
Revista BRAVO! | Agosto/2009
Por Armando Antenore
• Veja os desfiles das coleções de 2009 do estilista Ninguém se espanta de ouvir que o estilista coleciona óculos. Publicamente, sempre usa um novo modelo. Em compensação, poucos sabem do fascínio que cultiva por máscaras de bichos. Possui umas 60: de urso, pato, cachorro. Gigantes, ainda que leves, são confeccionadas com papel em oficinas recifenses de artesanato. Quando Ronaldo põe a de touro, sua predileta, julga-se o próprio Minotauro, criatura que o intriga desde a infância. Como o personagem da mitologia grega, híbrido de homem e animal, às vezes se surpreende príncipe, às vezes fera. Também sente que viver é habitar um labirinto. Para aguentar os medos e incertezas da oblíqua travessia, não encontrou antídoto melhor do que acreditar em boas histórias, tanto as que inventa e leva às passarelas quanto as que discorrem sobre amores escritos nas estrelas.
Na década de 1950, o romancista norte-americano Ernest Hemingway teceu um comentário que acabou se transformando em slogan e, depois, em clichê: Paris é uma festa. Não uma festa corriqueira, mas a moveable feast, uma algazarra portátil e infindável. Os que têm o privilégio de desfrutar a atmosfera parisiense na juventude, afirmava o escritor, nunca abandonarão a lembrança daqueles momentos febris. Sem pretender bancar o desmancha-prazeres, Ronaldo se apressa em confessar que discorda — do comentário, do slogan e do clichê. Paris pode ser tudo, menos uma festa. Meca fashion? Lógico que sim. Cinematográfica, monumental, exuberante, cosmopolita? Não há como negar. Estranhamente, no entanto, a profusão de adjetivos jamais o empolgou, nem quando jovem nem agora, à beira dos 43 anos. Por quê? O Sobrenatural de Almeida — para invocar um dos tipos impagáveis de Nelson Rodrigues — talvez explique. Sucumbindo à insistência de conhecidos, Ronaldo procurou recentemente uma psicóloga que se dizia capaz de desvendar "as encarnações anteriores" dos pacientes. "Você não mexe com moda por acaso", garantiu a esotérica. E revelou que, numa outra vida, o estilista mineiro nascera em Beirute, onde negociava tecidos e desenhava trajes femininos. Hipnotizado pelo frenesi de Paris, deixou o Líbano e migrou para a Cidade Luz. Promoveu ali inúmeros desfiles que fisgaram a atenção de uma ricaça, com quem se casou. Juntos fundaram uma maison próspera e chiquérrima. Os dias corriam às mil maravilhas até que um funcionário do casal, roído de inveja, decidiu botar fogo nas roupas. As glórias do proto-Ronaldo desmoronaram, então, sob as labaredas indomáveis do ateliê, que terminou quebrando. Uma festa? — "Do contra" por natureza, o estilista não segue nenhuma religião. Nutre, mesmo assim, uma ponta de simpatia pelo espiritismo. Por isso, não rejeitou inteiramente o trágico relato que escutou, sobretudo depois de a psicóloga lhe assegurar: "A milionária francesa também reencarnou". Em quem? Numa sertaneja de Montes Claros, município do norte de Minas. Qual o seu nome? Ivana Neves — justamente a moça que, tempos atrás, saiu da terra natal e se fixou em Belo Horizonte na esperança de realizar um sonho: trabalhar com Ronaldo. Não apenas o concretizou como se tornou mulher do estilista. Casados desde 2000, geraram um par de filhos e, nas palavras da psicóloga, estão reconstruindo por aqui o que perderam em Paris.
Estudiosos do zodíaco apregoam que os geminianos gostam de escravizar os escorpianos. De novo, parece que o destino conspirou para unir Ivana e Ronaldo. Ela é de Gêmeos. Ele, de Escorpião — um vassalo que se curva obediente à suserana de pele muito branca. O estilista não consegue se imaginar longe da companheira. Tampouco se recorda direito da época em que não conviviam. Proclama-se escravo sem lamentar. Já descobriu que, quando senhores e servos ocupam o mesmo espaço, quem depende mais do relacionamento são os primeiros. — Não se considera um pai exemplar. Queria dedicar tempo bem maior à educação de Ludovico e Graciliano, só que o acúmulo de afazeres e as viagens frequentes o impedem. O tênis, os cabelos arrepiados e as calças largonas ocultam um sujeito conservador na criação dos meninos. Em casa, não permite que vejam televisão, durmam depois das oito ou gastem horas diante do computador. Garotos de 7 e 5 anos precisam apenas rolar na grama e escalar árvores, como as crianças de antigamente. "Para que tanta rigidez, Ronaldo? As coisas mudaram!", advertem os amigos. "As coisas mudaram, mas o Ronaldo continua igualzinho...", responde tranquilo. Quando Ludovico e Graciliano virarem adolescentes, aceitará que o contestem. Enquanto não chegam lá, devem compreender que existem leis no mundo. — FFF, o Famoso Fraga Frangueiro. Foi assim que um jornal tachou o pai do estilista após uma partida de futebol em que o Atlético venceu por dez a zero. De ascendência negra e portuguesa, 1m90 de altura, José Rodrigues Fraga jogava profissionalmente como goleiro. Defendeu um único clube, o Sete de Setembro, e orgulhava-se de tamanha fidelidade. Não existem somente leis no mundo. Existe ética também. Um indivíduo de brio enfrenta toda e qualquer tempestade com a cabeça erguida, sem abdicar de afetos e convicções. Suar a camisa de um time ruim, mas querido, e engolir dez gols numa tarde é um vendaval e tanto. Não à toa, José exibia o FFF da manchete como um troféu, a prova definitiva de que suportava as piores humilhações em nome da lealdade. Os cinco filhos, emocionados, o aplaudiam.