Outubro/2009

Gustave Flaubert - A Educação Sentimental

Por que o arrebatador "A Educação Sentimental", do francês Gustave Flaubert, representa o final de uma era e o começo de outra

Por Samuel Titan Jr.

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Imagine o leitor um romance movido pela ambição de ser a suma de seu gênero, de conter em si toda a amplitude e variedade da escrita de ficção, de resumir e esgotar, a um só tempo, todos os romances que o precederam. Mais concretamente, imagine o leitor um romancista disposto a comprimir as dezenas de volumes da Comédia Humana de Balzac nas páginas de um único livro - isto é, de capturar toda a explosão gloriosa e trágica da vida burguesa do século 19 por meio das aventuras de um punhado de personagens. Faça isso, leitor, e terá esboçado mentalmente os contornos de A Educação Sentimental e de seu autor, Gustave Flaubert.

Publicado em 1869 e escrito durante sete longos anos, A Educação Sentimental é mais do que uma obra de maturidade. O rótulo, aliás, não faria grande sentido, em se tratando de um autor que esperou muito, até os 36 anos, para estrear já maduro, com Madame Bovary, grande sucesso do ano de 1857. Quando mete mãos à obra nesse grande romance parisiense, Flaubert está menos preocupado em reafirmar a condição de mestre - um tanto abalada, vale dizer, pelo fracasso de Salammbô, ficção orientalista de 1862 - do que em acertar as contas com o passado. Com o próprio passado, em primeiro lugar: com os fantasmas eróticos e sentimentais da juventude em Rouen e de seus breves tempos de estudante em Paris, dominados pelo vulto de uma mulher mais velha, Élisa Schlesinger. Mas também com o passado coletivo: numa carta dos anos de labuta na Educação, Flaubert fala de seu desejo de escrever "a história moral de minha geração", com a revolução de 1848 por epicentro. Por "história moral" entenda-se uma espécie de dissecção praticada no próprio corpo, na própria memória, e voltada a tentar entender (muitas vezes em termos muito próximos dos de Marx em O Dezoito Brumário de Luís Bonaparte) o que se passara na França naqueles anos que viram a queda de uma dinastia, as tribulações de uma frágil república, a eclosão da guerra de classes e, por fim, a ascensão de uma monarquia espúria como a de Napoleão 3o.

Acerto de contas, por fim, com o passado literário: o Flaubert da Educação não quer apenas se ombrear com seu grande antecessor, Balzac; ele quer mais, ele quer esgotá-lo, resumi-lo por meio das aventuras de um trio central de personagens: Frédéric Moreau, o herdeiro; Charles Deslauriers, rábula, e Marie Arnoux, sua mulher. Em torno dos três, articula-se uma trama rica e vasta de episódios que cobrem toda a gama humana e social do século 19: burgueses e boê­mios, senhoras de família e moças de pouca virtude, operários e arrivistas, com lugar para todo tipo de sentimento e atitude, do amor edípico mais assombrado ao arrivismo mais cínico, muitas vezes associados de maneira surpreendente. Coisa de mestre - mas de um mestre às voltas com o que poderíamos chamar de uma "escrita de risco".

O leitor está, pois, diante de um clássico dos mais singulares, que não se contenta com o domínio magistral do gênero, da forma, mas antes se arrisca nos seus limites. Já muito perto do fim da redação, Flaubert escrevia em outra carta que o trabalho lhe parecia infértil: "as coisas não se encaixam", reclamava ele. E, num sentido muito preciso, não se encaixam mesmo. Pois A Educação Sentimental, fertilíssima como é em cenas, personagens, episódios, tramas paralelas e reviravoltas súbitas, é também o romance do fim da aventura. Com efeito, o leitor não tardará a notar que, nas páginas deste romance, as coisas decerto proliferam, mas parecem fatidicamente dar em nada: o amor se complica e se desdoura, a revolução soçobra, os negócios fracassam. O crítico Georg Lukács captou esse ponto com precisão ao notar que o tempo, neste romance, não põe, só decompõe. A cada tantas páginas, uma frase decreta: "e foi só isso".

O PONTEIRO ANDA PRA TRÁS

Ora, a aventura foi desde sempre — desde Dom Quixote e Robinson Crusoé - o eixo central da forma romanesca, o princípio de estilização por meio do qual o romance tentou capturar a forma da experiência dos indivíduos nos tempos modernos. Renunciar à aventura, decretar o fim da aventura vale por dizer que nossas vidas já não se pautam por ela. E talvez nesse diagnóstico tácito resida o cerne moderno, pós-balzaquiano e pós-burguês de A Educação Sentimental. Instalado no coração do romance, o ano de 1848 deixa de ser uma data histórica entre outras e passa a ser não só o marco final da era heroica da burguesia como também o momento inaugural e melancólico do presente em que ainda vivemos: podemos exaltar nossas causas, cuidar de nossos sentimentos e nos glorificar por nossas proezas, sem que nada disso seja capaz de apagar a suspeita de que o melhor de nossa era já ficou para trás. O dramaturgo irlandês Samuel Beckett provavelmente tinha isso em mente quando, na sua breve temporada como professor universitário, decretou que, entre os autores oitocentistas, Flaubert era o realmente decisivo para o escritor moderno.

Essa corrente moderna, que vai subindo e tomando conta do livro, está inscrita em cada uma das páginas da Educação: no seu andamento seco, por vezes truncado; nos hiatos e lacunas que parecem se insinuar entre os parágrafos e romper o ímpeto da ação; na pontuação muito peculiar; nos advérbios dispostos ao arrepio da gramática; e sobretudo no uso disseminado, pela primeira vez, do discurso indireto livre, que não deixa o leitor saber quem propriamente está falando, se o personagem ou se o narrador. Efeitos sutis e poderosos, que Flaubert lutou por atingir ou, em muitos casos, inventar.

Efeitos que, infelizmente, se perdem na tradução ora relançada: trabalhando há mais de cinco décadas e vindo de um ambiente literário em que Eça de Queirós imperava como modelo de escrita ficcional, o português Adolfo Casais Monteiro fez o ponteiro do relógio estilístico andar para trás e traduziu Flaubert na chave, justamente, de um Balzac ou de um Eça no que este tem de menos balzaquiano. Não faltam, pois, as frases polidas, os efeitos de continuidade e de clímax que o autor abominava, o gosto pelo metafórico onde Flaubert inovava ao ser prosaico, seco ou mesmo crasso. Há coisa de 15 anos, a mesma editora fez uma contribuição importante ao retraduzir Madame Bovary; agora, fica a nos dever um Flaubert à altura da radicalidade e do desencantamento deste que é um dos livros fundadores da modernidade.

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Samuel Titan Jr. é professor de literatura comparada na Universidade de São Paulo e editor da revista Serrote. Ele prepara uma nova tradução de A Educação Sentimental.

O LIVRO
A Educação Sentimental, de Gustave Flaubert. Tradução de Adolfo Casais Monteiro. Nova Alexandria, 416 págs., R$ 65

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25/11/2009

Ana Paula Latrova Macedo - diz: Com Flaubert em boas mãos, dormiremos mais tranquilos.


07/10/2009

Ivone C. Benedetti - diz: Samuel, o Estadão neste fim de semana anunciou a reedição dessa tradução comentada por você e o lançamento próximo da sua tradução. Como leitora contumaz de Flaubert, tradutora de francês e escritora, depois de ler seus comentários fiquei curiosíssima. Se no futuro você puder por algum meio nos brindar com algum estudo comparativo, vai ser muito interessante tanto para os estudos literários quanto para os de tradução.


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