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Teatro e Dança > Assunto do Dia
Teatro e Dança
Espetáculo
Espetáculo "Para as Crianças de Ontem, Hoje e Amanhã", apresentado no Brasil em 2006

 

Dezembro/2000 | Assunto do dia

Entre a alegria e a perfídia

O teatro-dança de Pina Bausch supera as fronteiras ao falar, como na poesia, a linguagem universal de uma felicidade perdida que se pressente na carência e no terror

Norbert Servos

Veja uma galeria de imagens do livro "Pina", lançado em 2000 pela editora Quadriga, na Alemanha

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Como uma evocação à beleza ou uma referência ao amor, uma colina móvel de flores domina o palco, de resto nu e preto, aberto até os muros calcinados. Flores que parecem cair do céu, como chuva, também recobrem todo o chão. Os bailarinos as ordenam de forma labiríntica ou as atiram para o ar, sugerindo o júbilo dos fogos de artifício. Na peça O Limpador de Vidraças, de Pina Bausch, parece que as coisas se passam como num sonho ou num conto de fadas. A felicidade parece estar próxima, a ponto de poder ser agarrada com as mãos. Mas pressentimos que ela envolve perigo, vislumbrado quando um homem pesca cobras no mar de flores com ajuda de longas varas, ou quando uma mulher é carregada sobre o abismo por uma ponte pênsil que balança nas alturas do palco. Vários ciclistas passam por uma bailarina que executa um solo totalmente absorta. Outra bailarina se deita embaixo de um tapete de flores, e sua existência passa a ser assinalada apenas por uma luminária de néon.

Nada é estável, cada situação pode mudar a qualquer momento. Quando duas mulheres assumem a função de dois detectores vivos de metal e forçam um homem a despojar-se peça por peça de sua roupa, fica estabelecido um jogo de poder marcado tanto pela alegria serena quanto pela perfídia. Podemos sorrir diante disso e, não obstante, registramos as conotações secundárias, nem tão inocentes assim. Tais ambivalências e tons intermediários abrem espaço, no teatro-dança de Pina Bausch, para toda a multiplicidade da natureza humana. Os sentimentos raras vezes são unívocos, sempre se fazem acompanhar de outras ressonâncias, por vezes até dos seus contrários. Quando, por exemplo, a bailarina-atriz controla em tom ríspido os ingressos dos espectadores e assegura a cada um deles que ninguém na sua família, ninguém mesmo, quer lidar com poemas, então essa cena cômica também faz referência, naturalmente, ao que está em jogo no teatro-dança: a pura linguagem da poesia.

Exatamente como na poesia, as coisas mais inusitadas encontram-se no teatro-dança de Pina Bausch da maneira mais óbvia e surpreendente. O estado de espírito pode mudar a qualquer momento. Mesmo o maior sofrimento pode reverter-se instantaneamente, dando espaço para uma alegria serena e sem tensões. E, como na poesia, tudo é sugerido ou embalado em movimentos simbólicos, formulados com a força pura da metáfora que não carece de nenhuma interpretação. Os calafrios do horror, o sentimento de abandono da tristeza, a reação eruptiva contra o destino e finalmente a reconciliação com um mundo desconexo - tudo isso se inscreve com energia irrefreada nos espaços fantásticos da dança. Quem olha não apenas compreende, mas vive, sofre, nutre esperanças e se angustia, por empatia, com os bailarinos. O espectador se vê incluído em uma experiência concentrada ao máximo, que o sacode e emociona. Pina Bausch investiga os sentimentos até as suas profundezas, permitindo que eles se articulem diretamente com o corpo. Ao mesmo tempo, arrasta de um só golpe o espectador para uma sucessão de banhos frios e quentes, mantendo-o estendido entre o sofrimento da criatura indefesa, o pânico e a nostalgia de estar, ao menos uma vez, consigo mesmo e em união com o mundo.

Incansável, Pina Bausch envia os viajantes do seu teatro-dança para renovadas excursões a mundos remotos e estranhos, nos quais eles precisam provar a sua capacidade. Nesse percurso, penetram em paisagens abandonadas, fascinantemente belas ou desertas, como um campo coberto por cravos, um deserto aquático, uma floresta de cactos, uma estepe barrenta, sem cobertura vegetal, rudemente dominada pelos elementos da natureza. Pina Bausch sempre subtrai de seus personagens - e de seus espectadores - o chão firme de seus hábitos, enviando-os a paragens distantes, nas quais eles se vêem obrigados a encontrar a si mesmos, uma vez que todas as perspectivas foram invertidas. A natureza ocupou o palco, o mundo exterior migrou para o interior. Do mesmo modo e inversamente, os agentes dessa experiência precisam dizer quem são e exibir os seus aspectos mais recônditos. Uma comoção os impele até a beira de um abismo. Deparam-se com a alternativa radical - ou o desaparecimento ou a sobrevivência.

Nisto reside o fascínio do Tanztheater Wuppertal: ele não só libertou a dança de sua prisão na bela aparência, como também a estimulou a pôr o dedo nos problemas existenciais. Em suas expedições descalças, o Tanztheater transporta os viajantes para regiões desconhecidas e fantásticas, que amedrontam e enfeitiçam ao mesmo tempo. Arrancados dos rituais familiares do cotidiano, reagimos, ficamos sensíveis diante de pequenas nuances e de estados de alma cambiantes. Vemos e ouvimos, cheiramos e degustamos, apalpamos um mundo não familiar como somente as crianças o experimentam. Com isso, as impressões tornam-se mais fortes e seus efeitos perduram durante um tempo maior. Nesse país novo, os bailarinos-atores entram com charme despreocupado e - apesar do confronto - com muita vulnerabilidade.

Há muito tempo descobriu-se que esse teatro de imagens produz efeitos mais duradouros e é compreendido além de todas as fronteiras. Ele toca em algo que está contido germinalmente em cada pessoa e insiste em ser realizado. Uma dramaturgia de desejos não satisfeitos rege o espetáculo e se serve da maior abertura imaginável. As peças de Pina Bausch se parecem com uma experimentação sempre incansável da felicidade. Num vaivém bem calculado, buscam os pontos de fratura nos quais a imaginação do público pode ingressar para preenchê-los com reminiscências próprias, sonhos e desejos. Elas proporcionam a liberdade que permite o recurso à biografia própria: tanto a dos bailarinos e atores quanto a dos espectadores.

Na colagem aberta de fragmentos cênicos, ninguém é levado pela coleira de um fio condutor da ação, nenhuma interpretação conclusiva e definitiva do mundo é afirmada. O mundo é percebido fragmentariamente; as interpretações são selecionadas, formuladas em termos exagerados e condensados, para logo mais deixar escapar toda a pressão excessiva e entregar-se a uma alegria serena e descontraída. Tudo pode tornar-se importante e ser transformado em dança. As hierarquias de valores e significações estão abolidas. Estamos diante de um teatro agradavelmente isento de moral e ideologias - que não se considera mais inteligente, mas insiste incondicionalmente em uma humanidade disposta e capaz de levar a sério cada um. Sem sucumbir a ilusões, esse teatro cobra um direito humano: o direito ao respeito recíproco e ao amor.

Pina Bausch encontrou para isso uma linguagem que é compreendida além de todas as culturas. Trata-se da linguagem de uma felicidade perdida, que se faz sentir justamente na sensação da carência e do terror que podemos pressentir nos silenciosos momentos de imersão em nós mesmos. Dela nos falam, por exemplo, os animais que aparecem sempre de novo no palco do Tanztheater. Eles são como uma medida muda da azáfama das pessoas, agitadas e por vezes histéricas. O hipopótamo em Árias e os crocodilos na Lenda da Virgindade são sempre testemunhos silenciosos de uma busca humana ora desesperada, ora feliz. Mas, à diferença das pessoas no palco (e na platéia), eles simplesmente estão lá. Não têm perguntas e, portanto, não têm preocupações. Pode ser que a natureza desperte o ser humano para a consciência de si mesmo. Mas o preço disso é a expulsão do paraíso, a perda de toda e qualquer sensação de abrigo que outrora permitiu ao homem dissolver-se integralmente no mundo. Desde que ele abandonou a sua pátria herdada, a sua origem na natureza, está acorrentado pelo bem e pelo mal, com a sensação de que precisa recriar a felicidade de integrar-se ao mundo.

O Tanztheater sabe disso, e parece que as tentativas raivosas, as erupções histéricas ou as lutas mudas e encarniçadas que cada personagem estabelece consigo mesmo apontam sempre nesta direção: quando a raiva se consome, quando o desespero se desvanece, a tranqüilidade e a serenidade retornam. Finalmente podemos estar sem perguntas - e sem resíduos - no mundo.

Para o ataque, bem como para a reflexão e a união, a dança é um meio eloqüente. Ela permite vivenciar a necessidade fisicamente, na flor da pele. Mas isso ocorre apenas se a dança não se exibe vaidosamente, se não quer demonstrar ao seu público o que ela mesma não pode fazer: um mero domínio virtuosístico do corpo. Inspirada nesse fundamento, Pina Bausch fez, mais uma vez, renascer a dança, com insubornável honestidade.

Nas suas peças, as pessoas persistem em permanecer diante de uma fronteira capaz de lhes permitir o ingresso num país de felicidade. Elas assaltam essa fronteira com insistência, para que ela se desfaça e abra caminho em direção à liberdade. Isso não ocorre voluntariamente, mas por exigência de uma necessidade existencial. A situação é precária, e em cada peça as pessoas praticam atos arriscados, como se quisessem dizer: só sobrevive aquele que suporta o pânico, a solidão extremada. Só vigora a alegria que se ergue das profundezas do luto. Isso significa que o sofrimento diante do mundo desarticulado é um exercício que, em última instância, conduz ao fortalecimento e à liberdade sem máscaras.

Portanto, o fundo de luto do qual emergem as peças de Pina Bausch não é, como muitos pensam, o beco sem saída da falta de esperança. Ele fala de uma vulnerabilidade que quer ser suportada até o fim, que não esmorece até a conquista da felicidade de sentir-se inteiramente consigo mesmo. Para atingir esse fim, os personagens do Tanztheater Wuppertal lançam toda a sua energia na luta. Eles sabem entregar-se integralmente, sem reservas. Mas isso também os conduz automaticamente, sem nenhum milagre, para fora do desconforto. No fim da peça, surge algo que parece gerado pela força da sabedoria dos velhos contos de fadas, nos quais as coisas mais terríveis e mais belas se unem com a maior facilidade. Enfim, restabelece-se a confiança de que a vida nos sustenta. Afinal, é Pina Bausch quem afirma: "Sou uma otimista, porém com realismo".

* Tradução: Peter Naumann

 

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