

Dezembro/2008 | Assunto do dia
Laila Abou Mahmoud
Nos últimos dois dias de novembro os vencedores do festival on-line HttpSom 2008, parceria do Instituto Sergio Motta com o Itaú Cultural e a Secretaria de Estado da Cultura, se apresentaram em um show, em São Paulo. Inscritos pelo MySpace, foi a primeira vez que os artistas selecionados, Bruno Morais; o sexteto brasiliense Nancy - que compôs a faixa Keep Cooler pela Internet -; FLU, ex-integrante do Defalla; e Wado, catarinense radicado em Alagoas, se encontraram, tocaram ao vivo e viram seu público nesse festival.
É uma novidade. Mas o modelo de mostra competitiva realizado pela internet tem se tornado cada vez mais conhecido. Nos últimos meses, pipocam iniciativas brasileiras no YouTube e no MySpace. Até ações promocionais como o Youtubeoquê de Gilberto Gil, se popularizam. O concurso de "versões" já foi visto mais de 25 mil vezes desde o início de dezembro, quando foi lançado.
Um dos pioneiros desse modelo no país foi o Oi Tem Peixe na Rede que, em 2005, teve até sua última etapa feita pela Internet. O vencedor, o grupo carioca Canastra, gravou um disco pela Sony. "Hoje, eu nem lançaria o disco. Deixaria a banda gravar em estúdio, mas não tiraria do espaço da web", diz Bruno Levinson, idealizador e organizador do festival Humaitá para Peixe e do Oi Tem Peixe na Rede, que teve apenas uma edição.
Esse ano o carioca Humaitá para Peixe ganhou um reforço virtual. O Oi novo Som recebeu 25 mil acessos e 497 artistas se inscreveram em apenas duas semanas. Levinson acredita que o espaço virtual tende a se tornar cada vez mais um espaço à parte para espetáculos e festivais. "Pode ser até que daqui a dez anos o conceito de show ao vivo não seja mais o que temos. E que 40 milhões de pessoas conectadas e interagindo com um artista no computador é que seja valorizado", imagina.
Para ele, a capacidade de disseminação é um dos grandes trunfos dos festivais virtuais. "Se no 'Humaitá para Peixe' eu consigo colocar 600 pessoas num teatro, 10 mil contando todas as apresentações, no Palco Virtual eu coloco 9 mil pessoas diferentes ao mesmo tempo numa única apresentação no site", compara.
Segundo Renato da Costa, assistente de coordenação do projeto do 1º Edital Petrobras de Música, que mapeia anualmente os festivais de música pelo país, a internet ajuda também na seleção de artistas em festivais não competitivos. Embora o modelo de competição tenha se consolidado no imaginário popular na década de 70, de todos os 417 festivais de música do país hoje, 60% não são para as bandas concorrerem entre si. Mas, mesmo nesses, a seleção dos artistas a se apresentar é quase toda feita via rede. "Sites como MySpace e YouTube são hoje as principais vitrines dos artistas", diz Costa.
Levinson concorda e acha que, com eles, até a seleção para o festival presencial que organiza ficou melhor. "A quantidade de artistas que trago de fora do Rio é muito maior. Minha pesquisa hoje é muito mais rica", explica.
Desconcentrar geograficamente essa vitrine é considerada outra das vantagens dos festivais online. Hoje, cerca de 41% dos festivais presenciais acontecem no Sudeste. Giselle Beiguelman, curadora do httpSom e multiartista, vê nisso uma conquista: "45% dos nossos inscritos estão fora do eixo Rio-São Paulo-Belo Horizonte. Entre os ganhadores tem gente de Alagoas, de Brasília".
Outra característica dos festivais virtuais é a praticidade, rapidez e os custos menores na maior parte dos casos. Beiguelman lembra que mais de 90% das pessoas que participaram do httpSom já eram membros do MySpace. "Hoje a internet é um espaço mais amigável. E a web 2.0 agregou uma cultura de produtores". Afinal, com a popularização da tecnologia, ter um mini-estúdio em seu computador ficou muito mais acessível.
A popularidade dos festivais pela internet é reforçada ainda pela capacidade de auto-divulgação que o próprio meio traz em seu bojo. Esse é um dos motivos pelo qual, em apenas dez dias, 535 artistas se inscreveram no httpSom, acredita a curadora. "Esses festivais confirmam uma expectativa de que a Internet democratizou a distribuição das ações criativas", resume.
Mas a relação com o público não faz falta? "Eu concordo que para os artistas faz falta sim, mas fazer o show em si implica em um investimento", ressalva Beiguelman.
Alguns festivais, no entanto, já consideram a migração para um modelo totalmente virtual. É o caso do Digital Fest, em sua primeira edição, realizado em Resende, no Rio de Janeiro. Segundo o organizador Robson Monteiro, a idéia é que, na edição do próximo ano, até a apresentação dos ganhadores seja virtual. "Qualquer lugar que fizermos o show vai restringir nosso público, espalhado por todo país", diz. Para Monteiro, a internet vai ocupar o papel que coube à televisão na divulgação dos festivais das décadas de 70 e 80.
Para Fabrício Nobre, presidente da Associação Brasileira de Festivais Independentes (ABRAFIN), as experiências virtuais são válidas, mas nem se comparam com a sensação de assistir a um espetáculo ao vivo. "Não consigo conceber um show que a pessoa não saia para ver, beber e ouvir", salienta. Nobre discorda da concentração geográfica das atrações e não vê nisso razão para adotar o modelo virtual. "Se contentar em ver uma banda pela internet é igual a comprar uma foto de comida", compara. "O legal mesmo é o músico no palco. Eu não patrocinaria um festival pela internet. Mas pode ser sim que as novas gerações se interessem cada vez mais por eles", diz.
Giselle Beiguelman também não acredita na hegemonia do virtual. Para ela, conforme as ferramentas mudarem, mudam os modelos. O futuro será constituído, portanto, por híbridos de presencial e virtual. "A internet não está fora do mundo e as coisas tendem a se contaminar. As atividades presenciais vão ser interfaceadas pela internet", prevê.
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