

Abril/2009 | Assunto do dia
Por Redação
A matéria completa dessa edição - A Palavra e o Som
"Chega de Verdade" - A íntegra da entrevista que Caetano concedeu a BRAVO!
"Se tiver que eleger o disco mais forte do Caetano, escolho Velô, de 1984. Trata-se de um disco profundamente autoral, em que apenas Augusto de Campos aparece como parceiro na faixa O Pulsar. Quando ouço O Homem Velho sinto que a densidade desta quinta-feira atingiu o auge. Seus conteúdos se potencializam na solidão desértica da ilha. O Quereres é de uma perícia poética admirável que me leva a imaginar outras soluções possíveis dentro da mesma estrutura repentista. A tensão-descontração de Shy Moon adere-se ao medo-paz deste isolamento e me abre o espírito para a audição da flor do lácio de Caetano: Língua. O prazer de dizer é o mote dessa composição, ao lado do prazer da prosa que é a sua mais pura poesia, e quem há de negar que aquela lhe é superior."
Luiz Tatit é músico paulista, um dos fundadores do grupo Rumos, e professor do departamento de Letras da Universidade de São Paulo (USP). Além de discos solo como Felicidade (2004), O Meio (1997), Uni-vos (2005) e Rodopio (2007), é autor de livros de ensaios sobre a MPB. Entre eles, O Século da Canção (Ateliê), Três Canções de Tom Jobim (CosacNaify) e Discos (Publifolha), no qual escreveu sobre Velô e do qual foram retirados alguns excertos para esse depoimento.
"Fina Estampa é o trabalho de que mais gosto do Caetano, por conta de uma certa elegância na escolha do repertório e arranjos, e porque nos aproximou mais da alma latina. Curiosamente, é um disco que tenho redescoberto nos últimos dias, desde que percebi que meu filho mais novo, de apenas um mês de vida, tem especial predileção por La Barca."
Micheliny Verunschk é poeta, autora de Geografia Íntima do Deserto (Landy) e O Observador e o Nada (Edições Bagaço). Mantém o blog http://www.ovelhapop.blogspot.com
"Eu gravei Caetano no meu primeiro disco e, antes mesmo disso, cantava dele Alguém Cantando, no Bando de Teatro Olodum. Tem tantas músicas do Caetano que me emocionam que fica difícil falar de uma só. Gravei Lua Lua Lua e Sol Negro no meu primeiro CD (Sol Negro), que tem um significado especial para mim. Há pelo menos umas 30 músicas do Caetano que eu gostaria de gravar e ainda vou fazer isso. Um Índio é uma delas. Mas Milagres do Povo me emociona especialmente. Ela conta a história do povo brasileiro e da chegada do povo negro como se ele a tivesse vivido. Conforme você vai cantando a música você sente que vai vivendo a História."
Virgínia Rodrigues, cantora, gravou os CDs Sol Negro, Nós, Mares Profundos e Recomeço. Descoberta por Caetano em 1997, durante um ensaio do Bando de Teatro Olodum, teve seu primeiro CD produzido por ele, entre outros nomes.
E a sua obra preferida de Caetano Veloso, qual é?
Leia a seguir a matéria de José Flávio Junior, da edição de abril:
Há exatamente um ano, Caetano Veloso disse para Hermano Vianna que estava com vontade de fazer uma série de shows em que pudesse mostrar para a plateia composições novas, à medida que fossem sendo compostas. O antropólogo achou a ideia genial e sugeriu que Caetano tivesse um blog para mostrar a evolução dessas canções ao longo dos shows. O blog poderia hospedar os vídeos das músicas sendo executadas, para que não apenas os que estivessem presentes nos espetáculos pudessem ouvi-las. Caetano também poderia pedir sugestões sobre o material novo e postar textos que ajudassem o público a entrar na onda. Seria algo inédito, que nem artistas de gerações mais novas teriam tentado. Para sorte da música brasileira, a loucura saiu do papel. Virou a temporada Obra em Progresso, vencedora do último Prêmio Bravo! como grande espetáculo de música popular de 2008, gerou o blog obraemprogresso.com.br e desemboca este mês no álbum Zii e Zie, resumo do que foi essa aventura que mesclou palco com internet, mundo real com mundo digital.
"Fico impressionado com o tempo que ele dedica ao espaço, lendo e respondendo diretamente a qualquer pessoa que se manifeste. Poucos artistas têm essa disposição e esse interesse", afirma Hermano Vianna, que, além de filmar entrevistas com Caetano, sugerir tópicos e moderar os comentários dos frequentadores do blog, atuava publicando as mensagens que recebia do músico baiano. Mas o cantor, que tem 66 anos, logo aprendeu a mexer nas ferramentas do site e dispensou o auxílio do amigo para isso. Rapidamente também começou a diversificar os assuntos. Em vez de focar as músicas novas, passou a discutir política (respondeu a uma análise equivocada que Fidel Castro fez da música Base de Guantánamo, destaque de Zii e Zie), jornalismo cultural (rebateu as críticas dos jornais de São Paulo ao show em homenagem a Tom Jobim que dividiu com Roberto Carlos), reforma ortográfica (criticou linguistas e atraiu um enxame deles para a discussão) e até futebol (elogiou a humildade dos jogadores do time pelo qual torce, o Bahia, por eles terem "se recusado" a golear o time do Poções numa partida válida pelo Campeonato Baiano). "Eu, tendo um blog dedicado a esse disco, não ia deixar de fazer o que sempre fiz", disse Caetano em entrevista a BRAVO!. "Antigamente, comentava as críticas que recebia no palco do show. Era superengraçado. Mas o blog foi criado para acabar quando o disco saísse. E assim será. Pode virar outra coisa ou simplesmente sumir. Continuar sendo o boteco virtual onde a gente conversa e discute é que não vai."
Por enquanto são raros os dias em que o cantor não surge no espaço reservado aos comentários para falar com a turma assídua do obraemprogresso.com.br. Em princípio, os músicos que formam a banda Cê — que começaram a trabalhar com Caetano no álbum de mesmo nome e seguem com ele em Zii e Zie — também deveriam usar o blog para escrever sobre o processo de confecção do álbum. Mas isso nunca ocorreu. O baixista e tecladista Ricardo Dias Gomes, de 28 anos (o mais jovem da Cê), confessa que a timidez o impediu de postar no blog, mas diz acompanhar as discussões e admirar o diálogo que se estabeleceu ali. "O Caetano é um brasileiro que vive a história do país intensamente. Viu muitas coisas se transformarem, e sua memória apurada faz com que suas análises tenham relevância acima da média e despertem outras mentes pensantes, o que faz o blog seguir em frente", opina.
Completam o time musical de Caetano o baterista Marcelo Callado, de 29 anos, e o guitarrista Pedro Sá, de 34. Por ser íntimo de Moreno Veloso, filho mais velho de Caetano, Pedro frequentava a casa do baiano desde a adolescência. Não tardou muito até ser convidado para entrar na banda de Caetano. Hoje, o guitarrista é visto como um dos principais responsáveis pela guinada artística dada pelo cantor a partir do disco Eu não Peço Desculpa, de 2002, gravado em parceira com Jorge Mautner. Pedro Sá é fã de bandas americanas como Pavement e Pixies, expoentes do que se convencionou chamar de rock alternativo ou indie rock, estilo em que as guitarras ruidosas são muito valorizadas. Ele soube adicionar essas influências tanto em Cê quanto no novo álbum, sem que isso soasse forçado ou desconectado das intenções de Caetano. "O Pedro faz o papel que o Lanny Gordin fazia nos anos 60", compara Kassin, músico da Orquestra Imperial e produtor de Eu não Peço Desculpa, citando o guitarrista símbolo da tropicália, responsável por injetar rock nas obras de Caetano, Gal Costa, Gilberto Gil e tantos outros.
"Caetano sempre teve como característica essa sede, essa antena em riste, uma relação libidinosa com as coisas que acontecem a todo instante no mundo", interpreta Jonas Sá, irmão de Pedro e dono da voz cavernosa que encerra o álbum Cê. Apesar de reafirmar a boa fase, Zii e Zie talvez não receba a aprovação quase unânime de Cê — que, mais do que um disco de rock, é um disco simples, sem grandes pretensões e povoado por letras concisas. O novo CD nasce de uma vontade que Caetano tinha de "tratar levadas de samba com timbre elétrico forte". Seriam os "transambas", sambas com DNA modificado, executados por músicos de rock, com guitarra no lugar do cavaquinho. Ou seja, é um disco, a priori, de caráter experimental, ainda que Tarado ni Você, Sem Cais, A Cor Amarela e outras faixas tenham estrutura de canção pop. "A nova abordagem de aspectos do samba é sempre em torno do óbvio, mas é radical", classifica Caetano. De qualquer forma, não resta dúvida de que ele fez mais um trabalho que vai brigar por vaga no top 10 de grandes álbuns de sua carreira.
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