Blog do José Luís Peixoto |
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Para todo bienMUSEO-CASA LEON TROTSKYOntem, de manhã. Comovente. TIANGUIS DEL CHOPO Ontem, à tarde. Tianguis del Chopo ou, simplesmente, El Chopo, é um grande mercado de culturas alternativas que acontece todos os Sábados na Cidade do México. Muita música pesada e dark, muita mesmo. A minha bagagem duplicou. De todos os lugares do género que conheço, e creio que conheço muitos, El Chopo é apenas comparável com a Galeria do Rock em São Paulo. Uma espécie de Camden Town, em Londres, se, além das roupas, existissem também milhares de CDs e de DVDs e tudo o que diz respeito a culturas ligadas ao rock mais marginal, inclusivamente livros. Se eu vivesse aqui, não sei bem o que seria da minha economia. Suspeito que, entre livros e discos, seria expulso de casa pelos livros e pelos discos. Se agora já tenho pouco espaço, e o receio de algum dia acordar (ou não acordar) debaixo de um terramoto de livros, se vivesse aqui, com a ajuda de El Chopo, seria muito pior. Basta dizer que, mal cheguei, encontrei logo o CD de Daemonarch. Agora, está aqui à minha frente. Mas não existe apenas música, existe tudo. Concertos ao vivo e milhares de coisas que nem se imagina que existam. Estou com pouco tempo e, por isso, deixo estas imagens para quem tiver curiosidade: E este sobre algumas das personagens que se podem encontrar em El Chopo: ALGUMAS COISAS QUE APRENDI ONTEM SOBRE O MÉXICO - Dois dizeres populares mexicanos de grande sabedoria: 1 - Para todo mal, mezcal; para todo bien, también. 2 - Viernes, social; sabado, sexual; domingo, familiar. - Os mexicanos não cantam a canção dos parabéns nos aniversários. O “cumpleaños feliz” espanhol não se canta no México. Em vez disso, nos aniversários, canta-se uma canção bastante diferente, com outra melodia, chamada “las mañanitas”.
Postado por: José Luís Peixoto
| 30/11/2008 - 13:28 |
Quando eu chegar, há um certo filhinho que terá uma t-shirt de Slayer para usar no infantário |
Pedido de desculpas à minha avó DelfinaÉ muito normal que existam imprecisões, maiores ou menores, nas entrevistas. É muito raro quando não existe. Não vejo nenhum drama nisso. É uma mostra dos mal-entendidos que sempre existem e expõe uma parte daqueles que deverão ser os mal-entendidos que existem normalmente, nas conversas de todos os dias.Ontem, saiu um artigo sobre a mim no jornal Milenio, baseado numa entrevista. Esse artigo tem algumas imprecisões que nasceram, justamente, desses pequenos mal-entendidos. Como disse, não vejo nenhum drama nisso e não me incomoda. Aquilo que me frustra e me deixa o coração apertado. Foi que, pela primeira vez numa entrevista, perguntaram-me o nome dos meus avós e eu enganei-me no nome da minha avó materna. Acaba por ser triste porque creio que a sua memória merecia muito essa referência. Nunca a conheci. A minha avó Delfina morreu alguns anos antes de eu nascer. Sei sobre ela que deu à luz o meu pai em 1938 e que, nessa altura, tinha 46 anos. O meu pai e os meus tios eram 6 irmãos, mas, ao longo da vida, a minha avó Delfina teve 12 filhos, 6 dos quais morreram na infância. Sei também que tinha epilepsia e, segundo descrição da minha mãe, tinha a língua toda retalhada por mordê-la durante os ataques. Aqui está o artigo do jornal Milenio. Onde se lê “Claudina” deve ler-se “Delfina”. LA REALIDAD, ÚNICA SUMISIÓN DE LA LITERATURA: PEIXOTO Y muchas veces, cuando tengo dudas o cuando pienso por qué lo hago, lo hago por ellos, lo hago para decir y hablar con su voz”, dice José Luís Peixoto al referirse a sus abuelos paternos: José y Claudina y, maternos: Luis y Joaquina. Este joven escritor portugués ha sido considerado junto a Kiran Desai, de India, y Yuri Andrujovich, de Ucrania, las presencias más importantes de literatos en la XVII Feria Internacional del Libro de Guadalajara (FIL). “Un interés por la gente sencilla, la sabiduría de la geste iletrada” se trata de un interés constante en su búsqueda artística; su obra circula alrededor de las relaciones familiares, las que tal vez él mismo cultivó en el envejecido pueblo de Galveias, donde vivió hasta los 18 años. Quizá, también por ello, este joven de 34 años con varios pearcing en su rostro y algún tatuaje en su cuerpo, con frecuencia cosecha expresiones como éstas de Saramago: “una de las revelaciones más sorprendentes de la literatura portuguesa actual”. Su obra (novela, poesía, dramaturgia, artículos) permite asomarse a aquel pueblo árido, sus viejos, los jóvenes que hoy huyen demasiado pronto, pero que en sus tiempos corrían cada mes a la plaza del pueblo con la ansiedad de elegir la mayor cantidad de libros posible en la biblioteca itinerante. En su obra también puede verse su casa, aquella que figura en al menos uno de sus libros (Una Casa en la oscuridad), “muchas veces que me parece que nunca salí de ahí. Todavía esa es mi casa, siempre será mi casa”, dice. Este artista, al que se le reconoce una gran fuerza expresiva, con una prosa muy lírica publicó su primera novela, Nadie nos mira, a los 26 años de edad, con ella obtuvo el Premio José Saramago y rápidamente empezó a cosechar lectores por miles. De México sólo conocía sus escritores. A Juan Rulfo llegó tarde, dice, pero le fascina. “Hoy la literatura va por muchos caminos. En mi propia concepción literaria el punto central es el ser humano. Me parece que es una manera de intentar conocernos unos a otros, son puentes entre personas”. Su obra y su ideario coincide así con Gao Xingjian, el Premio Novel de la Literatura en 2000: “Lo único a que debe sumisión la literatura es la realidad (...) Las experiencias y enseñanzas ajenas que no pasan por el filtro de la propia vivencia acaban convertidas en simple conocimiento libresco”. El escritor portugués habla de sus expectativas literarias, éstas tienen que ver con contestar a las cuestiones que toda la gente tiene y que siguen presentes en la literatura desde siempre: quién soy, para dónde quiero ir, qué pienso sobre la vida, la muerte, la felicidad, Dios. “Son cuestiones para las que a lo mejor nunca tendremos una respuesta definitiva, pero me parece que es importante que uno vaya intentando alcanzar una respuesta, sea cual sea”, finaliza.
Postado por: José Luís Peixoto
| 30/11/2008 - 13:15 |
Hoy en la Arena México: Los Perros del Mal vs. São Judas TadeuA CHARLA DE ONTEMAo meio-dia, ontem, estava a começar a conversa na Facultad de Estudios Superiores de Acatlán (http://www.acatlan.unam.mx/). No início, uma fadista mexicana a interpretar dois temas acompanhada de dois guitarristas também mexicanos. Se algum dia precisarem de fadistas estrangeiros, perguntem-me a mim. Ao longo do tempo, tenho vindo a acumular algum conhecimento e experiência sobre pessoas que, em diversas partes do mundo, se apaixonam pelo fado, muitas aprendem a língua portuguesa por causa disso. Seria interessante um encontro, em Portugal, de fadistas estrangeiros. Ontem, em Alcatlán, a canção portuguesa esteve presente numa excelente voz e no entusiasmo de dois guitarristas, entre os quais um rapaz de 15 anos, a jurar que o fado é um sentimento a que não é capaz de escapar. Depois, a leitura, a conversa, as perguntas, conversa, leituras, conversa, até às 3 horas da tarde. Apesar de já ter visto muito, continuo a surpreender-me. É impressionante a resistência e o interesse que se nota nas pessoas que têm participado nestas apresentações. O fim chega porque há um momento em que se olha para o relógio e nos apercebemos que já passaram horas. As pessoas ficam até ao fim e inclinam-se para a frente nas cadeiras. Há pessoas a filmar com telemóveis, com máquinas fotográficas e com máquinas de filmar. Há gravadores pousados à minha frente na mesa e há pessoas nas primeiras filas com gravadores apontados para mim. A maneira como vejo este público mexicano é a do cínico que, não acreditando no amor, se apaixona e percebe o quanto se enganou. Além disso, estou muito contente com aquilo que disse, tanto ontem, como nos dias anteriores. Houve várias pessoas que estiveram em mais do que uma charla e, por isso, fiz um esforço para não me repetir demasiado. Creio que consegui. No final, foram rifados alguns livros meus e fui eu que os sorteei, folheando as páginas de um deles e dizendo os números que calhavam. As “rifas” eram distribuídas à entrada e consistiam nuns marcadores de livros com uma foto e alguns poemas meus. Ou seja, no final, havia dezenas de marcadores para autografar. Não repeti um único autógrafo. Além disso, de novo, livros, cadernos - houve um rapaz que me pôs um caderno à frente e me pediu para escrever uma definição de amor. E fotografias, muitas. ALGUMAS COISAS QUE APRENDI ONTEM SOBRE O MÉXICO - No México, o dia 28 de cada mês é o dia de São Judas Tadeu. Na rua e no metro, há pessoas de todos os géneros, dezenas, centenas, que passam a carregar imagens de São Judas Tadeu. Vão ser abençoadas numa igreja do centro da cidade. As imagens podem ser grandes (mais ou menos um metro) ou pequenas (alguns centímetros). Podem ir ao colo, abraçadas, ou na mão. Quase sempre envoltas por uma grande quantidade de rosários. Às vezes, há alguns homens que passam vestidos de São Judas Tadeu. Em todas essas pessoas, a fé é muito evidente. - A língua náhuatl atravessa o espanhol que se fala no México e está presente nos mais diversos contextos. Exemplo muito frequente (tirado do dicionário de náhuatl que a Berenice me ofereceu): Chingar. tr. y prnl. Verbalización de chinco o chingo, “en el culo” (véase tzinco en esta sección). De tzintli, culo, ano, -co, part. locativa. Para el análisis de esta voz y de sus numerosas acepciones en México vease el Apéndice v. Não resisto a deixar um verso de um livro de poesia náhuatl (tirado de um volume bilingue que me foi oferecido en Acatlán): Yan cuecuepontimani icniuhxochinquahuitl; que significica em espanhol: Ya echa brotes el árbol de la amistad. (Não tive de procurar muito, as palavras náhuatl são gigantes). LAS LUCHAS A Arena México é o maior recinto do país onde se pratica esta espécie de “luta” a que nas Estados Unidos chamam “wrestling” e que, aqui, chamam simplesmente “lucha”. Ontem, cheguei uns 15 minutos atrasados à Arena México. As imediações são, por si só, um espectáculo. Por um lado, as centenas de vendedores de tudo o que se relacione com as luchas, por outro lado, as próprias pessoas que vão às lutas, devidamente mascaradas, com os níveis de adrenalina altos e em ascensão. Esse pequeno atraso não tinha qualquer espécie de significado, uma vez que eu e as minhas companhias estávamos perante um programa de cinco lutas, cada uma com três caídas. Haveria muito para dizer sobre as luchas, talvez um dia o faça. Por agora, gostava apenas de dizer que é muito diferente assistir a uma dessas lutas pela televisão ou na quarta fila da Arena México com os lutadores quase a caírem-nos em cima, a ouvir-mos tudo o que dizem e com os pontapés na cara (e não só) a serem bem sonoros. Depois, este tipo de “luta” no México é bastante diferente da sua equivalente nos Estados Unidos. Guardando a ressalva de ter assistido a uma ao vivo (Mex) e a outra apenas pela tv (USA), fico com a sensação de que a primeira é muitíssimo mais genuína e, por outro lado, os lutadores são muito mais suicidas. As luchas são uma forma de entretenimento absolutamente popular que, em muitos aspectos, reflectem diversos aspectos deste sociedade. A imensa saturação de cores e de elementos decorativos que se encontra a cada esquina da Cidade do México, em lojas, carros, pessoas, casas, está bem presente nas luchas. O kitch está bem presente. O humor mexicano que, na tv, é representado por personagens grotescas (homens vestidos de mulheres horrendas, pessoas vestidas de insectos, etc) está presente nas luchas. As multidões sem fim estão presentes nas luchas. Além disso, há os vendedores que vendem de tudo em todos os momentos, há as meninas que vêm anunciar as diversas fases dos “combates” e que desfilam nos intervalos, há os lutadores que se dividem em “rudos” (de grande porte, brutos e desleais) e em “tecnicos”(altamente atléticos, que respeitam as “regras”), há as lutadoras que se dividem em “cabeleras” e “mascaras”, há um caleidoscópio de coisas. As luchas, no México, são um encontro entre o bailado, o circo e a ginástica. Por exemplo: E assim terminaram as obrigações na Cidade do México. Hoje será para curtir e amanhã para viajar para Guadalajara, onde terei uma agenda carregada na Feira Internacional do Livro de Gaudalajara. Mais informações aqui: http://www.fil.com.mx Ainda assim, espero continuar a fazer o relatório destes dias. O relatório possível, claro.
Postado por: José Luís Peixoto
| 29/11/2008 - 15:36 |
Los chavos |
ThanksgivingDIÁRIOS E BLOGSTenho muitos amigos que têm blogs, que acreditam nos blogs e que, em todas as oportunidades, me tentavam convencer a ter um blog. Com algumas pessoas, esse tema tornou-se tão obrigatório como falar da proibição de fumar em espaços públicos com fumadores. Havia pessoas a quem parecia fazer confusão que eu, escrevendo, não o fizesse também para um blog. Eu ia dizendo que era exactamente por isso que não o fazia e escudava-me na frase do Bernardo Soares: “tanto me exteriorizei dentro de mim, que dentro de mim não existo senão exteriormente”. Que desassossego. Não queria, nem quero exteriorizar-me a esse ponto. Desse modo, consegui ultrapassar, com relativa abstinência, os anos mais entusiastas dos blogs em Portugal. Leitor atento de blogs de diversas naturezas, não bloguei e não comentei, apenas li e interiorizei. Há poucos meses, quando falei com o João Gabriel de Lima, da Bravo, sobre a possibilidade deste blog, já começava a ter uma perspectiva diferente. Aquilo que mudou não foi a minha visão acerca dos blogs, que sempre me pareceram um meio de possibilidades infinitas, aquilo que mudou foi a forma como tenho conseguido organizar o meu tempo de um modo cada vez mais eficaz. Por inusitado que possa parecer, a minha decisão definitiva de avançar com um blog, aconteceu enquanto falava com um amigo que tem um blog (obenficasoueu.blogspot.com), e que me dizia que a grande vantagem que vê neste meio é que, daqui a alguns anos, saberá com precisão aquilo que pensava em determinadas épocas acerca de determinados temas (SLB). É bastante provável que eu estivesse distraído, mas creio que nunca tinha ouvido esse argumento. Convenceu-me de imediato. Ao longo da vida, mudamos muito, esquecemos quem fomos. Às vezes, parece-me que se encontrássemos um nosso “eu” passado teríamos dificuldade em reconhecê-lo da mesma maneira que nos custaria reconhecer um “eu” futuro. Talvez aconteça mesmo encontrarmos muitos “eus” passados e futuros com outros rostos e não nos reconhecemos neles porque deixámos de reconhecer aquilo que fomos, apagámos a realidade das fotografias, fomos/somos Stalins de nós próprios. Ao mesmo tempo, precisava de escrever a mim próprio numa linguagem de, justamente, falar comigo próprio, tranquila. Obviamente que sei que os vossos olhares estão aí, agradeço-o, mas confesso que, neste momento, penso mais num dos vários Zé Luíses futuros que, um dia, virão ler estas páginas, sorrir com elas, envergonhar-se delas, comover-se com elas, exactamente como se folheasse um álbum de fotografias. Também os meus filhos, poderão conhecer o pai que tinham quando eram pequenos. Aquilo em que pensava quando andava longe deles, a procurar brinquedos no México (ou na Turquia, ou no Brasil, ou na África do Sul, ou etc.) Estas palavras são fotografias. É claro que nem sempre vou ter tempo de colocar textos novos. Mas poderei dar-vos a conhecer uma parte (a parte que me parecer melhor), dos textos diversos que vou publicando nos lugares mais imprevistos. E poderei também manter algo fixo, algo que não mude nesta vida com estranha forma, esta vida que traça linhas entre continentes, que está sempre a chegar e que está sempre a partir. Vem tudo isto a propósito de, neste dois primeiros dias de México, nos momentos breves de silêncio, dar comigo a pensar neste blog. E a gostar. AS CHARLAS DE ONTEM Em conversa com alguns amigos que escrevem e que têm boa relação com o México, sobretudo americanos, já me tinha sido dito que este é um país onde qualquer ateu se reconcilia com o público leitor. Ontem, lembrei-me muito destas palavras. Comecei o dia na UNAM, uma universidade que, no total, tem 270 mil alunos. Num anfiteatro cheio, durante 2 horas, li excertos mais ou menos longos do Cemitério de Pianos e falei e ouvi. Teria ficado muito mais tempo. Mais uma vez, voltei a dar todos os livros que levava e, além de livros, autografei todo o tipo de papéis e objectos. Naturalmente que relativizo o gesto de autografar, mas considero que o simples acto de pedir um autógrafo é logo um sinal de generosidade por parte de quem pede. O mesmo se aplica às milhentas fotografias de telemóvel. Tengo los ojos cerrados? Tiramos otra. Ao fim da tarde, foi a vez da charla na Fundacion Letras Mexicanas (www.fundacionletrasmexicanas.org/). A F,L,M. (as vírgulas na sigla são um pormenor deles, lindo por sinal), entre outras competências, atribui anualmente bolsas nas áreas de Narrativa, Poesia e Ensaio. Esses bolseiros frequentam workshops sobre os mais diversos temas e vão desenvolvendo trabalho nas áreas que lhes dizem respeito, não existindo, no entanto, a obrigação de apresentar qualquer obra. As bolsas têm um valor de cerca de mil dólares americanos, o que permite viver com conforto no México. Não vou tecer qualquer comentário, nem vou comparar com a realidade portuguesa. Deixo-vos só estes dados e confio no vosso juízo. Para mim, foi extremamente gratificante conversar sobre literatura com cerca de 3 dezenas dos bolseiros desta instituição, mais ou menos 30 pessoas da minha idade e com o mesmo interesse pela escrita e a leitura. Comecei por falar daquilo que é viver exclusivamente da escrita literária. Como não podia deixar de ser, fiz também diversas leituras tanto de prosa como de poesia. Estou a tornar-me um especialista nas leituras em espanhol. Quando a conversa passou para o lado da plateia, tinha a ideia errada de que iríamos falar muito sobre o meio editorial internacional. Não levaria essa curiosidade a mal, afinal são pessoas que pretendem levar a escrita a sério, que já o fazem. Não foi assim, falámos apenas de escrita, de literatura. Concluo duas coisas: o México é um país grande e aqueles que ali estiveram são já escritores e não apenas comentadores ou personagens do meio literário. Isso, aliás, pode comprovar-se por aquilo que efectivamente escrevem. Se tiver tempo, em breve, hei-de colocar aqui algumas traduções retiradas do livro que me ofereceram com textos dos bolseiros desta fundação. Tenho de ter cuidado com o México. Estou naquela fase em que me imagino a viver aqui. ALGUMAS COISAS QUE APRENDI ONTEM SOBRE O MÉXICO - Os emos no México são lindos. Existem em toda a parte e falam com voz muito frágil enquanto levam a mão à testa para quase afastar a franja. Há emos adultos. Nunca tive nada contra emos, agora tenho ainda menos. Além disso, aqui até há manifestações de emos, de que já ouvi falar bastante. Vale a pena fazer uma busca no google com as seguintes palavras: manifestación emo. - Nas estações de metro e nas carruagens de metro, há zonas onde só é permitida a entrada a mulheres e a crianças. Na estação, essas zonas estão separadas por um muro transparente. De um lado, só existem mulheres e crianças, do outro estão os homens, algumas mulheres e algumas crianças. P.S. - Ontem, foi a quarta quinta-feira de novembro, ou seja, dia de Thanksgiving. Não comi peru, comi huachinango ao almoço e pozole ao jantar, mas agradeci tudo o que pude. Ainda agradeço. Obrigado.
Postado por: José Luís Peixoto
| 28/11/2008 - 14:40 |
Olha o passarinho... Onde? |
Máquina calculadoraO passado dia 25 de Novembro foi o trigésimo quarto que vivi e, ao mesmo tempo, foi o mais longo. Tenho quase a certeza de que não houve outro 25 de Novembro na minha vida em que tenha ganho 6 horas (24+6=32). O tempo não é algo que se dê ou que se receba. O tempo é algo que se negoceia com a natureza. Talvez por isso, essas 6 horas foram trocadas por 12 horas de imobilidade num voo longo (32-12=20). Quanto às 6 horas, terei de deixá-las na alfândega quando regressar a Lisboa (6-6=0). A natureza é muito ciosa do seu tempo. É muito difícil negociar com a natureza.É muito mais fácil negociar com os mexicanos. Por um lado, 1 euro equivale a 17 pesos, mais coisa, menos coisa (coisa-coisa=coisa); por outro lado, os sorrisos são gratuitos e produzem-se em grandes quantidades. Há fábricas de sorrisos a laborar dia e noite. Depois, há a língua. O espanhol, no México, é a única coisa comestível que não é picante. É doce, é dulcito. No dia 26, hoje, fui o indivíduo mais despenteado que tomou o pequeno-almoço no hotel El Diplomático. Eram 5 horas da tarde em Portugal, 11 horas no México. Às 7 e meia, quando comecei a falar no Centro de Lectura Condesa, eram 1 e meia da noite em Portugal. Boa hora. Na primeira apresentação que alguma vez fiz no México, olhei para as pessoas demoradamente, li excertos dos romances e dois ou três poemas, a la hora de poner la mesa, deixei frases a meio, falei das Galveias, contei histórias e, algumas vezes, ri-me sozinho, mas com gosto. Dei uma entrevista antes e outra depois da apresentação. Conheci pessoalmente leitores que apenas conhecia por email e internets várias, autografei livros, sorri para fotografias de telemóvel e ofereci todos os livros que levei. Agora, são 3 horas. Em Portugal são 9 da manhã. Vou dormir quando as pessoas estão a acordar. Ou seja, o habitual.
Postado por: José Luís Peixoto
| 27/11/2008 - 07:31 |
Raul Seixas de óculos e chapéu |
Post scriptum |
Recado para a minha irmã AlziraMana, já cheguei à Cidade do México.
Postado por: José Luís Peixoto
| 26/11/2008 - 05:14 |
Cão morto, férias, AlzheimerEu já sou crescido, pois é?, pergunta o meu filho muitas vezes. Na sua voz, que ainda não pronuncia os érres, ser crescido significa deixar de ter vigilância. Ontem, quase no fim da manhã, enquanto me dirigia para enterrar o cão, tive a certeza nítida de que sim, ser crescido significa deixar de ter vigilância. Não era um cão grande, mas não conseguia levá-lo apenas com uma mão. Segurava a ponta da saca com as duas mãos e esticava os braços tanto quanto conseguia, não queria que me tocasse. A coluna vergada do cão notava-se através da saca. Nada se pode comparar ao peso de um corpo morto, é um peso com textura e consistência. Entre as mãos, com a ponta da saca, levava também o cabo da enxada, mas, como já tentei explicar, esse era um peso diferente. Pela estrada de areia branca e pó, buracos e pedras, caminhava em direcção aos pinheiros onde, quando era pequeno, apanhava pinhas com a minha mãe para acendermos o lume no Inverno. Nesse tempo, havia lebres que saíam disparadas por detrás do mato e havia os nossos cães, que trazíamos para passarem as férias connosco. Esses eram os cães da minha infância. Como gostaria de poder revê-los. Eu não conhecia bem o cão que enterrei ontem. Tive pena de ver o seu corpo morto, o pêlo ainda molhado pela cacimba, as formigas já a cobri-lo e a rodeá-lo, fez-me impressão, mas, em mim, no lugar de cores carregadas encontrei apenas cinzento. Ontem, eu estava de calções, chinelos, t-shirt velha, sentado numa cadeira reclinável de campismo quando a minha mãe, a sussurrar, para as crianças não se aperceberem, me contou o que viu. Levantei-me devagar. Na rua, o cão estava arrumado ao nosso muro. Agora, enquanto escrevo, não me lembro do nome banal que chamávamos a esse cão que não pertencia a ninguém. Fui buscar a saca e a enxada. Noutros tempos, segundo letras estampadas, a saca serviu para carregar cinquenta quilos de adubo. Ontem, serviu para receber o corpo de um cão, empurrado por uma enxada, serviu depois para levá-lo até ao terreno de pinheiros e embrulhá-lo no interior de uma sombra, feita de areia fresca, sob o tronco de um pinheiro velho Aqui, a maioria das pessoas vem de férias, ou vem passar o fim-de-semana, ou são reformados. Lembro-me deste lugar com muitas diferenças mas, parando-me a pensar, sei que nós fomos aquilo que mais mudou. Lembro-me do meu pai a comprar pés de pessegueiros no mercado, as raízes dentro de sacos atados; lembro-me de pedir que eu segurasse esses troncos fininhos enquanto cobria as raízes de terra. Agora, não consigo apanhar os pêssegos que crescem nos ramos mais altos destas árvores que, durante estes anos, nunca saíram daqui. No entanto, nós fomos aquilo que mais mudou, porque o meu pai já não está cá e porque o rapaz que o ajudava já não sou eu, também já não está cá. Quando chegamos, há sempre o mesmo cheiro de casa fechada, há a luz que vem perturbar um tempo onde não aconteceu nada, não existiu nada: sombras e silêncio. Entre os objectos que vieram aqui parar, o pinguim de loiça, que sempre conheci sobre o frigorífico da minha avó, assiste à chegada de crianças que não a conheceram, que não ouviram a sua voz e que, mesmo assim, correm, observam o mundo e dizem palavras que nunca foram ditas. Talvez eu seja também feito de loiça porque é com a mesma surpresa que assisto a esse milagre. As crianças, atentas ao presente, agora-agora, conseguem transformar tempo comum em férias. Eu, ao deixar de saber como fazê-lo, ganhei a capacidade de observá-lo. Ontem, o sol já queimava. No regresso, levava apenas a enxada. Estava um homem descalço, de pijama, encostado ao reboco de um muro. Apesar de não ser habitual, não havia motivo para estranhá-lo demasiado. Assustei-me apenas quando caminhou na minha direcção e me agarrou no braço. É só brincar? Querem lá ver o menino. Pensas que é só brincar? Os seus dedos eram muito fracos. Talvez oitenta anos. Os seus olhos eram vazios, ou feitos de água, dirigiam-se a outra pessoa no meu lugar. Tratava-me por menino e, entre aquilo que repetia, falava de brincar. Reconheci-o. Lembrei um rosto de há dez, quinze anos. Segurei-lhe no braço e levei-o comigo. Então, menino? Chega de brincar. Reconheci-o e fui levá-lo à casa onde a filha e o genro estavam preocupados, o portão de ferro. Ó menino, menino. Antes, enquanto subíamos, carregávamos as duas únicas sombras assentes na areia branca e a mim, erradamente, parecia-me que a estrada era infinita.
Postado por: José Luís Peixoto
| 20/11/2008 - 15:39 |
Sempre tudoNunca nada de ninguém, de Luísa Costa Gomes, é um título muito adequado para se falar de absoluta negação. Em literatura, um dos verbos mais evidentes é "ler". Uma das frases que mais me irrita é "hoje já ninguém lê o autor x". De um modo geral, ouve-se esta frase quando o "autor x" se distinguiu de alguma forma e, com o passar do tempo, perdeu essa distinção. O caso mais habitual é o sucesso popular. Dois exemplos dados com frequência são O Noivado do Sepulcro, de Soares de Passos, ou A Velhice do Padre Eterno, de Guerra Junqueiro. Numa pesquisa rápida pelo google, encontram-se dezenas de transcrições completas do primeiro e uma edição em facsimile do segundo no site da Biblioteca Nacional - www.purl.pt. Para leituras que já ninguém faz, estão bastante acessíveis. Outro exemplo muito referido é A Selva, de Ferreira de Castro. Há poucos anos, fez-se uma longa-metragem baseada nesse romance, nas livrarias francesas é muito frequente a tradução desse romance feita por Blaise Cendrars, deve haver poucos alfarrabistas que não tenham exemplares disponíveis de A Selva. Ou muito me engano ou há livros que foram publicados no ano passado e que, hoje, não têm tanta exposição. Avaliar o mundo pelas estatísticas dos nossos amigos é pouco aconselhável, dificilmente será representativo. Além disso, na vida, o absoluto não faz parte dos assuntos humanos. O relativo e o transitório têm sempre muitos lados. Se hoje morreu aquilo que ontem parecia eterno, é bem possível que amanhã renasça aquilo que hoje parece morto. Às vezes alguma coisa de alguém. * Publicado originalmente na revista Time Out Lisboa
Postado por: José Luís Peixoto
| 20/11/2008 - 15:21 |
Efeito secundário (lado B)O acto simples de estender a mão na luz e tocar-te irá coincidir com os meus dedos a transformarem-se em cores, nuvens de pó lançadas no ar. Esse será o primeiro efeito da magia. Chamar-lhe-emos magia por causa das crianças, mas saberemos que, em rigor, será apenas uma ilusão. Talvez seja nesse instante que os lábios começarão a fazer o playback de todo o silêncio, como um beijo antigo, gravado noutro disco. O efeito secundário dessa fotografia, desse postal, desse pôr-do-sol, será um bombardeamento de planos para o futuro, filhos em projecto, iremos escolher mil nomes para menino, mil nomes para menina, iremos perder tempo a pensar nos nomes que daríamos se fôssemos ingleses, americanos, e falássemos em inglês, americano, como as pessoas felizes e garridas dos filmes de domingo à tarde no primeiro canal, ou franceses e chatos, como as pessoas tristes dos filmes de segunda-feira à noite no segundo canal. O primeiro efeito desse instante será um ardor à volta dos lábios ou a repetição da guerra do Vietname, da mesma maneira que um ciclone na China faz uma borboleta bater as asas e pousar-me involuntária entre os olhos, asas como óculos de cor, nuvens de pó lançadas no ar, ou como esperança apregoada nas ruas por multidões indecisas, confusas, incertas, frágeis, feitas de homens humanos, mulheres humanas e crianças- -crianças, futuros homens e futuras mulheres, prontos a repetirem todas as nossas dúvidas e todas as vezes que olhámos o horizonte. E talvez o seu melhor momento seja um espelho estragado, um penteado definitivo ou a constatação humilde de não serem mágicos, mas ilusionistas, donos de um espectáculo honesto, como nós agora a sermos o efeito principal e secundário de tudo o que chega a nós, de tudo o que parte de nós, de tudo o que nos ignora, nos transcende e nos lança pela eternidade a partir do instante simples em que estendo a mão na luz e, simples, te toco.
Postado por: José Luís Peixoto
| 20/11/2008 - 15:10 |
Tradução PeixotãoNENHUMA TU
e nenhuma tu.
duzentas mil mulheres e nenhuma tu.
duzentos milhões de mulheres e nenhuma tu.
dois mil milhões de mulheres e nenhuma tu.
Do livro: Una calle para mi nombre Traduzido a partir do castelhano por J.L.Peixoto
Postado por: José Luís Peixoto
| 18/11/2008 - 14:06 |
Aproxima-te"Como é que te chamas?" Começo por pensar que todas as pessoas são iguais. Talvez por comodidade, talvez por segurança, começo por supor que todas as pessoas, na sua infinita variedade de passados, presentes e futuros, são iguais. É partindo desse pressuposto que digo "nós". Não o "nós" de apenas eu e tu, não o "nós" de país ou língua, mas o "nós" meu, teu e deles, de países e línguas, de todos aqueles que não nos estão a ouvir. E digo: nós temos um mundo no nosso interior. Digo: é fascinante a história de tudo aquilo que fomos, que passou e que nunca foi esquecido porque nunca foi identificado. Sem que nunca tenha sido arquivado de uma forma consistente, catalogado ou sequer registado, acabamos por chamar "caos" ou "alma" a esse mundo. Na fila do supermercado ou numa esplanada, junho, acabamos por chamar-lhe "pensamento". E mesmo durante o instante em que dizemos essa palavra, "pen-sa-men-to", somos assaltados por uma sucessão de frases, sobrepostas às vezes, ou por imagens, ou por melodias, ou por palavras soltas, ou por tudo isto, sobreposto, misturado, em luta ou em harmonia. "Onde é que nos encontrámos antes?" Tiramos fotografias para vermos quando formos mais velhos, para não esquecermos. Nesse mundo que existe por tràs dos olhos é impossível tirar fotografias. É impossível filmá-lo. As palavras são insuficientes porque variam consoante a voz que as canta. As palavras escritas, a verem-nos desde o papel, são muito diferentes daquelas que, dentro de nós, se desfazem. às vezes, são como pássaros mortos na palma da mão. Outras vezes, são como a sua sombra. E, no entanto, escrever é falar para esse interior. Coloca uma ponte entre palavras e palavras, irmãos que se encontram. As palavras escritas no papel atravessam a pele e são despejadas directamente, com um ritmo, nesse mundo sem fronteiras que cada um de nós transporta. São como soldados a saltarem da parte de trás de um camião. Seriam necessárias muitas reticências se conseguíssemos escutar cada pormenor desse interior. É neste ponto que se coloca o problema da atenção. Temos olhos e, quanto à atenção, acontece o mesmo de quando olhamos para a distância e, a partir de certa altura, os contornos fogem dos objectos. Nesse nosso mundo/caos/alma, suponho que exista também uma distância: imagens que passam lá muito longe, por trás destas que passam logo aqui, palavras que passam onde apenas conseguimos ver vultos. "Gosto da cor dos teus olhos." Mergulhar no pensamento pode ser como mergulhar em contos infantis, podemos ser uma espécie de Alice deslumbrada. Podemos também encontrar masmorras e prisões perpétuas. Depende daquilo que procurarmos. Mais incrível do que não termos sempre esta consciência de nós próprios é o tão pouco que temos esta mesma consciência em relação aos outros. Está uma mulher sentada à nossa frente no autocarro, está o nosso pai, estás tu, e não somos sempre capazes de imaginar que, depois do rosto, ou sobre o rosto, invisível, está um choque frontal de palavras, está uma intermitência de frases, está uma imagem fixa, melodia, timbre de voz, etc. Apesar de já ter sido usado neste texto, "pensamento" parece-me um termo desadequado porque implica atenção. Estas palavras e imagens e melodias organizam-se em enxame. Mesmo quando oferecemos a atenção ao mundo, elas continuam lá, dentro de nós como se estivessem à nossa volta. "Posso tocar-te os làbios?" Cada palavra escrita alimenta-se dessas muitas palavras que a formam, cada palavra escrita é uma condensação. Cada palavra dita é feita da organização dessas palavras, mesmo que. Mesmo que, por vezes, se interrompam. "Posso soprar-te os làbios?" É agora que pergunto: o que é a memória? Um sentido poderia defender que as palavras e as coisas que nos constituem seriam viajantes, seguiriam movimentos - um pouco como os cometas, os astros. Desse modo, talvez fosse possível estabelecer um cálculo que pudesse prever cada ideia, palavra, imagem, etc. Seria assim, fácil, não fosse a circunstância de esse mesmo mundo existir com outro, depender dele - aquele que tem árvores, cidades e lugares concretos, aquele que está à nossa volta. Esse mundo que chamamos quando dizemos "mundo" e que, no entanto, é o encontro de todas as nossas solidões. Porque, mesmo que não procuremos palavras, acabamos por desconfiar que a incomunicabilidade absoluta existe, até entre nós e nós próprios. Ainda assim, somos capazes de encontrar muitas justificações para continuar os mesmos equívocos, para sermos incertezas vestidas de fatos, gravatas, ou tailleurs, escolhidos segundo critérios que aprendemos. Construir sistemas foi a parte mais fácil da nossa tarefa. Encontrar nome para os seus significados será outra das partes. Até lá, essas definições permanecerão enterradas por baixo daquilo que apenas podemos suspeitar quando nos detemos perante um horizonte ou perante uma cena de devastação. Olhar dessa maneira é um sentido que pertence às crianças, como a reflexão verdadeira é um sentido que pertence aos anciãos. Por isso, somos crianças paradas no extremo de um miradouro, de um cabo sobre o oceano. Tentamos imaginar o universo. Tentamos imaginar o infinito sem conseguirmos perceber que, no infinito do universo, existe um número infinito de mundos, todos eles infinitos em si, comportando mundos infinitamente. Depois, nos intervalos dessa incapacidade, encontramo-nos e somos funcionais. Cumprimentamo-nos à chegada e despedimo-nos à partida. A civilidade existe para nos guiar mas, ao mesmo tempo, acaba por nos desviar de nós próprios, acaba por dificultar que nos aproximemos de dizer aquilo que é evidente apenas para cada um de nós. Não é difícil concluir que são muito mais as palavras que não podemos dizer do que aquelas que conhecemos. Há fronteiras que ainda não sabemos ultrapassar, que estão connosco, que são nós. "Posso beijar-te?"
Postado por: José Luís Peixoto
| 14/11/2008 - 12:53 |
Tradução PeixotãoA MINHA ESTÂNCIA EM ISTAMBUL
acerca da minha estância em Istambul.
fui com o encargo de uma suspeita missão política.
tratava-se de uma aventura romântica.
chegou a falar-se de tráfico de drogas.
os pés em Istambul não interessa a ninguém.
Do livro: Una calle para mi nombre Traduzido a partir do castelhano por J.L.Peixoto
Postado por: José Luís Peixoto
| 12/11/2008 - 17:35 |
Já revelei as fotografias de Istambul
Não choveu.
No estudio-cozinha, com o apresentador-cozinheiro de um programa de tv.
Postado por: José Luís Peixoto
| 11/11/2008 - 15:16 |
Pai e filhoSou o teu pai. Quando te seguro ao colo, entro no teu olhar, passo-te os dedos pelas faces e sinto que também eu tenho duas semanas porque uma parte de mim nasceu contigo há duas semanas. Agora, enquanto dormes, escrevo-te e imagino que, num instante longe deste instante, chegará um dia em que tu serás grande e segurarás uma folha escrita com estas palavras. Estas palavras são uma corda que une este momento presente e passado a esse momento futuro e presente. Daqui, desta ponta da corda, se der um pequeno puxão nas palavras, tu irás senti-lo aí. Se eu disser verdades, tens duas semanas, és pequenino, eu e a tua mãe amamos-te, tenho a certeza que irás sentir estas verdades aí. No entanto, hoje, aqui, eu não posso saber a maneira como irás sentir estas verdades, estes pequenos puxões, porque eu não sei tudo aquilo que irá acontecer entre este momento e o momento em que serás grande e segurarás uma folha escrita com estas palavras. Seguro numa ponta da corda, mas não sei o seu comprimento, a sua forma ou a sua resistência. Ainda assim, sei, imagino, que estás aí nessa ponta das palavras e quase que tenho vergonha de falar contigo. É difícil escolher palavras para falar com essa pessoa em que te tornaste. Ainda não conheço esse rosto que lê cada palavra deste meu embaraço. Além disso, tenho medo que estas palavras envelheçam mal ou que eu próprio envelheça mal. Talvez encontres aqui adjectivos que deixem de se usar. Talvez comeces a ler estas palavras e talvez, na tua ideia, eu seja alguma coisa que deixou de se usar. Irás olhar para aquilo em que me tornarei e tentarás entender aquilo que quis dizer-te hoje pelos significados que, nessa idade, tiver dado às palavras. Filho, eu tenho trinta anos e sou o teu pai. Tu tens duas semanas, és pequenino, és querido, eu e a tua mãe amamos-te. Quando percebemos que estás feliz, ficamos felizes. Quando choras, ficamos inquietos e não paramos, fazemos tudo, fazemos tudo até ficares feliz de novo. Filho, eu tenho trinta anos, mas sinto que também tenho duas semanas porque uma parte de mim nasceu contigo há duas semanas. Estas são as palavras que quero dizer-te. Os seus significados são simples e não tenho medo de dizer que são puros porque são puros mesmo. No dia em que leres estas palavras, saberás muitas coisas. Eu também já soube muitas coisas. Ser pai não é apenas saber, ser pai é compreender. Por isso, espero que possas reler estas palavras num dia em que sejas pai também. Eu, que sou o teu pai, tive um pai e tive um avô. Tão bem como eu sei que o meu pai era uma pessoa, quando fores pai, saberás que eu, aquele que hoje te escreve e aquele que há duas semanas começou a viver paralelo a ti, sou uma pessoa. De mim, espera amor e espera uma pessoa. Como as pessoas, às vezes, engano-me, não sei respostas, tenho medo, tenho frio, minto, faço coisas feias, desisto, escondo-me e fujo. Eu compreendo que tu irás enganar-te muitas vezes, não saberás respostas, terás medo, terás frio, mentirás, farás coisas feias, desistirás, esconder-te-ás e, quando todos te procurarem, terás fugido. Eu compreendo-te. Segurei-te ao colo, entrei no teu olhar. Foi há menos de uma hora. Passei-te os dedos pelas faces, tentando imaginar a forma como o teu rosto vai crescer. Estas palavras serão o espelho do teu rosto. O teu rosto ficará parado sobre elas. Gostava que soubesses que, hoje, quis tanto ver esse teu rosto que lê. Se puderes, passa agora os dedos pelas tuas faces. Talvez no dia em que leres estas linhas tenhamos deixado crescer entre nós o pudor de nos tocarmos com afecto simples e puro. Pai e filho. Por isso, passa os dedos pelas faces para sentires aquilo que sentiste hoje, duas semanas de vida, pequenino e amado. Ou então, chama-me para junto de ti. Na outra ponta destas palavras, serei outro. Terá passado tempo que, agora, não posso imaginar. Mas, nesse dia, quando chegar a estas palavras que me preparo para deixar agora, assim que olhar para elas, lembrar-me-ei daquilo que é estar a escrevê-las, ter trinta anos e estar a escrever enquanto tu, com duas semanas, estás a dormir. Será como se eu, hoje, fosse também filho desse eu que irá ler estas palavras. O rosto que tenho hoje estará dentro desse rosto que terei da mesma maneira que o teu rosto de criança estará também naquele de quando leres estas palavras. Filho, eu tenho trinta anos e sou o teu pai. Tu tens duas semanas, és pequenino, és querido, eu e a tua mãe amamos-te. Quando percebemos que estás feliz, ficamos felizes. Quando choras, ficamos inquietos e não paramos, fazemos tudo, fazemos tudo até ficares feliz de novo. Filho, eu tenho trinta anos, mas sinto que também tenho duas semanas porque uma parte de mim nasceu contigo há duas semanas. Estas são as palavras que quero dizer-te. Os seus significados são simples e não tenho medo de dizer que são puros porque são puros mesmo. Chama-me para junto de ti. Mostra-me estas palavras que escrevi hoje e pede-me para te passar os dedos pelas faces com o mesmo carinho e com a mesma ternura com que hoje toquei os teus contornos de menino. Tenho a certeza que não terei esquecido. Por mais que aconteça entre hoje e esse dia, por mais mortes e terramotos, tenho a certeza que não terei esquecido. E obriga-me a jurar que nunca deixaremos crescer entre nós um pudor que impeça de nos abraçarmos, de nos beijarmos, de passarmos os dedos pelas faces um do outro. Pai e filho. Eu sou o teu pai. Tu és o meu filho.
Postado por: José Luís Peixoto
| 10/11/2008 - 12:41 |
DesobrigatórioO Dr. Bayard, o Dr. Pierre Bayard, psicanalista e professor de literatura na Universidade Paris VIII, é o autor de Como falar dos livros que não lemos?, publicado em Portugal pela Verso da Kapa (no Brasil pela Objetiva). Grande parte das 160 páginas desta edição são destinadas a responder à pergunta nomeada no título, dando para isso várias sugestões. Segundo o Dr. Bayard, sem precisar de ler uma página e sem levantar suspeitas, podemos falar da capa, das críticas, da editora, do visual do autor ou de outros aspectos que se relacionem mais ou menos com o livro. Se não houver alternativa, se formos mesmo obrigados a falar do livro em concreto, devemos discorrer acerca dos supostos efeitos que a sua suposta leitura teve em nós e, assim, parecendo que estamos a falar do livro, estaremos na realidade a falar de nós, o que não deverá ser difícil. Desta forma, Dr. Bayard faz também a absoluta desresponsabilização daqueles que não leram/lêem. Diz-lhes que não precisam sentir-se culpados. Chega mesmo a enumerar uma boa quantidade de casos ilustres: Paul Valéry, por exemplo, que era capaz de tecer profusos elogios a obras que nunca lera; ou Montaigne que pouco fixava daquilo que lia. O próprio Dr. Bayard assegura que, nas suas aulas, passa horas a falar de livros que apenas folheou. Num tom irónico, o único perigo destas páginas é que, como tantas vezes acontece com as ironias, haverá muita gente que não as distingue como tal. Nenhuma surpresa. Aliás, chego a perguntar-me o que acharia o próprio Dr. Bayard do facto de alguém falar do livro dele sem nunca o ter lido, como acabou de acontecer nestas linhas que aqui terminam.
Postado por: José Luís Peixoto
| 10/11/2008 - 10:35 |
Prá semana almoçamos no Pacheco |
Tradução PeixotãoINTERESSANTE
Do livro: Samuel Johnson is indignant Traduzido por J.L.Peixoto
Postado por: José Luís Peixoto
| 09/11/2008 - 15:33 |
Recado para a minha irmã AlziraMana, amanhã vou para Istambul.
Postado por: José Luís Peixoto
| 05/11/2008 - 17:04 |
Algumas coisas invisíveisOntem, perdi a carteira com todos os meus cartões e documentos. Quero pedir-vos desculpas antecipadas por ter de voltar a escrever sobre a morte. Não é por mal. Não é porque queira perturbar-vos. Às vezes, perguntam-me se não tenho outro tema e chego a pensar que não. Perguntam-me se não me canso. Eu canso-me. Antes do verão, uma senhora disse-me: um escritor vê beleza nos lugares mais difíceis. Eu sorri, cobri a sua frase com silêncio e pensei: não é verdade. Nesta semana que passou, na terça-feira, sentei-me no sofá da casa da minha irmã e estive a ver filmagens antigas. Metade das conversas eram: estás a filmar?, não me filmes, ela está a filmar?, não está a filmar, pois não? Depois, havia minutos longos em que esqueciam a máquina ligada e filmavam o chão: as pedras da rua, os passos mais lentos ou mais rápidos, a respiração. Está a filmar? Isto está a filmar? Havia partes em que estávamos todos juntos, todos mais novos. Entre nós, a falar connosco, a rir connosco, estavam os nossos mortos. A minha sobrinha, que agora se deprime e usa soutiens, era um bebé ao colo de um dos nossos mortos. Eu era um adolescente despenteado e desagradável, com um pullover de lã. A minha mãe raramente se sentava. Como nós, os nossos mortos perguntavam: ela não está a filmar, pois não? E ouvia-se a voz da minha irmã, atrás da máquina, a dizer: olhe para aqui, diga lá qualquer coisa. Cada vez que participo num programa de televisão em directo, tenho vontade de me levantar e de, a completo despropósito, dar uma estalada no apresentador. Não tenho nenhuma espécie de aversão para com qualquer apresentador. Pelo contrário. Normalmente, são pessoas que sabem fazer muito mais expressões faciais do que aquelas que mostram. A corrente que me puxa é a curiosidade acerca daquilo que aconteceria depois. Fazem-me perguntas: quando começou a escrever?, porque escreve?, quais são os autores que mais o influenciaram? Eu respondo devagar, e, por detrás de cada palavra, sinto vontade de levantar-me, ter a completa percepção de todos os meus movimentos e dar-lhes uma estalada. Houve um dia desta semana em que perguntei aos nossos mortos se podia ser insensato. Eles disseram logo que sim. No domingo, quando já começava a anoitecer, passei por uma criança que estava à espera, sozinha, dentro de um carro. Era um rapaz de seis ou sete anos. Estava sentado, muito direito, no banco de trás, e brincava com os dedos. Temo não ser capaz de explicar a opressão que senti no peito. Num instante, fui levado para um passado de há trinta anos atrás. Lembrei-me de ser aquele exacto menino e de não saber se os meus pais voltavam. Posso ir também? Não, espera aí. Por favor, posso ir também? Não, espera aí. O tempo passa de maneira diferente para as crianças. Cinco minutos é muito tempo, dez minutos é muito tempo, meia hora nunca mais acaba. Eu olhei para esse rapaz de seis ou sete anos, mas creio que ele não me viu. Melhor assim. Eu não iria querer um estranho a olhar para mim enquanto me doía o medo de ficar sozinho para sempre. Perguntei aos nossos mortos se podia chorar. Eles disseram que sim, podia chorar o quanto quisesse. Chorei dentro do carro com seis ou sete anos e chorei fora do carro, trinta e quatro anos, atràs de uma árvore, ridiculamente, a fingir que atava um sapato. Quero pedir-vos desculpa por ter chorado. Nestes últimos dias, nesta semana, no supermercado e noutros lugares bem iluminados, tem-me acontecido estar a conversar com a minha mãe ou com a minha sobrinha e, de repente, reparo que estou a falar para uma pessoa qualquer que não conheço e que olha para mim muito admirada. A minha mãe ou a minha sobrinha ficaram lá atrás a ver qualquer coisa e eu fico muito envergonhado por estar a demonstrar tanta familiaridade para uma desconhecida que só de modo remoto poderia ser confundida com a minha mãe ou com a minha sobrinha. Uma vez, só reparei nesse engano quando já ia começar a zangar-me por não me responder. Noutra vez, só reparei quando já estava a abanar-lhe o braço para que visse algum objecto que me parecia importante e que, agora, já não me consigo lembrar do que era. Durante esta semana, várias vezes, também perguntei aos nossos mortos se podia fechar os olhos. Eles disseram que sim, claro que sim. E pediram para não lhes fazer mais perguntas, disseram que a resposta será sempre sim.
Postado por: José Luís Peixoto
| 05/11/2008 - 17:02 |
Tradução PeixotãoINTRODUÇÃO À POESIA Peço-lhes que escolham um poema e que o segurem de encontro à luz como um slide de cores
Digo soltem um rato no poema e vejam-no procurar a saída, ou entrem no quarto do poema e apalpem as paredes em busca do interruptor. Quero que façam esqui aquático na superfície do poema e que acenem ao nome do poeta na margem. Mas tudo o que fazem é amarrar o poema a uma cadeira e torturá-lo até que confesse. Começam por espancá-lo com uma mangueira para averiguar o que realmente significa.
Por Billy Collins Do livro: The apple that astonished Paris Traduzido por J.L.Peixoto
Postado por: José Luís Peixoto
| 04/11/2008 - 13:54 |
Texto sobre mim- Eu entendo bem que tenhas de escrever sobre alguma coisa mas, por favor, não escrevas sobre mim. - Porquê? - Porque prefiro dissolver-me na história do mundo. Um grito que chega ao silêncio, percebes? Um grito que chega ao esquecimento. Quem me conhece, conhece-me. Os outros não existem. Assim, se escreves sobre mim, os outros começam a acreditar que me conhecem também, o que é mentira. No fundo, não quero que escrevas sobre mim porque não quero que pactues com uma mentira. - Só por isso? - Não, claro que não. Ser o objecto da tua escrita não é como ser modelo de um quadro, não é como deixar que captes a minha imagem, não é passar algumas horas imóvel e já está. Ser o objecto da tua escrita é ter a minha biologia alterada, é sentir um ligeiro enjoo, um mau gosto na boca, como se tivesse acabado de acordar e tivesse bebido vodka na noite anterior. Sempre assim, durante dias, durante meses, anos, durante a vida toda, como se tivesse acabado de acordar e tivesse bebido vodka na noite anterior. - Compreendo, mas não concordo. - Não precisas concordar, basta que compreendas. E respeites. - Sempre te respeitei. - Não disse o contrário. - Ah. - Olha, escreve aquela citação do Wittgenstein. - Não me digas o que devo escrever. - Se escreveres sobre mim, estou, de certa forma, a dizer-te o que deves escrever. Ao ser como sou, determino as palavras que vais utilizar. Só poderás usar as palavras que me dizem. Ficarás privado de usar um grande número de palavras que não fazem parte de mim, nem de nada que sejam os meus movimentos, nem de nada que eu toque com a minha acção ou sequer com um pequeno resto da minha identidade. Essas palavras, signos, só poderão ser usadas se não tiveres qualquer compromisso com a verdade ou se fores incompetente. - Para ti, tudo é sempre muito simples. - E é simples, é mesmo simples. Se não tiveres qualquer compromisso com a verdade, não estarás a escrever sobre mim. Mesmo que acredites que estás a escrever sobre mim poderás estar a escrever sobre, por exemplo, um candeeiro. - Mas o que é a verdade? - A verdade é o meu cu. Porque é que fazes perguntas idiotas? - Desculpa. Continua. - Continuando, se fores incompetente, não conseguirás escrever sobre mim. Serás como uma criança a quem pedem para desenhar a mãe. A própria criança se apercebe de que aqueles riscos não são a sua mãe: os lábios dela não são um risco, o nariz dela não é um risco, os olhos dela não são dois pontinhos cegos. Então, a criança culpa-se a si própria e julga-se incompetente, não percebendo que a sua mãe, aquilo que para ela é a sua mãe, é impossível de desenhar. - Então mesmo que eu queira, não posso escrever sobre ti, não consigo, é isso? - Não. Não foi isso que eu disse. Se fosse assim, não te pedia para não o fazeres. Deixava-te andar, chamava-te passarinho e deixava-te andar. - Passarinho? - Ou pardal. Olha, porque é que não usas aquela citação do Wittgenstein? - Qual citação? - Aquela que tens na porta do frigorífico. - Ah. - Se começares com uma citação, ainda por cima do Wittgenstein, verás que é como se já estivesses meio trabalho feito. Os leitores vão considerar que tens um alto nível intelectual e vão querer associar-se a ti, vão querer dizer que já te leram porque vão estar convencidos de que, desse modo, também eles demonstram um alto nível intelectual. Na realidade, nem é necessário que cites o Wittgenstein, basta que refiras o seu nome. Assim: Wittgenstein. É claro que, mais tarde, começarão também a apenas referir o teu nome. Muito poucos te lerão realmente, mas esses poucos serão aqueles que importam: professores universitários, críticos, júris de prémios literários. Mas o teu nome será referido. É isso que importa, não é? - Sim, é isso que importa. - Como vês, não há motivo para escreveres sobre mim. - Enganas-te. Há motivos fortes para escrever sobre ti. - Há? - Há. - Há? - Há. - Quais? - O primeiro motivo é o amor. - Piegas. Não tens nada melhor do que esse sentimentalismo bàsico? - O segundo motivo é que estou grávido de ti. - Como aconteceu isso? Não tivemos nenhum contacto a esse nível e, além do mais, que eu saiba, os homens não engravidam. - Se a lógica explicasse tudo, a felicidade poderia ser calculada. A lógica é sempre o mais fácil, é sempre o caminho mais simples. Infelizmente, o mundo não se compadece com essas invenções. - Mas o que há para além da lógica? - Há o teu medo, toda a extensão do teu medo. E há muito mais. Esse também é um dos motivos pelos quais quero escrever sobre ti. - Explica. - Como tentaste dizer quando falaste sobre o compromisso com a verdade e a incompetência, escrever sobre ti será sempre escrever sobre mim. Definir-te implica, muito antes, definir-me. - Egocêntrico. - Desculpa, não ouvi. Podes repetir? - Egocêntrico. - Chama-me o que quiseres, piegas, egocêntrico, tanto me faz. O mundo não se detém perante os teus medos e as tuas inseguranças. Vou escrever sobre ti porque és o único assunto. - E, no fundo, vais sempre escrever sobre ti, não é? - Sim, no fundo, vou sempre escrever sobre mim. *Publicado originalmente no Jornal de Letras.
Postado por: José Luís Peixoto
| 03/11/2008 - 16:53 |
Blog do José Luís PeixotoBlog do José Luís Peixoto
Postado por: Bravo Online
| 31/10/2008 - 16:20 |