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Blog do José Luís Peixoto

Cá no prédio é assim

Subscrevo e estendo estes votos a todos vós, gentis condóminos deste lugar branco.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 24/12/2008 - 03:33
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A administração informa

Se o blog continuar nos moldes em que está, terei de ir apagando textos anteriores à medida que for colocando textos novos. Não existindo um arquivamento dos mesmos e estando todos em exposição nesta página única, dentro de pouco tempo, torna-se-á pouco prático, talvez mesmo inviável, deixá-los todos online neste espaço.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 24/12/2008 - 03:26
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Televisão a preto e branco

Tínhamos uma televisão a preto e branco. Sobre o ecrã estava uma tela azul de plástico. Havia dois fios que passavam sobre a televisão e que, atrás, tinham dois pesos de chumbo. A tela transformava as imagens a preto e branco, os desenhos animados, as telenovelas, os telejornais, em imagens que se moviam em diversos tons de azul. Em domingos, o sol entrava pelas janelas, torrentes oblíquas de luz sobre os mosaicos do chão da cozinha. Sei hoje que a minha mãe era nova. A minha avó vinha visitar-nos. A minha avó estava viva. Era a minha avó. Não sei que idade tinha. Começamos a saber a idade das avós apenas quando nos tornamos adultos. Quando somos crianças, sabemos que as avós são velhas. As mães são velhas porque são mães. As avós são as mães das mães. Sei hoje que a minha avó era nova. Não conheci a minha avó mais nova do que naqueles dias. Nesses domingos, eu podia estar a fazer qualquer coisa, podia estar apenas a passar pela cozinha. A minha avó estava sentada numa cadeira. A minha mãe, sob a janela, atravessada pela luz, estava inclinada sobre o lava-loiças e, com detergente, lavava a tela azul da televisão.

Às vezes, no Natal, os meus pais contavam a história de quando tinham aparecido as primeiras telefonias. As pessoas, todas em silêncio, sentadas na casa do povo à noite. Os rapazes a olharem para as raparigas. Essas eram histórias que eu conseguia imaginar, mas eu conseguia imaginar mesmo as histórias que o meu padrinho me contava do tempo da primeira república. Nesses dias, eu e os meus amigos víamos os mesmos desenhos animados e víamos as mesmas telenovelas. Falávamos disso a caminho da escola. Falávamos disso no recreio. Quando tínhamos cães acabados de nascer, davámos-lhes nomes de personagens das telenovelas. Entre os cães que tive, havia o Neco e o Quintanilha. Havia também a nossa cadela mais querida, aquela que vi nascer, que vi morrer e que aprendi a respeitar, que recordo sempre com todo amor que é possível entre uma pessoa e um animal, a Grisla, que tinha o nome da mãe de um ursinho dos desenhos animados, o Misha, mascote dos jogos olímpicos de Moscovo em 1980. No recreio, chamávamos nomes de personagens das telenovelas uns aos outros. Se havia um par de namorados, chamávamos-lhes os nomes das personagens que eram o casal mais apaixonado da telenovela. Alguns desses nomes duram até hoje. Alguns desses nomes, já passaram para os filhos. O Nacibe, o Mundinho ou a Gerusa fizeram com que, mais tarde, existissem também o Nacibe pequeno, a filha do Mundinho ou Gerusa pequena. As minhas irmãs compravam revistas brasileiras que tinham entrevistas dos actores das telenovelas. Eu lia essas revistas. Lia as fotonovelas: "Você já não me ama", "Amo sim"... Continuava a folhear páginas e dizia: "Olha a Malvina!" Eram personagens do "Casarão", ou da "Escrava Isaura" ou do "Dancing Days". No início de cada ano lectivo, as minhas irmãs reuniam essas revistas, tesouras e rolos de fita-cola sobre a mesa da cozinha. Depois, começavam a recortar as fotografias dos actores das telenovelas. Forravam os livros com essas fotografias e, depois, forravam essas fotografias com folhas de plástico. Eu haveria de estudar mais tarde por alguns desses livros, livros de geografia, gramáticas, livros com exercícios de matemática resolvidos a lápis. No seu interior tinham frases escritas por caligrafias de raparigas sobre o amor, frases que carregavam a esperança que as raparigas daquelas idades tinham sobre o amor. Raparigas de treze anos, que andavam no oitavo ano. Raparigas que imaginavam palavras como "amor", "paixão", "beijo", "carícia". Raparigas de treze anos que dançavam slows em matinés e em festas de anos. À hora da telenovela, oito e meia da noite, toda a gente sabia que não havia ninguém na rua. As mulheres que não tinham televisão, as mais velhas, as mais pobres, iam para casa de vizinhos. Sentavam-se muito direitas nos sofás. Os homens ficavam nos cafés. Em nossa casa, as minhas irmãs zangavam-se se alguém falava durante a telenovela. Pediam aos meus pais para se calarem. Ao fazê-lo, falavam. Os meus pais diziam que elas é que estavam a falar. De uma frase, nascia uma discussão que só parava quando as minhas irmãs ou os meus pais, sem estarem convencidos, deixavam de responder.

Eu e os meus amigos sabíamos que existiam televisões a cores, mas nunca tínhamos visto nenhuma. Quando alguns dos rapazes que andavam comigo na escola começaram a ter televisões a cores, não foi algo que nos surpreendesse. Nós sabíamos que existiam televisões a cores. No entanto, foi espantoso ver a abelha Maia ou o Dartacão pela primeira vez a cores. As cores. Às vezes, alguns dos rapazes que tinham televisões a cores deixavam-nos ver os desenhos animados na casa deles. As mães entravam e punham-se à frente da televisão. Tentavam oferecer-nos pão com tulicreme. Nós recusávamos de cabeça baixa, dizíamos "Não, obrigado". Outras vezes, viravam-se para os filhos e, como se nós não estivéssemos ali, diziam: "Jà te disse para não trazeres esta cachopada toda cá para casa". Às vezes, durante as brincadeiras, os rapazes que tinham televisões a cores diziam: "Se não me passares a bola para marcar golo, se não me emprestares o teu carrinho vermelho, se correres mais depressa do que eu, não te deixo ir a minha casa ver os desenhos animados." Às vezes, os rapazes que tinham televisões a cores escolhiam dois ou três entre o grupo de rapazes que estava a brincar na rua e, na hora dos desenhos animados, iam com eles para casa ver televisão. Nós ficávamos a vê-los enquanto desciam a rua e não conseguíamos fingir que não nos importava.

No dia em que o meu pai trouxe a nossa televisão a cores, já há muito tempo que eu dizia aos meus amigos que íamos ter uma televisão a cores. Poucos se impressionaram. Eu, no entanto, estava impressionado. Fui com o meu pai à loja. Entre televisões, o meu pai disse-me: "É uma destas." Depois, a carregá-la, tão pesada. Depois, a chegarmos a casa. A minha mãe a ver tudo. Eu, um pouco mais perto, a participar um pouco mais. O meu pai a tirar a televisão de dentro da caixa de cartão, a separar as proteções de esforovite. A televisão a preto e branco a ser tirada do seu lugar como algo que envelheceu. A minha mãe a limpar o pó do móvel e a televisão nova, brilhante. O meu pai começou a sintonizar os dois canais que existiam e a primeira imagem que apareceu foi um jogo entre o Benfica e o Estoril Praia. Eu conhecia os jogadores quase todos, conhecia as cores dos seus equipamentos. Tinha uma caderneta de cromos com as suas fotografias e os seus números. Eu e os rapazes da minha idade, trazíamos sempre connosco os cromos que tínhamos repetidos. Trazíamos sempre connosco uma lista, escrita à mão, com os números dos cromos que nos faltavam. O primeiro a acabar a colecção ganhava uma bicicleta que estava na montra do café do terreiro. Todos sabíamos quando alguém tinha acabado a colecção, todos sabíamos quem tinha ganho a bicicleta. Eu nunca acabei a colecção primeiro. Uma vez, ganhei uma bola. No primeiro dia em que tívemos televisão a cores, fiquei a ver o jogo de futebol. Teria ficado a ver outra coisa se fosse outra coisa que estivesse a dar na televisão. Depois, cresci.

Hoje, o meu filho e as minhas sobrinhas têm televisão por cabo. Têm canais que só passam desenhos animados. Há muitas telenovelas diferentes. Às vezes, no Natal, conto-lhes a história de como, quando eu era da idade deles, tinha uma televisão a preto e branco com uma tela azul de plàstico. Nem o meu filho, nem as minhas sobrinhas sabem a minha idade ao certo. Um dia, os meus filhos saberão que, hoje, ainda sou novo. Nesse dia, o meu filho e as minhas sobrinhas contarão as histórias de hoje a crianças que nâo conhecerei. Talvez nesse dia eu esteja, na cozinha, com as minhas irmãs, os meus pais e a minha avó a ver a nossa televisão a preto e branco.



*Publicado originalmente no Jornal de Letras.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 16/12/2008 - 03:36
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Aqui já é Lisboa

COUNTRY ROAD TAKE ME HOME

A montanha de trabalho que tinha deixado antes de partir, estava completamente intacta.
Para combatê-la, tenho dormido cerca de 10 horas por dia (mínimo).

 
UNS AQUI, OUTROS ALI

Já depois de chegar, percebi que, das duas encomendas que me pediram para trazer, conhecia previamente tanto os mexicanos que me pediram para trazê-las como os portugueses que as vão receber. Ao mesmo tempo, durante a minha estadia, houve três portugueses que também estavam no México e que, apesar de nos contactarmos, não cheguei a encontrar.
Além disso, o roaming. No México, mensagens de um telemóvel (celular) português enviadas para um telemóvel uruguaio. Ou seja, uma mensagem que vai do México para Portugal para o Uruguai e para o México. E, depois, responde-me. Ou seja, uma mensagem que vai do México para o Uruguai para Portugal e para o México.
Afinal, qual é o tamanho do mundo? 

 

MÁQUINA FOTOGRÁFICA

Encontrei-a. Estava num bolso escondido da minha mochila. 
 


CONFÚCIO

Em Sayula, um aluno da escola onde estive, citou Confúcio. Disse: Se sabes como resolver o problema e não o fazes, então, estás pior do que antes.
Eu já conhecia esta frase antes de ouvi-la por lá. Mas foi bom recordá-la. É uma dessas frases que não se devem esquecer.



BLOG

Um pouco por conselho de Confúcio, um pouco por senso comum, este blog irá abrandar nos próximos tempos. Agora, há que aguentar o impacto do muito trabalho que tenho pela frente. Falo-ei com um sorriso. Estamos cá para isso.
Nos próximos meses, o meu ritmo de viagens será muito mais calmo daquilo que foi a média deste 2008. A razão para esse pousio tem a ver com a escrita. Novos mundos e novas personagens irão chegar às páginas escritas.
Ainda assim, "calmo" é um adjectivo muito realtivo. Apesar de não haver diário do México, o blog continuará a bom ritmo e espero que a merecer a vossa visita.


 

AGRADECIMENTOS


Agradeço muito a todas as pessoas que passaram por aqui nestes dias e que, desse modo, me fizeram sentir mais acompanhado nesta viagem. É um privilégio poder partilhar estes pormenores da vida convosco.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 10/12/2008 - 12:49
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Imagens quase aleatórias 1

 

Postado por: José Luís Peixoto | 10/12/2008 - 12:36
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Imagens quase aleatórias 2

 

Postado por: José Luís Peixoto | 10/12/2008 - 12:35
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Imagens quase aleatórias 3

 

Postado por: José Luís Peixoto | 10/12/2008 - 12:34
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Imagens quase aleatórias 4

 

Postado por: José Luís Peixoto | 10/12/2008 - 12:33
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Imagens quase aleatórias 5

 

Postado por: José Luís Peixoto | 10/12/2008 - 12:32
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Imagens quase aleatórias 6




Todas as fotos anteriores foram tiradas por mim.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 10/12/2008 - 12:23
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Aqui ainda é Guadalajara

PÁGINAS DEL MUNDO


Ontem, teve lugar o evento mais importante de entre os que participei aqui na Feira Internacional do Livro de Guadalajara (FIL) - refiro-me a “Páginas del Mundo”. Um evento para o qual fui um dos três autores convidados, juntamente com Kiran Desai e Yuri Andrujovich. Estar nessa posição foi, aliás, o que me permitiu ter tanto destaque nesta FIL. A sala estava cheia e a conversa com Amelia Guardiola correu muitíssimo bem. A mesma foi precedida da leitura de um excerto de Cemitério de Pianos (momento em que Simão fica cego) pelo actor Ricardo Delgadillo. Para mim, foi uma conversa muito à flor da pele, na qual estive sempre muito frágil (e creio que se notou) pelo facto de ter sido o dia do septuagésimo aniversário do meu pai. A conversa decorreu toda à volta do Cemitério de Pianos, o que contribuiu para essa fragilidade. Contei o significado daquela data para mim e, falando das personagens, falei do meu pai, falando da oficina do romance, falei da oficina do meu pai, falando do mundo do romance, falei do nosso mundo, da nossa vida, daquilo que passámos juntos, daquilo que me ensinou e legou. Hoje, em vários jornais mexicanos, ao referirem-se à conversa de ontem, referiram-se aos setenta anos do meu pai. Sei que isso o deixaria feliz.



FOTOS (PARTE I)


Passei a manhã de hoje a ser fotografado num cemitério por uma fotógrafa americana, que tinha encontrado na Feira do Livro de Brooklyn e que, apesar de termos tentado combinar algo na altura, não conseguimos chegar a fazer uma sessão de fotos. Aconteceu hoje. É uma new yorker típica. Cada vez que passávamos por um cão a dormir, ficava muito preocupada e dizia muito séria que estava morto. Por várias vezes, vi-a a cheirar flores de plástico, pensando serem verdadeiras. Gringos serão sempre gringos.



PLACER DE LA LECTURA


Hoje, às 5 e meia da tarde, tive uma conversa que me deu muito, muitíssimo prazer com Benito Taibo sobre o prazer da leitura. A assistir estariam entre 150 a 200 pessoas. Tive oportunidade de falar das minhas leituras, dos livros que me têm marcado ao longo da vida. Infelizmente, nem sempre tenho oportunidade de falar sobre os livros que leio. Nem sempre me perguntam isso e tenho o hábito de responder ao que me perguntam. Foi muito bom. Se tivesse ido de blazer, óculos e barba, até talvez houvesse quem me considerasse um intelectual (ironia, quase). O Benito Taibo foi ultra-simpático, muito inteligente e bem-humorado. Tentei acompanhá-lo. No final dei mais duas entrevistas, as últimas. Autógrafos, fotos, sorrisos, etc. Mais uns tempos e acho que seria capaz de acostumar-me a esta rotina (ironia, sem “quase”). Na parte dos autógrafos, houve quatro pessoas que me confessaram ter roubado os livros. Fiquei muito feliz. Eu próprio, no final da conversa de ontem, os tinha incentivado a fazê-lo. Os livros espanhóis chegaram a um preço proibitivo. Ainda assim, venderam-se (ou roubaram-se) todos os que vieram. Na próxima vez, felizmente, já estarão a preços mais acessíveis porque, desta viagem, resultou o interesse de duas editoras mexicanas em publicá-los localmente.



FOTOS (PARTE II)


Hoje, perdi a minha máquina fotográfica. Tem sempre de haver alguma coisita assim. Não é que estrague tudo, mas relembra a imperfeição de todos os momentos. Não sei se a roubaram (justiça providencial por incentivar o roubo de livros?) ou se a perdi. Seja como for, está e fica em Guadalajara.

Simultaneamente, saiu hoje num jornal daqui a fotografia publicada mais feia que alguma vez me tiraram. Num artigo sobre a conversa de ontem, numa foto de quase um quarto de página de jornal, estou com o indicador esticado sobre a cara, como se estivesse a coçá-la, com os olhos semi-abertos (semi-fechados).



24 HORAS


Hoje, tem sido um dia algo nostálgico porque, amanhã cedo, começo uma viagem que durará exactamente 24 horas (contando com o acerto da hora). Paragem na Cidade do México e em Madrid. Hoje, tive sempre consciência de que tudo o que estava a fazer era feito pela última vez nesta primeira visita que fiz ao México: última torta ahogada, última visita à Feira do Livro e despedidas sucessivas. E estes leitores, a transbordarem afecto e generosidade. E as filas intermináveis para comprar bilhete para entrar na Feira. Já tenho saudades e ainda estou aqui.

Levo o coração cheio deste país. Apesar de terem sido dias vividos até ao limite, aquilo que mais me impressiona é o tanto que ficou por viver, por conhecer e por saborear. Regressarei aqui, vezes e vezes e vezes.

O balanço será feito já em Portugal, no domingo. Esse será o último episódio desta série mexicana. Agora, há ainda uma noite e há muitas coisas que tenho de fazer pela última vez nesta primeira (mas não última) visita ao México.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 06/12/2008 - 01:51
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Hotel doce hotel

Foto minha (quando ainda tinha máquina).

 

Postado por: José Luís Peixoto | 06/12/2008 - 01:47
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Pai

José João Serrano Peixoto

n. 4 de Dezembro de 1938





SONG TO HALL UP HIGH

I know you watch over me
Father of all the past
And all that will ever be
You are the first and the last

The watcher of all that lives
The guardian of all that died
The one-eyed God way up high
Who rules my world and the sky

Northern wind take my song up high
To the Hall of glory in the sky
So its gates shall greet me open wide
When my time has come to die


Bathory, in Hammerheart (1990)

 

Postado por: José Luís Peixoto | 04/12/2008 - 15:24
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Flores

Foto minha.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 04/12/2008 - 15:14
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Arriba, arriba, ándale, ándale

LEITURA DE POESIA


Eu bem disse que estava pronto.

Ontem(2/12/2008), às 18 horas, começou a leitura de poesia. Não foi estritamente uma leitura de poesia, houve também alguma contextualização dos poemas. Foi uma hora e meia feita de palavras, mas não tenho palavras para descrevê-la.

A sala onde, uma vez por dia um autor lê poesia, é algo íntima, quando comparada com as outras. Terá talvez uns 50 lugares sentados em sofás, dispostos um pouco por todo o lado, que não estão necessariamente virados para o palco, mas que não estão de costas para o autor e o apresentador. Estavam umas 80 pessoas. O chão é alcatifado.

Espero que não tenha sido da tequilla, que era distribuída gratuitamente (tomei duas), mas, no final, por sugestão do público ofereci cada uma das páginas. Tive de autografá-las todas. E tivemos de sair e terminar do lado de fora porque ia começar a actividade que estava marcada para uma hora depois do fim da leitura.

Pela segunda vez no México, houve uma pessoa que se agarrou a mim a chorar. É impossível ficar indiferente a isso. Se não mencionasse esse detalhe para mim próprio, eu não seria eu.



MAESTRO JOSÉ


Sayula fica a cerca de uma hora e meia de Guadalajara. É a pequena cidade onde nasceu o escritor Juan Rulfo. Hoje (3/12/2008), às nove e meia da manhã, estava a sair do hotel para ir falar à escola preparatória (que é o nome que aqui dão às escolas secundárias/liceus). Quando eu e os meus acompanhantes (chamam-lhes os meus “anfitriones”) chegámos, estavam os professores de fato e gravata à nossa espera, as professores com vestidos prateados, dourados.

Escola pintadinha, linda. Fui caminhando de braço dado com o director, sempre com duas ou três pessoas à nossa frente a tirarem-nos fotos. O director ria-se com gargalhadas que contagiavam.

Entrei na sala cheia de alunos, 16/17 anos, gritaria total. Na mesa, à minha frente, uma placa a dizer “Maestro José Luís Peixoto”.

Começo a falar. No meio do que ia dizendo, li o poema “el la hora de poner la mesa...”, li o primeiro parágrafo do “Te me moriste” e li um parágrafo de “Una casa en la oscuridad”. Eu e aquela centena de adolescentes tivemos a mesma idade (se calhar ainda temos), rimo-nos das mesmas coisas e fizemos os mesmos silêncios. Eu suspirava e sentia um pequeno suspiro colectivo.

No final, estávamos de acordo que Sayula é uma espécie de Galveias (vila onde nasci). Abri um livro e fui dizendo o número das páginas. Assim se rifaram uns seis ou sete livros. Ofereci os que levava para a biblioteca. As dedicatórias que escrevi nesses livros foram lidas em voz alta pelo director. Terminámos e deixei de ver a luz durante uns minutos, comecei a autografar tudo o que me punham à frente: livros, papéis, mochilas, etc. Autografei três braços.

Dezenas de fotos de telemóvel depois, um rapaz pediu para falar comigo em inglês. Queria dizer-me que escrevia poesia. Queria falar em inglês porque não queria que os colegas entendessem.



DON JOSÉ


Além do Juan Rulfo, Sayula é conhecida pela sua produção artesanal de facas. Levaram-me a conhecer o decano dos fabricantes: Don Jose Ojeda. Não sei que idade terá. Oitenta? Arrisco esse número.

Enquanto o ouvia falar não podia deixar de lembrar-me do CD que tenho do Juan Rulfo a ler alguns contos de El llano en llamas. Esta é a região desse livro e a maneira como Don José fala é a forma de falar desse livro, usam a mesma linguagem, a mesma entoação das palavras.

Juan Rulfo nasceu en Sayula, mas nunca residiu aqui, viveu a alguns quilómetros. Em Sayula, viveu o tio de Juan Rulfo, dois quarteirões abaixo, grande amigo de Don José. Foi buscar uma moldura, onde está o tio de Juan Rulfo, quando ainda era jovem de sombrero. Eu e Don José ficamos a falar.

Normalmente, tenho alguma dificuldade de conversar com pessoas mais velhas. Por respeito. No entanto, sou capaz de ouvi-las muito bem. Com os velhos da minha terra, aqueles que me eram mais próximos, sempre fui avançando muito lentamente na minha confiança, perseguindo devagar a confiança que eles me davam e fazendo por merecê-la. Tratar uma pessoa mais velha como igual sempre me pareceu uma falta de educação, ou um mal-entendido, cometido pelas pessoas das cidades, que eram de fora e que não sabiam como nos comportamos. Sempre fui educado assim. Nunca fui de tratar pessoas mais velhas por tu, de negar-lhes alguma coisa que me pedissem ou de contradizê-las.

Desse modo, a minha relação com os velhos importantes na minha vida sempre foi de empatia, afecto profundo, mas de pudor. Sempre foi de respeito. Foi exactamente isso que aconteceu com Don José. Fiquei a ouvir as suas histórias, anedotas que lhe contava o tio do Juan Rulfo, a ouvi-lo dizer-me que não lhe faltava trabalho porque, passo a citar, “o mundo é infinito e a arte é infinita”.

E mostrou-me as facas mais valiosas que possui: lâminas trabalhadas, cabos de ouro, de marfim, etc. E andámos pela sua oficina, com calendários de mulheres nuas na parede, exactamente como na oficina do meu pai.

E tomámos ponche de romã juntos, tomámos mezcal e deu-me uma garrafa do seu mezcal. Com essa, são três as garrafas que já me ofereceram. Não sei se poderei levá-las todas (excesso de bagagem), mas essa vou levar de certeza.

Sussurrou-me que há anos que anda a anotar todas as suas histórias, disse-me que na próxima vez, mas mostrará - na próxima vez. E deu-me um livrinho que fez para promover a sua oficina, mas que apenas tem uma página a falar da oficina, o resto é ocupado por jóias como esta: “Que triste es llegar a viejo, es un constante sufrir. El chile se hace pellejo, la vieja te hace pendejo, todo se te va en dormir y aunque tengas buena vieja no te la puedes subir.”



UMA IMAGEM AVULSA DE GUADALAJARA


O pai que vai à frente a carregar uma cesta de chicharrón (uma espécie de torresmos) e o filho, de oito ou nove anos, que vai atrás, que o segue para todo o lado, a carregar um balde, literalmente um balde, cheio de molho vermelho e picante.



FIESTA


Todas as noites há festa em Guadalajara. Hoje, é em La Mutualista. Lá estarei, claro.

Creio que o dj não “tocará” techno minimal. (esta fica para quem for capaz de a entender).

 

Postado por: José Luís Peixoto | 04/12/2008 - 01:37
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On the road

Foto minha.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 04/12/2008 - 01:33
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Tradução Peixotão

ENTRECHÃO

Um roupeiro, um espelho, uma cadeira,
nenhuma estrela, o meu quarto, uma janela,
a noite como sempre, e eu sem fome,
com uma pastilha e um sonho, uma esperança.
Há muitos homens lá fora, em todas as partes,
e mais além a névoa, a manhã.
Há árvores geladas, terra seca,
peixes parados idênticos à água,
ninhos dormindo sob frágeis pombas.
Aqui, não há uma mulher. Falta-me.
Desde há dias que o meu coração quer fincar-se
debaixo de alguma carícia, uma palavra.
É áspera a noite. Contra muros, a sombra,
lenta como os mortos, arrasta-se.
Essa mulher e eu estivemos colados com água.
A sua pele sobre os meus ossos
e os meus olhos dentro do seu olhar.
Matámo-nos muitas vezes
ao pé da alba.
Recordo que recordo o seu nome,
os seus lábios, a sua saia transparente.
Tem os peitos doces, e de um lugar
a outro do seu corpo há uma grande distância:
de mamilo a mamilo cem lábios e uma hora,
de pupila a pupila um coração, duas lágrimas.
Amo-a até ao fundo de todos os abismos,
até ao último voo da última asa,
quando a carne toda não for carne, nem a alma
for ama.
É preciso amar. Isso já sei. Amo-a.
É tão dura, tão frágil, tão clara!
Esta noite, falta-me.
Sobe um violino desde a rua até à minha cama.
Ontem vi dois rapazes que, diante de uma montra
de manequins nus, se penteavam.
O silvado de um combóio preocupou-me por três anos,
hoje sei que é uma máquina.
Nenhum adeus é melhor do que o de todos os dias
a cada coisa, a cada instante, alto
o sangue iluminado.


Desamparado sangue, noite branda,
tabaco da insónia, triste cama.


Vou para outra parte.
E levo a minha mão que tanto escreve e fala.


Por Jaime Sabines
Do livro: Recuento de Poemas 1950/1993
Traduzido por J.L.Peixoto

 

Postado por: José Luís Peixoto | 02/12/2008 - 16:59
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Lunes

Em Guadalajara, está um tempo que, muitas vezes, não temos em Portugal no Verão. Está uma espécie de Primavera com aroma de Verão, muito sol, o que ajuda bastante a sorrir. Ontem, para além das várias entrevistas, que correram todas de forma excelente, foi sobretudo um dia para descansar. Andei sempre com os meus acompanhantes, que são muitíssimo simpáticos, embora às vezes seja estranho para mim ter sempre duas pessoas à minha volta. Acontece sentir-me responsável por eles e sentir que tenho de estar sempre divertido para que eles sintam que estão a fazer um bom trabalho. E estão.

À tarde, encontrei a minha editora francesa, um amigo poeta espanhol que vive no Uruguai e uma fotógrafa norte-americana, com quem fiquei de tirar umas fotos em Nova Iorque mas, depois, não tive tempo. Estes encontros parecem-me formar a imagem nítida de um certo aspecto da minha vida. Eu sou a única coisa que estas pessoas têm em comum. Cada uma delas vive no seu canto do mundo, na sua vida. São desconhecidos uns dos outros. Depois, existo eu, que carrego uma rede de muitas pessoas assim. Pessoas que existem nos contextos mais díspares e que se ignoram mutuamente. Muitas vezes, sinto-me um fantasma entre todas elas. Estou, mas não estou. Como Cassandra, a saber, mas a não poder contar a ninguém, porque ninguém acredita.

Hoje, terça-feira, começará o contacto real com o público presente nesta Feira do Livro, que impressiona pelas suas dimensões e pelos milhares de pessoas que a preenchem a todas as horas. Será às 18 horas, leitura de poesia.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 02/12/2008 - 16:33
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Monday night fever

Foto minha.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 02/12/2008 - 16:26
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Domingo familiar

TEOTIHUACAN

Neste momento, é-me difícil encontrar palavras para descrever Teotihuacan. Passei lá a tarde e, neste momento, parece-me irreal. Se a foto abaixo não for suficiente, sugiro o google: Teotihuacan. Não há dois lugares com esse nome.


GUADALAJARA

Já estou em Guadalajara. Vou andar sempre acompanhado pelo Raúl e pelo Mário. A agenda, impressa num papelinho que tenho aqui à minha frente, está cheia. Amanhã, até às duas da tarde, terei dado 5 entrevistas seguidas: 3 jornais, 1 rádio e 1 televisão. As conversas ao vivo com o público começam na terça e vão ao ritmo de uma por dia, sendo a última na sexta.
A Feira do Livro de Gudalajara é a segunda maior do mundo, depois de Frankfurt.
No fear. Estou pronto.



ALGUMAS COISAS QUE APRENDI HOJE SOBRE O MÉXICO

- Na Cidade do México, há edifícios de 6/7 pisos em que, em cada andar, existem diversas salas, nas quais estão a decorrer velórios. Ou seja, tratam-se de prédios com algumas dezenas de funerais a decorrer em simultâneo e em permanência.

- Eu vi na Praça Garibaldi, mas contaram-me que é muito frequente em festividades, etc. Aqui, há pessoas que vendem choques eléctricos. Ou seja, andam com uma pequena bateria e dois cabos que acabam em dois tubos de ferro. Então, mediante o pagamento de 10 pesos, as pessoas seguram nos dois tubos e apanham um choque. Uns dizem que faz bem, outros dizem que faz mal. Uns dizem que é bom, outros dizem que é uma estupidez.


ALGUMAS COISAS QUE NUNCA TINHA FEITO ANTES DE VIR AO MÉXICO

- Comer insectos.
- Andar num táxi em que o taxista não tem o braço direito.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 01/12/2008 - 06:45
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A Pirâmide da Lua vista da Pirâmide do Sol

Foto minha.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 01/12/2008 - 06:42
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Maria Vicência Delfino

Enganei-me duas vezes. A mãe do meu pai chamava-se Maria Vicência.

Não quero arranjar desculpas para o meu engano, até porque não foi há muito tempo que tive uma conversa com a minha mãe sobre a minha avó paterna, mas aproveito para dizer que o lapso de lhe chamar Claudina tem a ver com o facto de o meu avô materno se chamar Luís Claudino, que também não conheci (o único avô que estava vivo quando nasci foi a minha avó materna); depois, o lapso de lhe chamar Delfina tem a ver, percebi agora, com o seu próprio sobrenome. Enfim...

Agradeço à minha irmã Anabela e ao meu primo José pelas chamadas de atenção.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 01/12/2008 - 06:39
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