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Um Conto de Beatriz Bracher

A paulistana Beatriz Bracher, de 47 anos, é autora dos romances Antonio, Não Falei e Azul e Dura, além do livro de contros Meu Amor.

Logo Depois

Primeira parte - O que você disse que eu sei?

Desligo o computador e a mensagem some. Ficam na minha cabeça algumas palavras: "você sabe tão bem quanto eu". Outras: "achei que isso bastasse", "jamais menti", "me curvar diante da sua vontade".

O computador está desligado, não me lembro de tê-lo desligado. Ligo novamente, aproximo o cursor do ícone de e-mail e antes que a seta o alcance, levo um choque, as pontas dos meus dedos ficam chamuscadas.

Junto com uma dor no maxilar, o céu, a cadeira, minha roupa, tudo fica preto, branco ou cinza. Tento abrir a boca para desfazer a pressão insuportável nos ouvidos e no peito, e não consigo, o maxilar está travado.

Levanto e caio, sinto gosto de sangue, devo ter ferido o lábio. Minha perna direta sumiu. Vou me apoiando como posso até o banheiro. Enquanto caminho, o "amor que sentimos um pelo outro" avança letra a letra na minha cabeça, e logo depois, de forma violenta: "sentirei uma saudade infinita". Sem uma perna e, agora, sem o braço esquerdo, não consigo chegar a tempo no banheiro. Um caminho de vômito se forma e não tenho como deixar de pisá-lo com meu pé solitário.

Os ossos parecem querer se esfacelar, de uma hora para outra fiquei gorda demais para os meus ossos velhos (não eram velhos hoje de manhã). Com medo de cair e me machucar, engatinho até o banheiro e continuo a vomitar na privada. Um filete de bile ainda escorre quando "nunca deixarei de amar você da maneira que sempre amei" me nocauteia de vez. Meu estômago se revolve em ondas ainda mais violentas, começa a sair sangue junto com pedaços dos músculos e órgãos internos.

Consigo me levantar, apóio-me na pia e lavo o rosto. Minhas mãos estão tortas, suas articulações entrevadas, a pele fina e rachada. Não quero levantar o rosto.

"Comecei a procurar as 'outras'" levou meus seios. A pele rachada se cobre de manchas de vários tons e texturas. Levanto o rosto e lá está o espelho.

Ela é feia, ela é feia, ela é muito feia. Uma mulher deformada, as orelhas — que ele costumava a —enormes, lóbulos — mordiscar —despencam, pálpebras despencam, a nuca — que ao ver a penugem, ele — some, os cabelos — ele dizia que — cai, os lábios perfeitos viram leporinos. A pele — de pêssego — como um caroço de pêssego. Os olhos — amarelos como os de um tigr — cada vez mais embaçados, brancos, ela finalmente desaparece.

Nada, feia e velha, enrola-se sobre o tapetinho do banheiro.

Segunda parte - Nada

No meio do escuro, o seio, naquela noite no teatro, era o da "segunda"; a cintura, no parque de manhã, da "primeira"; o ardor durante a madrugada sempre foi para a "terceira". O passado, pouco a pouco, ao longo dos anos em que ficou enrodilhada no chão sobre o tapetinho do banheiro, foi-se apagando até deixar de existir.

Nada para trás e nada para frente.

Terceira parte - Bichos

Na penumbra do banheiro, entrevejo a pata de um tigre. Movo a mão para tocá-la e duas patas se encontram. Estico os braços há anos adormecidos, eles esticam-se até muito longe, temo que os ossos se partam. Bocejo abrindo a boca mais do que jamais abri, a língua é grande e enrola-se sobre si mesma, o som de um uivo, ainda que preguiçoso, me assusta.

Sento-me no chão e constato que meus braços são de tigre e o dorso de um homem musculoso e jovem. Com minha pata agrado meu peito e abdômen, gosto de sentir o couro áspero da almofada de minhas patas, e a rigidez arredondada do meu tronco. Experimento colocar as garras para fora, elas ferem minha barriga. Não sei como retraí-las para tampar o rasgo, me firo ainda mais. Consigo apanhar uma toalha com a qual estanco o sangue. Logo ela se mancha de vermelho. Reparo que enxergo as cores.

Estou de pé sobre duas pernas de égua, minhas ancas e coxas são poderosas. Mexo as pernas e som de meus cascos no chão reverberam por todo lado. Elas são cinzas com bolinhas brancas. Bato os cascos no chão, quebrando os ladrinhos. Abro as pernas e um jorro de urina dourado alaga o chão do pequeno banheiro. Bato novamente os cascos e empino a cabeça. Meu rabo balança elegante.

Vejo uma cabeça de lobo no espelho, um lobo castanho e bonito, sorrio e o que vejo é a mesma expressão sem sorriso. Fico feliz com a indiferença de minha cara.

Troto na sala, no quarto e na cozinha me exibindo para as paredes, rasgo as cortinas por descuido e olho a rua pela janela, abano o rabo quebrando um vaso sem flores.

Tento cantarolar e o som que ouço é um grunhido de porco. Corro ao espelho para constatar a mudança e minhas pernas são ágeis e leves. Meu rosto é de porco, as pernas de macaco e o tronco e os braços de urubu rei. Minhas omoplatas são musculosas e a envergadura das asas, enorme, tento movê-las com solenidade, mas elas se batem nas paredes e nos objetos. O chão fica coberto de penas negras e manchas de sangue. Não sinto dor, devo ter o coração de um rei, mas minha boca de porco geme e grunhe. Pulo, pulo, ofego e tento de novo, e caio no chão (grunhidos ridículos), não tenho braços que me segurem no alto e o peso do corpo é demais para minhas pernas de chipanzé. Ao pular meu pênis balança para lá e para cá. Acho meio desengonçado, não sei o que fazer com isso e começo a chorar feito uma criança.

Sou agora uma menina, por inteiro uma menina com fome. Como uma barra de chocolate e durmo vendo televisão.

Quarta Parte - Um pardalito

Acordei com o barulho do telefone. Quando atendi, ninguém respondeu do outro lado. O carteiro passou e não havia carta para mim. Nenhuma voz, nenhuma tinta, nenhuma marca de saliva no envelope, mancha de dedo no papel ou resto de calor na orelha. O cesto de lixo vazio. Nada aconteceu.

Aproveito o dia bonito e fresco e saio para passear. No caminho, o cheiro de morangos me abre o apetite. Cumprimento o dono da loja de frutas e, em vez da minha voz, é um piado aflito que ouço. Fico sem graça e saio para a rua.

Toco em meu rosto e é o meu rosto, com a pele macia, os olhos amarelos e meu cabelo comprido que prendi em um coque, deixando a brisa arrepiar a penugem de minha nuca.

Soluço, um pardalito sai de meu peito e voa livre, agradecido.

 

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