualmente usada por Le Clézio e alcança, assim, também o público mais novo. Nem por isso pode ser visto como um trabalho menos complexo, ou mais leve. Em cenas em que descreve minuciosamente a caça às baleias, o escritor francês constrói um desenho doloroso, sangrento e triste. Com a mesma precisão quase pictórica, descreve a lua e seu reflexo sobre a água. O texto pungente transporta o leitor para dentro dos baleeiros, e transforma a leitura em uma experiência viva, sentida em toda sua força.