
Maio/2009 | Assunto do dia
Por Anna Carolina Raposo
"Não é necessário ter lido Russel, Gombrich ou Merleau-Ponty para olhar meu trabalho e dizer: 'olha, estou entendendo'. Estou trabalhando com a base da pirâmide, com coisas muito mais básicas". A afirmação é de um dos artistas mais badalados da atualidade no Brasil, Vik Muniz. A declaração foi feita durante a palestra de abertura da exposição Vik, em cartaz no Masp até 12 de julho. "Com respeito pela bagagem visual do espectador, você não deixa de ser exigente, mas age de forma mais aberta", disse o pintor na ocasião. Suas declarações vão na contramão da maior parte da produção contemporânea de artes visuais no mundo.
Uma grande parte da arte produzida hoje é taxada de inacessível. Ao exigir um arcabouço de referências culturais para apreciá-la, a arte contemporânea acaba por excluir aqueles que não são conhecedores do meio, os "iniciados". Sem atingir o grande público, essa produção não chega aos espaços de exposição mais conhecidos e não é divulgada para além dos veículos especializados, restringindo seu alcance aos "militares".
O jogo de palavras é da autoria do crítico Francisco Bosco. Em um texto em que justificava o sucesso da temporada dessa mesma exposição de Vik Muniz no Rio de Janeiro, Bosco utilizou-se das expressões "civil" e "militar" para se referir respectivamente ao grande público, pouco familiarizado e que visita menos exposições, e o público familiarizado com o meio artístico. Para ele, uma das razões pelas quais o público "civil" se identifica e se interessa pela obra de Vik é o fato de ela se estabelecer dentro do chamado "circuito de significação imediata". Para Bosco, o apelo dessa arte vem de um "princípio formal recorrente" e uma relação de semelhança formal direta entre o material que Vik utiliza e a obra em si.
"Se produziu uma fissura até hoje aberta entre o que se configurou como um público específico, conhecedor dos códigos próprios da arte moderna, de sua história formal, capaz de fazer juízos estéticos a posteriori, e um público leigo, formado por sujeitos perplexos ou desdenhosos diante de obras cuja artisticidade não é capaz de perceber; público que é a vasta maioria das pessoas. Pois as obras de Vik acolhem calorosamente os civis. (...) a pequena descoberta da relação entre o material e o tema ilumina a obra e garante uma dimensão prazerosa à experiência".
Entender a obra sem precisar de conhecimentos prévios sobre a arte é o remédio para o problema apontado por outro crítico, Affonso Romano de Sant'Anna: "Esta é uma exposição que realiza o reencontro do público com a arte. Isto é raríssimo hoje em dia. O que tem caracterizado certas mostras é aquilo que Jean Clair - crítico de arte de maior prestígio na França - chamava de "multidões sonâmbulas". Ir a museu virou uma variante do turismo. Pessoas vagando entre obras que não entendem sem conseguir compatibilizar as bulas oferecidas com o produto exposto. (...) Vik Muniz consegue a empatia e a admiração do público e a atenção de críticos daquilo que [o sociólogo] Howard Becker chamava de arte oficialista".
Assim como despertou euforia por um lado, o sucesso do trabalho de Muniz provocou reações ásperas de parte da crítica especializada. Como reconhece o crítico de Bravo! Bruno Moreschi, existe uma tendência em maldizer o que cai no gosto do grande público, como se a arte para "civis" irritasse aos "militares". Mas esse nem sempre, segundo ele, é o que gera crítica negativa ao trabalho de Vik.
"Se nos depararmos com um único trabalho seu numa coletiva com vários outros artistas, por exemplo, ele torna-se um artista genial. Se estivermos em uma individual, como é o caso da retrospectiva do Masp, ele torna-se um criador de técnicas surpreendentes, mas um tanto quanto repetitivo. Quando suas obras são apresentadas uma em seguida da outra, surge uma ressalva em sua carreira: a repetição. Há pelo menos 15 anos, Vik usa de uma mesma técnica (o uso de materiais não apropriados para o fazer artístico) para produzir obras que tratam sobre a mesma questão (a reprodução fidedigna de símbolos da cultura). Ver uma individual sua é constatar o quanto ele está escravo dessa técnica", afirma Moreschi.
Ainda segundo o crítico de BRAVO!, sob o pretexto de ser acessível, a arte não precisa ser fácil. "A arte de Vik pode até ser para 'civis' - mas isso não o isenta de um olhar atento dos 'militares'. Aliás, essa divisão 'civis' e 'militares' é mais excludente do que a idéia de que existe arte difícil de ser compreendida. Não concordo em dividir a arte através desse olhar bipolar - é reduzir demais as coisas e chamar o público de burro".
Desde Duchamp se alteraram tanto as características que atribuem qualidade, originalidade, pertinência e profundidade a uma obra, que a crítica tem de se valer de parâmetros inexatos, subjetivos, para avaliá-la. E fenômenos de público como o trabalho de Vik suscitam questões: Atrair o olhar do público não especializado é, por si só, característica que atribui tais qualidades à obra? Para que a arte seja assimilada pelo grande público, é preciso torná-la fácil? Ou o contrário, uma obra com profundidade fica, inevitavelmente, restrita a quem partilha dos referenciais necessários para compreendê-la?
Há quem diga que a culpa pela arte contemporânea não falar ao grande público não deve recair sobre os artistas, e sim sobre um contexto social que, sem incentivos, não permite o acesso à educação formal e aos bens culturais. Há, por outro lado, quem diga que o artista deve considerar a realidade desse contexto e incorporá-la ao seu trabalho, falando sempre com o grande público, tal como ele é. E você, o que acha?
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| 31/05/2009 Táia Rocha - diz: Acredito que a arte contemporânea e erudita é mesmo hermética para a grande massa, mas isso não significa que seja inócua. Um "civil" pode se emocionar com um quadro que não "entende", assim como com uma música, um filme... ainda que sinta estranhamento e não puro deleite. Afinal, o papel da arte não é apenas gerar prazer. Li o texto na Cult e concordei que a arte de Vik é fácil, no sentido de acessível. O que realmente chega a me incomodar não é o fato de agradar muitos (até porque sou Flamengo, gosto de samba, gosto de muitos ícones populares e reconheço mérito no que os artistas populares conseguem realizar) nem mesmo a repetição das técnicas, mas a necessidade de sátira, de alusão, de citação, e a raridade de criações do próprio artista. É muito interessante o jogo entre referência e obra que o Vik faz uma, duas, três, mas na quarta obra já estava um pouco cansada das versões. Vik, apresente-nos seus originais. Aposto que gostaremos. |
| 20/05/2009 Ana Paula Caneda - diz: Acredito que não existe arte para civil ou militar e, sim arte boa e arte ruim. Quando o trabalho é bom qualquer cidadão, mesmo os mais leigos, podem compreender e sentir. |
| 19/05/2009 Gregório medeiros - diz: sobre a divisão entre civis e militares Essa divisão se baseia no que? na bagagem cultural, intelectual do publico? para mim arte não diz respeito a isso. Arte é vida e vida é sentimento e sentimento é coisa humana que todos sentem. por isso a arte deve ser simples e expressar sensibilidade individual. Por isso para mim essa divisão entre civis e militares é algo irritantemente pseudo intelectual que só pode ter sido criada por alguém que não tem noção do que a arte realmente é, alguem que vive em nas masmorras de seu próprio cerebro e esta cheio de si mesmo...arte é expressão para fora, é se doar na inspiração e isso é algo simples...... curti muito os trabalhos do vok muniz, não sei se ele é escrevo da tecnica pois conheci os trabalhos dele ha pouco tempo, vou conhecer mais, mas conhecendo o que conheci dele gostei bastante. www.gregartz.blogspot.com |
| 18/05/2009 JúlioMM - diz: Existem obras que são discutidas até os dias atuais, serão estas obras populares ou de nicho? A arte consegue atingir varias gamas de ideias numa obra só. Buscar entender a arte é uma missão nossa a cada dia, independente de nosso conhecimento previo, isso é arte, nos fazer estudar a cada nova provocação. |
| 18/05/2009 JúlioMM - diz: Existem obras que são discutidas até os dias atuais, serão estas obras populares ou de nicho? A arte consegue atingir varias gamas de ideias numa obra só. Buscar entender a arte é uma missão nossa a cada dia, independente de nosso conhecimento previo, isso é arte, nos fazer estudar a cada nova provocação. |
| 17/05/2009 Tony Figueira - diz: A Arte que é válida é aquela que mexe com as emoções de quem observa. O trabalho do Vik Muniz faz isso - porque EU senti isso! - tano na sua expo no Masp quanto na SP-Arte 2009, só ouví elogios e percebí a admiração das pessoas pelo seu trabalho. Todos entendem, independentemente de classes sociais, niveis culturais, etc. Vik atinge tudo e todos...as pessoas amam seu trabalho, os críticos, o perseguem. Vence a opinião dos admiradores! Independente de ser "repetitivo" ou não, a sua Arte chega a todos...assim deveria ser sempre a Arte!!! |
| 17/05/2009 Tony Figueira - diz: A Arte que é válida é aquela que mexe com as emoções de quem observa. O trabalho do Vik Muniz faz isso - porque EU senti isso! - tano na sua expo no Masp quanto na SP-Arte 2009, só ouví elogios e percebí a admiração das pessoas pelo seu trabalho. Todos entendem, independentemente de classes sociais, niveis culturais, etc. Vik atinge tudo e todos...as pessoas amam seu trabalho, os críticos, o perseguem. Vence a opinião dos admiradores! Independente de ser "repetitivo" ou não, a sua Arte chega a todos...assim deveria ser sempre a Arte!!! |
| 16/05/2009 Thiago Tavares - diz: O artista faz sua arte para o público, para o povo, isso quer dizer que um especialista pode ver e amoar quanto odiar como um leigo pode ver e amar e odiar também, cada um no seu critério. Claro que um artista quer que seu tgrabalho seja reconhecido e respeitado por um crítico, mas quanto maior o acalce maior o reconhecimento e é isso que o artista quer. |
| 15/05/2009 Rafael Costa - diz: O comentário do Affonso Romano de Sant'Anna é perfeito. É louvável que a arte re-encontre o público. Vik Muniz faz isso como nenhum outro artista plástico fez até hoje. Mas é difícil não concordar com Moreschi que ele é escravo da forma. Soa como uma espécie de maneirismo. |
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