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"Dona Flor e Seus Dois Maridos": o sucesso de 11 milhões de espectadores ainda é recorde absoluto. Fruto de uma época com mais salas de cinema e ingressos mais acessíveis

 

Março/2009 | Assunto do dia

E se fosse sempre esse filme?

Por que "E Se Eu Fosse Você 2" fez tanto sucesso? Seria esse um modelo do que o público quer ver? Há um preconceito por parte da crítica e dos cineastas contra filmes comerciais?

Laila Abou Mahmoud

E Se Eu Fosse Você 2, comédia de Daniel Filho em cartaz desde 2 de janeiro, bateu esse mês o recorde de bilheteria de um filme brasileiro desde 1995, período chamado de "retomada" do cinema nacional, com mais de 5,324 milhões de espectadores. O número impressiona, claro, mas ainda não é um recorde absoluto. Faltou muito, por exemplo, para que chegasse à marca de 11 milhões de espectadores atingida por Dona Flor e Seus Dois Maridos, de 1971, dirigido por Bruno Barreto.

 

Os números alcançados e a comparação com a realidade do cinema nacional décadas atrás colocam importantes questões no debate sobre a sétima arte brasileira. Uma delas é se haveria um modelo de filme que atraia o público - ou características de E SE eu Fosse Você que possam apontar para um cinema nacional que conquista numerosos espectadores. Outra é se a crítica e os cineastas nacionais vêem com olhar de desdém produções que se propõem a comunicar e entreter, uma vez que estaria instaurado o hábito de valorizar o cinema de autor em detrimento de outras propostas.

 

Roteiro bem-feitos, bons atores e assuntos de interesse geral

Cineastas e críticos comentaram o sucesso do filme. E têm seus palpites para esse sucesso. Para José Alvarenga Jr., diretor de Os Normais e Divã (possível estouro de bilheteria com Lilia Cabral no elenco, baseado na peça de Martha Medeiros, cuja estréia está prevista para abril), o filme de Daniel Filho tem um apelo direto com o público por meio do humor. "Num momento de crise, em que as pessoas não sabem se vão estar empregadas no dia seguinte, elas optam pela comédia", opina.

 

Bruno Barreto, diretor de Dona Flor e Seus Dois Maridos e Última Parada 174, discorda de Alvarenga. Para ele, o drama é mais universal. "O humor é mais segmentado, nem todo mundo acha graça da mesma coisa. O que o filme do Daniel Filho conseguiu foi atingir o público de várias idades, classes sociais e gêneros, verticalmente", explica.

 

Para ele, o trunfo do cinema da retomada é a qualidade dos roteiros, o que também transparece no filme de Daniel Filho. Além da capacidade de se comunicar com os espectadores alvo. "O filme tem que atingir o público a que se propôs", diz. 

 

Escolher bons atores, não necessariamente conhecidos, pode ajudar muito - caso de Glória Pires e Tony Ramos.

 

O crítico de cinema da Folha de São Paulo, Inácio Araújo, afirma que a qualidade técnica do cinema nacional aumentou incontestavelmente muito nos últimos anos. "Hoje se gasta mais dinheiros nos filmes comerciais, então tende-se a ter uma produção mais adequada", explica.

 

O fato de um título vir de uma série ou programa na TV de sucesso também ajuda, segundo os profissionais entrevistados. Isso porque eles representam uma aposta segura para os produtores na hora da captação de recursos com empresas. E, para o público, um conforto ao saber de antemão que o filme não trará más surpresas. "O espectador pensa muito antes de sair de casa hoje em dia", diz Bruno Barreto. "O Dona Flor não faria o mesmo número de espectadores se fosse hoje", completa.

 

Preconceito: "filme televisivo", "filme de favela"

"Eu acho que os críticos no Brasil, de uma maneira geral, não conseguem ver os filmes como eles se propõem a ser. Eles querem ver como ele deveria ter sido". A afirmação é de ninguém menos que o diretor da maior bilheteria já obtida no país com um filme, Bruno Barreto.

 

Para o diretor de O que é isso companheiro e O Casamento de Romeu e Julieta, "a crítica de cinema no Brasil piorou muito. Os novos não têm a cultura cinematográfica que os antigos tinham. É uma crítica impressionista, de frases de efeito", avalia.

 

Já para Alvarenga, os críticos mais velhos é que ainda têm um olhar enviesado para os filmes comerciais. "A gente ouve que está fazendo TV no cinema. Mas isso é uma fantasia que fizeram os críticos desmerecerem o cinema", rebate.

O cineasta enxerga uma mudança na relação com filmes que são sucessos comerciais. "Por volta da década de 70, a esquerda prescindia de público, da comunicação de massa. Era culposo fazer sucesso", diz. "Já a minha geração foi para a publicidade sem culpa quando o cinema entrou em crise, na época do Collor", compara, citando Fernando Meirelles como representante desse comportamento. O que teria garantido um conhecimento e apuro técnicos pelos quais já primavam cineastas da fase da chanchada, como Carlos Manga, segundo o diretor.

Já para Jeremias Moreira, autor das duas versões de O Menino da Porteira, tanto a de 1976 quanto a de 2009, há preconceito com determinados temas - entre eles seu filão: o caipira. "Ficam falando: chega de filme de favela. Mas esse é um assunto inesgotável. Os americanos nunca deixam de falar de gângsteres ou de fazer musicais. E a diversidade é que faz a riqueza de um cinema", defende o diretor.

 

E se fosse um modelo?

 

Ainda que E Se Eu Fosse Você tenha ajudado a trazer quem não freqüenta cinema às salas, não é uma fórmula. "Não pode se vender que essa é a solução para o cinema brasileiro", coloca Inácio Araújo.

 

"Dentro do comercial dá para fazer filmes melhores, que me agradem mais ou não. O problema é que somos um país que não têm leitura, portanto muito propensos a sermos reféns, espectadores passivos que se reconhecem na narrativa ligada à telenovela", coloca o crítico, que nega qualquer tipo de preconceito na sua avaliação de filmes comerciais.

 

Fazer também filmes que se comuniquem com um grande público é, no entanto, fundamental na construção de uma indústria do entretenimento. Segundo entrevista de Gustavo Dahl, ex-presidente da Agência Nacional do Cinema e atual gerente do Centro Técnico do Audiovisual ao jornal Folha de São Paulo, "3/4 do investimento em produção cinematográfica via leis de renúncia fiscal é direcionado para o cinema autoral, deixando a indústria do entretenimento brasileiro por conta da TV".

 

Bruno Barreto acredita que isso acarrete em uma anomalia. "Os cineastas não se preocupam com a exibição, quando deveriam se preocupar. Isso é uma seqüela da política de subsídio", argumenta, sem poupar a crítica cinematográfica. "Há uma atitude esquizofrênica. Critica-se a lei de incentivo e se esculhamba filmes com grande público", completa. 

 

O crítico de cinema Inácio Araújo discorda. "Essa questão não tem nada a ver. O que há é uma deficiência de distribuição. Os nossos filmes competem com um Batman, com publicidade massiva, isso é ingrato", diz. Além disso, você pode tentar agradar as pessoas, mas quem são essas pessoas? Isso depende de seu filme. Os cineastas de uma forma ou de outra vão sim atrás de um público", diz.

 

Tentar estabelecer características em comum para os sucessos comerciais brasileiros é um desafio. E talvez um equívoco. Se Cidade de Deus, Carandiru e Meu Nome Não é Johnny tinham a temática da marginalidade, Auto da Compadecida e Dois Filhos de Francisco se voltavam a um Brasil da área rural, do imaginário do homem que vive fora das áreas urbanas. Para Alvarenga, não há fórmulas. A crítica é quem aposta nelas. "Esses filmes todos não se parecem, e isso é genial. O público aceitou todas essas propostas artísticas diferenciadas", diz.

 

"E Se eu Fosse Você venceu a barreira dos 2,5 milhões da classe média", resume Alvarenga, explicando que há uma barreira entre o público cativo de cinema e os que não conseguem se deslocar com alguma frequência a, geralmente, uma sala de shopping center.

 

O fato de o sucesso não ter alcançado os dígitos do marco do cinema nacional: Dona Flor e seus Dois Maridos está menos relacionado ao filme do que ao Brasil de hoje. A existência de mais público se justificava por uma razão simples: havia mais salas de cinema e o preço dos ingressos era muito mais barato. E, não dá para negar, um tema que até hoje leva pelo menos cinco milhões de espectadores ao cinema: a sexualidade e as relações entre gêneros. Mas isso não deve mudar nunca.

 

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05/04/2009

Cauli Fernandes - diz: Cinema, de jeito nenhum, é só diversão. É conhecimento do mundo e de si próprio, mas para que captemos isso, é necessário que o filme nos "enlaçe", sendo que isso pode acontecer sempre com alguma identificação, seja com o personagem, seja com a história que se conta. Assim, o filme não deve ser bobo, mas principalmente não deve ser esquecível, tanto para a pessoa que o assiste - que deve se lembrar para sempre dos sentimentos que teve ao vê-lo - como para o cinema, que sempre deve ter em sua história um filme bom e profundo para se chamar de "seu".

26/03/2009

Mercia - diz: Eu acho que cinema é diversão, vc deve sair leve lá de dentro. O filme proporciona isso, diversão. Prende a atenção de quem está vendo, sem ser bobinho. Cinema é isso, pura diversão e cultura de um País.Só isso , mais nada.

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