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Blog do José Luís Peixoto

Entre dos tierras

Depois das emoções de Toronto, depois de uma apresentação na Casa do Alentejo de Toronto que estava prevista demorar 1 hora e que demorou 3 (podia ter demorado ainda mais), depois de ter sido obrigado a saltar para cima da mala e a apertá-la com toda a força até, por fim, conseguir correr o fecho, tive direito a uma semana de Lisboa. Muito bom estar em Portugal.

E, mais uma vez, chega a hora de partir. Hoje à noite, o destino será Bucareste. Na madrugada de amanhã, terça-feira, já conhecerei o cheiro da Roménia.

Irei estar por lá durante 3 dias a apresentar este Nici o Privire (Nenhum Olhar):



Traduzido por Clarisa Lima, editado por Polirom (www.polirom.ro)


Além disso, irei participar neste festival:


http://www.filb.ro/program/editia-a-ii-a-2009/


Encontramo-nos lá. Ou aqui.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 26/10/2009 - 07:48
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Uruguai e Canadá

Depois de reveladas as fotografias, aqui vos deixo um pouco do que vi no Uruguai e no Canadá.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 26/10/2009 - 07:32
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Canadá 4

 

Postado por: José Luís Peixoto | 26/10/2009 - 06:37
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Canadá 3

 

Postado por: José Luís Peixoto | 26/10/2009 - 06:36
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Canadá 2

 

Postado por: José Luís Peixoto | 26/10/2009 - 06:35
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Canadá 1

 

Postado por: José Luís Peixoto | 26/10/2009 - 06:34
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Uruguai 5

 

Postado por: José Luís Peixoto | 26/10/2009 - 06:32
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Uruguai 4

 

Postado por: José Luís Peixoto | 26/10/2009 - 06:30
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Uruguai 3

 

Postado por: José Luís Peixoto | 26/10/2009 - 06:28
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Uruguai 2

Foto de Raquel Carinhas. 

 

Postado por: José Luís Peixoto | 26/10/2009 - 06:27
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Uruguai 1

 

Postado por: José Luís Peixoto | 26/10/2009 - 06:25
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Canada

VIAGEM

Mais uma viagem de 8 horas, Madrid–Toronto, depois de uma curta viagem entre Lisboa e Madrid. Há dias, a minha sobrinha mais nova dizia-me que já passei meses dentro de um avião. Deve estar certa, sabe fazer contas. Para mim, estar no avião é como estar na solitária, mas com menos esperança. Vejo as pessoas ansiosas por entrar, primeiro, e ansiosas por sair, depois, e não as compreendo.

Uma boa imagem daquilo que é o desgoverno de certos pormenores da minha vida é o facto de nunca ter acumulado uma única milha. Vou tendo cartões de passageiro frequente e perco-os todos.

TORONTO

São muitas as imagens que recordam os Estados Unidos. Detroit está a cerca de duas centenas de quilómetros, Buffalo também. Após algumas horas de comboio, chegaria a Boston. Ainda assim, é óbvia a identidade de Toronto, é óbvio que não faz parte dos Estados Unidos. Existe uma respiração europeia na cidade, nas pessoas. Talvez sejam os 60% de francófonos do Canadá, talvez seja qualquer coisa que não sei. Aqui, em Toronto, só ouvi francês na televisão. As pessoas dirigem-se umas às outras em inglês e, pelas ruas, falam toda a espécie de línguas indecifráveis (muitas vezes português – de Portugal ou do Brasil). Numa viagem breve de carro, vêem-se restaurantes da Etiópia, da Jamaica, da Coreia, etc, etc, etc.

CASA DO ALENTEJO DE TORONTO

Nesta semana cultural da Casa do Alentejo de Toronto, onde estou a participar, encontra-se amizade muito rapidamente. Essa é obra dos alentejanos e também “daqueles que acompanham os alentejanos” (como ouvi dizer ontem no palco do espectáculo que foi apresentado). Aquilo que me parece evidente é que só pode ser especial uma associação comunitária deste género que, há 25 anos, organiza uma semana cultural como esta, sem música pimba, com artesãos, com exposições de pintura e com escritores, entre outras coisas. Contavam-me ontem que a primeira escritora convidada foi a Agustina Bessa-Luís. Depois, de Saramago, Almeida Faria e muitos outros, é para mim um enorme orgulho estar presente na 25ª semana cultural da Casa do Alentejo de Toronto.

ENTRE A PONTE DE SOR E AVIS

Estava a comer carapaus fritos e arroz de feijão com uns companheiros na casa dos sessentas que pertencem a um grupo de música popular chamado Banza, quando um deles me pergunta:

– Então você é do Alentejo?

– Sou, sim, senhor. – respondo eu.

– Então e é de onde?

Esta é a pergunta que mais ouvi e fiz na Casa do Alentejo de Toronto. Encontrei pessoas de Aljustrel, Castro Verde, Beja, muita gente do Baixo Alentejo. Respondi:

– Sou do Alto Alentejo. De uma terra que fica entre Ponte de Sor e Avis.

– E como é que se chama a terra?

– Sou das Galveias.

Sentimos os dois o mesmo brilho quando percebi que também é das Galveias. Saiu de lá adolescente, mas continua a ser das Galveias. Só de recordar esse momento, volto a emocionar-me: estar em Toronto a falar do Queimado, da Deveza ou do São João.

ENCONTRO COM OS MEUS LIVROS

Infelizmente, estou muito habituado a que as pessoas me digam que não encontram os meus livros em nenhuma livraria.

Se querem ajudar, protestem com as editoras que os publicam, não aceitem que as livrarias digam que estão esgotados. É mentira. Nenhum livro meu está esgotado. Normalmente, as livrarias não têm os livros por dois motivos: ou não os encomendaram ou têm dívidas e as distribuidoras não lhes deixam mais livros enquanto não as pagarem.

Assim, fiquei muito, mesmo muito feliz de encontrar quatro livros meus:

– 1 Cemitério de Pianos a ser vendido na Portuguese Bookstore de Toronto;

– 1 Blank Gaze na livraria Indigo na baixa de Toronto;

– 1 Cemitério de Pianos já lido por uma pessoa que encontrei na Universidade de Toronto (Emanuel);

– 1 Nenhum Olhar a ser lido por uma das hospedeiras do voo Lisboa-Madrid (Rita).

Muito obrigado por lerem esses livros, por tratarem deles, por os adoptarem. Fico feliz por vê-los em boas mãos (com leitores) e também fico feliz por vê-los ansiosos, jovens, à espera de vida (em livrarias). Muito obrigado.

UNIVERSITY OF TORONTO

Falei, falei, falei. Antes, há uns anos atrás, ficava quase sempre com a sensação de ter falado demasiado. Actualmente, fico com essa sensação apenas às vezes. Devo estar a tornar-me mais ponderado (não sei se isso é apenas bom). De qualquer modo, ontem fiquei a sentir que falei demasiado. Tinha muita vontade de mostrar os livros àqueles alunos (e professores, funcionários) e, por isso, quase não lhes deixei tempo para falarem também. A sala tinha de ser utilizada a seguir e houve tempo apenas para uma questão. Para além disso, o campus da Universidade é lindo. No centro da cidade, com o estilo das universidades inglesas, um ambiente incrível.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 16/10/2009 - 15:08
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A minha vida

Não é igual a nenhuma outra.

Eu queria ter escrito sobre as muitas coisas que também aconteceram na viagem ao Uruguai mas, entretanto, cheguei a Lisboa e encontrei aqui uma estação do ano diferente. Perante um vinco deste tamanho entre o passado e o presente, a única possibilidade foi agarrar-me ao presente e deslizar nele. Apesar da quase irrealidade deste tempo, foram dias especialmente intensos, cicatrizes que não vou esquecer.

O futuro chega já daqui a 4 horas quando entrar no avião que me levará a Madrid e, logo depois, a Toronto.

Se aprendi alguma coisa com o adiamento de escrever sobre o Uruguai é que as palavras deste blog me ajudam a manter um fio que, em última análise, é o presente. De certa maneira, são como as migalhas de pão que o menino do conto vai deixando para não perder o caminho de volta a casa.

Assim, fica claro para mim que, aqui no blog, se não utilizar o presente para escrever sobre o presente, depois é apenas cansativo, é uma obrigação e acabo por não o fazer. Apesar disso, fica também claro para mim que, mesmo tendo esta consciência, continuarei a fazer promessas. Essa é a minha maneira. Mesmo que saiba que provavelmente não o vou fazer, no momento em que o prometo, acredito que o vou fazer. 

Assim, nos próximos 5 dias, estarei pelo Canadá. Vou a convite da Casa do Alentejo de Toronto. De novo, uma perspectiva diferente do caleidoscópio.

Estou feliz por sair de Portugal. Espero encontrar uma vida completamente diferente, mais uma, quando regressar na próxima segunda-feira.

Entretanto, o Canadá e, entretanto, as vossas leituras. A promessa: tentarei escrever o quanto me for possível, tentarei afixar algumas fotos. As próximas palavras serão já do outro lado do Atlântico.  

Obrigado por não me deixarem aqui a falar sozinho.

Estamos juntos.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 14/10/2009 - 01:53
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Cansado, mas feliz

Nestes dias de Uruguai, escrevi mentalmente inúmeros posts. No entanto, dia após dia, sempre que estava próximo da internet, estava já demasiado cansado para escolher uma ordem coerente de pousar os dedos sobre o teclado. Por outro lado, quando tinha tempo e energia para aqui escrever algo, não estava perto de computadores ligados à internet.

A calma é uma virtude imensa.

São 2 da manhã. Daqui a poucas horas, terei de acordar e fazer as malas. Depois, Montevideo-Buenos Aires; depois, Buenos Aires-Paris; depois, Paris-Lisboa. Voltarei a dar notícias já no outro lado do Atlântico. Até breve. Agora, vou dormir um pouco. Estou cansado, mas muito feliz.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 07/10/2009 - 01:08
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Uruguai

PRIMEIRAS IMPRESSÕES

14 horas fechado num avião é muito tempo. Sobretudo para quem vai num dos bancos do meio, nem à janela e nem no corredor, com os cotovelos a tentarem uma disputa inglória pelos braços da cadeira. Esta seria toda a história do meu voo entre Paris e Buenos Aires (com a memória de um voo entre Lisboa e Paris, com a perspectiva de um voo entre Buenos Aires e Montevideo), se não fossem as coincidências, o acaso. Ainda no aeroporto Charles De Gaulle, na fila da alfândega, ouço o meu nome. Também a dirigir-se para Buenos Aires, estava a minha linda amiga Lola Arias, autora argentina a viver em Berlim. A conversar de pé no corredor (nenhum dos nossos “vizinhos” estava disposto a mudar de lugar) subtraímos 2 ou 3 horas ao desconforto dessa viagem que, em muitos momentos, pareceu infinita.

Após 4 horas de espera no aeroporto de Buenos Aires e um voo de pouco mais de meia hora, cheguei a Montevideo. Já tinha ouvido falar bastante na cidade e no país. Normalmente, quando as pessoas falam do Uruguai, comparam-no com a Argentina e, normalmente, perde na comparação. Desta maneira, conhecendo bem a beleza invulgar de Buenos Aires, tinha expectativas moderadas em relação a Montevideo. Pelos padrões de Portugal, a capital do Uruguai é uma cidade que aparenta pobreza: muitos edifícios em ruínas, desorganização urbanística, um número considerável de pessoas sem abrigo a vaguear pelas ruas, estradas em mau estado, algum lixo, carros velhos. Se aliarmos este cenário a uma tarde escura, de vento e chuva gelada, temos as primeiras imagens que retive do centro de Montevideo. No dia seguinte, felizmente, chegou o sol e aconteceu algo que mudou tudo: comecei a conhecer alguns uruguaios.

A luz é fundamental, ilumina. Da mesma maneira que o sol procura as cores mais garridas por baixo das paredes mal pintadas, das chapas enferrujadas dos automóveis, também os sorrisos (ainda mais) destacam cores em tudo. Os uruguaios que conheci são invulgarmente simpáticos, a esforçarem-se sempre para que os visitantes (eu) estejam à vontade. Além disso, mesmo a caminharem nas ruas, esquecidos do mundo, distingue-se bondade nos seus rostos. Compreendo o carácter subjectivo (e potencialmente naif) desta afirmação, mas é sincera, é a que melhor encontro para explicar o que tenho visto por aqui. E ainda bem que se existem esses sorrisos, esses olhares ternos (verdadeiramente ternos) porque amenizam bastante o ambiente geral. Com graça e pertinência, um europeu que vive há alguns anos no Uruguai, contava-me que se costuma dizer o seguinte: “Buenos Aires é como Paris há 40 anos atrás. Assunción, no Paraguai, é como Madrid há 40 anos atrás. Montevideo é como Montevideo há 40 anos atrás.”

FEIRA DO LIVRO DE SAN JOSÉ

Já com o tempo a reflectir a Primavera que por aqui começa, parti para San José, a cento e qualquer coisa quilómetros da capital.

O Uruguai tem cerca de um terço da população portuguesa e tem um território que é cerca do dobro de Portugal. Praticamente metade da população vive na capital e arredores. As outras cidades são bastante menores e o interior está povoado, essencialmente pelas grandes, imensas extensões de gado.

San José tem cerca de 40 mil habitantes. A chegada é feita por um cenário de ruas não pavimentadas e casas com aspecto clandestino. A feira do livro acontece no centro da cidade, na praça central, em alguns edifícios e tendas, estando a parte mais substancial da mesma situada no Club Social – uma espécie de associação recreativa, bem à portuguesa, com mesas de bilhar, jogos de futebol na televisão (o Uruguai jogou contra o Gana em sub 21), etc. Nesse lugar, existem talvez umas dez bancas com livros. As edições em exposição são muito diversas: desde os livros publicados pelas grandes editoras espanholas até aos livros com formato de caderno, capas moles e impressão a lembrar o antigo stencil. Por todos os espaços, centenas de crianças. Desde os 3/4 anos, agarrados a uma corda comum, para não se perderem, até adolescentes agarrados uns aos outros. Se o valor dos livros varia com a avidez com que são procurados, os livros da Feira de São José são muito, muito valiosos. Os alunos passavam em multidões, vestidos com batas brancas iguais às dos enfermeiros, com fitas de várias cores a formarem laços, a quererem ver tudo.

O MEU LIVRO

Meia hora antes da apresentação, vi o meu livro pela primeira vez.

“Historias de Nuestra Casa” foi o título que encontrei para esta edição que junta os contos de “Cal” com “Morreste-me”.

Para mim, o momento em que vejo um livro meu pela primeira vez, mesmo que seja uma tradução, é muito comovente. Neste caso, foi ainda mais tocante porque, lá dentro, no “Morreste-me”, está o nome do meu querido pai e, no “Cal”, estão os nomes dos meus queridos padrinhos e avó. Além disso, estão aquelas palavras, que, neste caso, ganham a pronúncia do espanhol uruguaio; está toda uma promessa de futuro e de vida que me transcende largamente e que, no entanto, em alguma medida, partiu de mim.

Claramente sob o efeito dessa emoção, falei um pouco desses livros para uma sala com cerca de 80/100 pessoas, maioritariamente adolescentes. Foi espontâneo, natural e lindo. Sou um privilegiado por me ser dada a oportunidade de viver momentos como esse que aconteceu no final da tarde de ontem.

Os uruguaios são muito físicos. Eu também. Os homens cumprimentam-se com beijos e, no fim da apresentação de “Historias de Nuestra Casa”, houve vários que vieram beijar-me. Nenhum saiu sem ser beijado de volta.

Em especial, houve uma mulher de 86 anos que me quis dar um beijo e um abraço, que me quis dizer algumas palavras que não esqueço. Se tiverem oportunidade, aconselho-vos a abraçarem a sério pessoas dessa faixa etária. Somos seres humanos.

MARINA COLASANTI

Entre o público da apresentação, estava a escritora brasileira e doce amiga Marina Colasanti. Desde que nos conhecemos na Ilha da Madeira, há uns 7 ou 8 anos, temo-nos cruzado nos lugares mais insuspeitos deste globo. Não vai ser nestas linhas que vou conseguir exprimir a admiração e o carinho que sinto por esta mulher que nasceu, imagine-se, na Etiópia (algum dia teremos de nos encontrar também por lá...), mas queria referir esse olhar brilhante que, ontem, para mim, acrescentou felicidade à felicidade.

JANTAR PORTUGUÊS

A noite, terminou com rissóis de camarão e bacalhau com natas. Alunos de hotelaria de San José deslocaram-se a Montevideo para aprenderem com a cozinheira da residência da embaixadora de Portugal no Uruguai.

Acho que sim. Não sou um especialista em bacalhau, mas se tivesse de avaliá-los, passavam todos. Ainda assim, a surpresa dessa noite portuguesa (para mim) foi o acompanhamento musical. Andres Stagnaro é um uruguaio, apaixonado pela poesia e pelos cantautores portugueses. Com a sua viola, ofereceu aos presentes temas do seu último CD, no qual canta poetas portugueses em espanhol e poetas uruguaios em português.

Esteve em Portugal há um mês a dar alguns concertos e pretende regressar em Abril próximo para voltar a tocar onde o quiserem receber. Se, por acaso, tiverem interesse de contactá-lo para uma actuação, deixem expresso o vosso interesse e um email na caixa de comentários.

E nós, portugueses, ficamos sempre surpreendidos por estas pessoas que gostam de nós. Não pedem nada em troca e gostam de nós. E logo de nós que, tantas vezes, quase sempre, não conseguimos gostar de nós próprios.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 03/10/2009 - 12:47
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Historias de Nuestra Casa

No próximo post que aqui escrever, estarei já no Uruguai a participar em várias actividades ligadas à promoção de "Historias de nuestra casa".

Esta será uma edição exclusiva para o Uruguai e Argentina e reunirá num só volume o livro Morreste-me (Te me moriste) e os contos do livro Cal.

Entre os compromissos que já estão confirmados, terei conversas, leituras e autógrafos na Feira do Livro de San José nos dias 2 e 3 de Outubro (clicar aqui para saber mais). Depois, já em Montevideo, terei conversas com turmas de alunos de letras da Universidad de Montevideo. No dia 6 de Outubro, às 19:30, estarei no Centro Cultural de Espanha a ter uma conversa pública com o jornalista Daniel Viglione do "El Observador". 

Para além disto, haverá entrevistas com órgãos da imprensa uruguaia.


"Historias de nuestra casa" é publicado pela HUM (clicar aqui para entrar no site) 


Para além do Uruguai, Outubro será um mês de vários lançamentos internacionais para mim (Canadá, Roménia, Brasil). Dependendo da qualidade das ligações à internet que encontrar, tentarei sempre passar por aqui e deixar-vos as minhas impressões. Até breve, espero.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 28/09/2009 - 14:06
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As Alziras

 No momento em que escrevo estas palavras, a minha irmã mais velha está internada num hospital na Eslováquia. A minha irmã chama-se Alzira Maria.

A primeira Alzira foi a minha madrinha: madrinha da minha mãe, das minhas irmãs, de mim, madrinha de toda a gente. Sempre velha, de muletas, afastava-se pouco da porta de casa. As muletas oblíquas ao chão de paralelos; ao andar, ela inclinava-se sobre as muletas e, depois do entardecer, a sua imagem era uma sombra confusa, pernas e braços. Hoje, quando encontro uma das suas poucas fotografias e lhe fixo o olhar, concluo que sei pouco sobre ela. Recordar faz com que desbotem as cores daquilo que se recorda, recordo a sua voz. A minha madrinha passou a lua de mel a banhos, Estoril, Cascais, tirou um retrato na Boca do Inferno. Ah, as ilusões de uma jovem noiva nos anos trinta. Há chávenas que a minha madrinha guardou desde esse tempo. Passaram décadas expostas na vitrina de um armário da sala de jantar, varrida, arrumada, onde ninguém podia ir porque era no primeiro andar e tinham medo que o chão/tecto caísse. A minha madrinha criou a minha mãe. Morreu no dia 16 de Outubro de 1993.

A segunda Alzira é a minha mãe. A minha mãe é uma espécie de sol, ou de morte, é o horizonte, esse é o tamanho da sua realidade. Eu não sou capaz de descrever a minha mãe em poucas linhas. Outro poderia fazê-lo, mas duvido que o fizesse bem. Quando eu era pequeno, houve uma vez em que me perdi dela. De repente, deixei de vê-la e estava numa cidade que não conhecia. Lembro-me de mulheres a baixarem-se para falar comigo, tinha quatro ou cinco anos, e lembro-me de acreditar que poderia não voltar a vê-la; lembro-me de ter essa idade, estar perdido e sentir essa angústia negra. A minha mãe é o contrário disso. A minha mãe existe em tudo, é infinita.

A terceira Alzira é a minha irmã mais velha que, no momento em que escrevo estas palavras, está internada num hospital na Eslováquia.

Alzira é um nome tão bonito. É de origem árabe. Pelo menos, parece. É um nome cheio de vogais, bom para ser cantado pelo Nat King Cole. Sou da opinião de que, em Portugal, há um deficit incompreensível de Alziras. Poucos pretextos são tão bons para usar um “z”.

Todos os anos, na segunda-feira de Páscoa, fazíamos um piquenique na courela dos meus padrinhos, as Alziras juntavam-se. É claro que, na altura, não as víamos assim, as Alziras; na altura, eram a minha madrinha, a minha mãe e a minha irmã. A minha mãe tinha mantas dobradas e coisas simples que precisavam de ser carregadas na carrinha do meu pai. O caminho até à courela não era longo mas era uma viagem. Chegávamos, ficávamos sempre debaixo da mesma árvore, e o meu pai voltava atrás para ir buscar os meus padrinhos. Talheres, caixas de plástico com comida. Não sei que tipo de conversas tinham a minha mãe e a minha madrinha. Talvez a minha irmã tentasse sintonizar alguma estação no rádio do carro. Talvez eu me aproximasse das colmeias, lá em cima, com um pau/espada nas mãos. Tanto faz. Nessas segundas-feiras, as Alziras brilhavam. Sem o saberem, cada uma delas tinha o nome de um anjo.

Pois é, a minha irmã está internada num hospital na Eslováquia. Foi acompanhar a filha, minha sobrinha, a um encontro internacional de dança, sentiu dores na barriga, ambulância, urgências, foi operada no dia seguinte a uma hérnia umbilical. Está a recuperar. Correu tudo bem. Recebeu sangue por causa de uma anemia. Agora, a preocupação é a viagem de volta. Tento imaginar aquela rapariga dos piqueniques da segunda-feira de Páscoa num hospital na Eslováquia, ecos de conversas em eslovaco, talvez a chegada de alguém com um comprimido ou um tabuleiro. E a dor, como um cenário atrás do cenário. Talvez nesse quarto exista um relógio, o ponteiro dos segundos. A minha irmã Alzira Maria. Há muitas coisas que vou perguntar-lhe quando regressar, quero que me conte pormenores: o silêncio, a maneira como as enfermeiras eslovacas pronunciam Alzira.




(PS: este texto foi escrito já há alguns meses. Agora, felizmente, a minha irmã está bem e em casa dela.)

 

Postado por: José Luís Peixoto | 17/09/2009 - 13:01
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Entretanto, em Varsóvia

Desde o passado dia 15 de Setembro, este excerto tem feito parte de uma iniciativa do metro de Varsóvia que pretende dar a conhecer poetas e poesias. O poema em questão foi publicado originalmente no livro "Gaveta de Papéis" e aqui fica na totalidade:

Gruas no cais descarregam mercadorias e eu amo-te.
Homens isolados caminham nas avenidas e eu amo-te.
Silêncios eléctricos faíscam dentro das máquinas e eu amo-te.
Destruição contra o caos, destruição contra o caos, e eu amo-te.
Reflexos de corpos desfiguram-se nas montras e eu amo-te.
Envelhecem anos no esquecimento dos armazéns e eu amo-te.
Toda a cidade se destina à noite e eu amo-te.


E, já agora, se tiverem amigos na Polónia, falem-lhes de um livro que se chama "Puste spojrzenie". Muito agradecido.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 17/09/2009 - 12:44
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Brasil

Esta é a capa da edição brasileira do romance "Uma Casa na Escuridão". Será publicado pela Record e chegará às livrarias de todo o Brasil no próximo mês de Outubro. Originalmente, este foi o meu segundo romance (publicado em Portugal em 2002). No Brasil, depois de "Nenhum Olhar" e de "Cemitério de Pianos", será o meu terceiro romance. Espero que possam lê-lo.

Em Novembro, irei apresentá-lo pessoalmente aos leitores brasileiros. Para já, está confirmada a minha presença na FLIPORTO - Festa Internacional de Porto de Galinhas. Ainda não está marcada a hora da minha participação, mas deverá acontecer entre 5 e 8 de Novembro. Mais informações sobre a FLIPORTO aqui:

http://www.fliporto.net/

 

Postado por: José Luís Peixoto | 08/09/2009 - 11:06
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Desistir

Uma única vida é pouco. O rosto é demasiado rápido a mudar nas fotografias. As crianças imaginam tantas coisas acerca do mundo e, mais tarde, percebem que não conseguiram imaginar aquilo que era mais importante. Ainda crianças e já quase adultos, ainda levados por miragens e, no entanto, com a certeza absoluta de que não acreditam em nada, surpreendem-se com os braços que cresceram no espelho, com os truques que são capazes de fazer de olhos fechados, com os cigarros que começam a arder-lhes na ponta dos dedos e, arrogantes ingénuos, desejam que o tempo passe mais depressa, desejam que os anos passem mais depressa. Depois, a idade não conta. A idade não conta, mas um dia têm trinta anos, têm quarenta anos, um dia têm cinquenta anos. Os números deixam de ser números. Então, esqueceram tantas coisas e, no entanto, têm a certeza absoluta de que sabem tudo. Ridículos. Entretanto, apaixonaram-se e desapaixonaram-se; saltaram por cima de momentos que foram como abismos; existiu a casa; existiram todos os objectos da casa, divididos e arrumados em caixas de papelão; existiu a mágoa como se fosse o mundo inteiro, não era; existiram as pessoas que morreram mesmo ao lado, que pareciam eternas e que, devagar ou num instante, foram esquecidas, fácil; existiram as pessoas que estavam mesmo ao lado e que receberam telefonemas para comunicar-lhes que a mãe tinha morrido num hospital; e repetiram a vida continua, a vida continua; e o verão e o verão e o outono, a primavera, tão bom, e o verão, o outono, e o inverno e o inverno. Um dia, acordam e o passado não é suficiente sequer para lhes encher a palma de uma mão.

E convencem-se de uma mentira diferente todas as manhãs para obrigarem o corpo a fazer cada movimento e, apesar disso, acreditam nessa mentira exactamente como se fosse verdade, excepto às vezes. E estão cansados da mulher que, cansada, os olha ao serão e que, apesar disso, os enternece quando se debruça sobre o lavatório da casa de banho, com toalhas pelos ombros, para pintar o cabelo. Pode então haver um momento em que o mundo pára. A idade pára. É nesse instante que se pode pensar: nunca quis ser aquilo em que me tornei, quis sempre não ser aquilo em que me tornei. Com o mundo completamente parado, com a idade parada, não é difícil parar também e, rodeados de fragmentos: uma existência inteira feita de vidro estilhaçado e espalhado no chão: o mais natural é baixarmo-nos sobre os calcanhares, pousar os cotovelos sobre os joelhos dobrados e, com cuidado, esticar as mãos para, com a ponta dos dedos, se começar a escolher cada fragmento, distinguir o que se deve abandonar do que se deve manter. Desistir não é sempre mau. Há vezes em que não se pode evitar. Todos nos dizem continua, continua, mas é o mundo que desiste, inteiro, à nossa volta.

Uma única vida é pouco. Para se fazer aquilo que se sabe e se pode e se quer e se deve fazer é preciso deixar muitas outras coisas para trás. Essa é a conclusão a que se chega logo no fim da adolescência. Quando os números deixam de ser números. Trinta, quarenta, cinquenta anos. As gerações sucedem-se. Os degraus de uma escada rolante que desaparecem lá em cima enquanto subimos, subimos, olhamos para trás e ainda vemos o primeiro degrau, quase como quando tínhamos acabado de chegar e, no entanto, continuamos a subir e vemos já o fim. Os nossos avós mortos, os nossos pais mortos, nós, os nossos filhos, os nossos netos. E, se existir um horizonte, podemos olhá-lo e perceber finalmente que estamos parados no tempo e que o tempo, nesse presente definitivo, está parado dentro de nós.

Eu olho para esse horizonte, arrependo-me e não me arrependo, tento compreender ou lembrar-me daquilo que quero mesmo. Depois, penso em tudo aquilo que posso fazer para que aconteça: os gestos e as palavras. Depois, hoje é um dia mais forte e, de repente, imenso. Depois, penso em tudo aquilo de que terei de desistir para alcançar o que quero: para ser o que desejo ser. Então, não fico triste. Aceito tudo aquilo que nunca fiz e que acredito que nunca terei vida suficiente para fazer. Num dia, avisado ou sem aviso, morrerei. Estas mãos serão nada. Este rosto será nada. Uma única vida é pouco. Aceito essa certeza sem que ninguém me pergunte se estou disposto a aceitá-la. É então que me convenço finalmente que nunca serei campeão de xadrez, nunca registarei uma patente, nunca conduzirei uma Harley Davidson, nunca invadirei um pequeno país, nunca venderei relógios roubados aos transeuntes da rua Augusta, nunca serei protagonista de um filme de Hollywood, nunca escalarei o monte Evarest, nunca farei uma colcha de renda, nunca apresentarei um concurso de televisão, nunca farei uma neurocirurgia, nunca ganharei a lotaria, nunca casarei com uma princesa, nunca ficarei viúvo de uma princesa, nunca me mudarei para Detroit, nunca farei voto de silêncio, nunca tocarei harpa, nunca serei o empregado do mês, nunca descobrirei a cura para o cancro, nunca beijarei os meus próprios lábios, nunca construirei uma catedral, nunca velejarei sozinho à volta do mundo, nunca decorarei uma enciclopédia, nunca despoletarei uma avalanche, nunca apresentarei cálculos que contradigam Einstein, nunca ganharei um óscar, nunca atravessarei o Canal da Mancha a nado, nunca participarei nos jogos olímpicos, nunca esfaquearei alguém, nunca irei à lua, nunca guardarei um rebanho de ovelhas nos Alpes, nunca conhecerei os meus tetranetos, nunca repararei a avaria de um avião, nunca trocarei de pele, nunca bombardearei uma cidade, nunca serei fluente em finlandês, nunca comporei uma sinfonia, nunca viverei numa ilha deserta, nunca compreenderei Hitler, nunca exibirei um quadro no Louvre, nunca assaltarei um banco, nunca darei um salto mortal no trapézio, nunca atravessarei a Europa de bicicleta, nunca lapidarei um diamante, nunca farei patinagem artística, nunca salvarei o mundo. Ainda assim, além de tudo isto, há o universo inteiro.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 25/08/2009 - 11:18
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Brothers of Metal

O festival Vagos Openair é já no próximo fim-de-semana. Fui convidado para pôr música (acho que não foi convidado mais nenhum escritor :) ). Infelizmente, aquilo que tenho para fazer neste momento (nomeadamente o romance de que já aqui falámos) não me permite a deslocação à Lagoa de Calvão. No próximo ano, espero não faltar e estar lá a dar força.

Por enquanto, desde a minha cabine de dj virtual, deixo-vos os portugueses Desire, com Dark Angel Bird, a primeira escolha de uma setlist adiada, uma das bandas sonoras que mais me inspira e faz sentir estes dias de escrita intensiva.

Quem não tiver medo do escuro, feche os olhos e escute. Vamos fingir juntos que estamos no palco do Vagos Openair.

Parte 1 - http://www.youtube.com/watch?v=KvaRxpZfQOA

Parte 2 - http://www.youtube.com/watch?v=gfLw0O0zEOo

 

Postado por: José Luís Peixoto | 06/08/2009 - 09:18
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Traição

 

Hoje é dia 21 de outubro de 2008. Estou a beber chá.

O meu marido anda lá fora, no quintal. Na paisagem imóvel da janela, uma brisa ligeira nas folhas mais altas, vejo-o às vezes. Furtivo, o meu marido passa com a pá, ou o ancinho, ou a mangueira, ou a tesoura de podar. Na nossa casa, os catálogos de jardinagem terminam sempre como leitura de casa de banho. O meu marido anda de botas e chapéu. Não há sol, mas aquele é o chapéu da jardinagem. Também as calças dobradas na canela e as botas. Agradeço a Deus pela jardinagem. Obrigado, Senhor, pela jardinagem. O meu marido precisa de distracções. Não lhe chega a televisão, adormece. O meu marido é doente cardíaco. O vidro da janela é grosso e eu ouço mal. Ouço bem um apito fininho, constante, branco, uma linha, ouço mal tudo o resto. O vidro da janela, eu ouço mal, mas sei que o meu marido está a assobiar. As pequenas plantas fazem-no feliz.

Actualmente, o meu clitóris não é mais sensível do que qualquer outra parte do meu corpo. É feito de pele, como os meus ombros, cotovelos, joelhos. Creio que endureceu. Ainda é de tarde, são quase cinco horas, mas já se sente o início da noite. Aqui, nos arredores de Reggensburg, há pássaros que só aparecem a esta hora. Não sei porquê, alguém deve saber. São pássaros pequenos que fazem barulho. No passado, o meu clitóris deu-me grandes alegrias. Marcou o meu epicentro. Sou uma mulher, não deixei de ser uma mulher, mas agora tenho outros interesses. Não sei ainda quais são. Talvez a mágoa. Talvez a mágoa seja agora um dos meus interesses. Presto bastante atenção à mágoa, é certo. Neste verão que terminou, parecia-me que a mágoa tinha um cheiro entre os primeiros instantes de cada dia, uma nesga de luz matinal na janela do quarto. O meu marido na cozinha, acordado há horas, as chávenas a chocarem umas nas outras, e eu a decidir se estava acordada, se era outra manhã, se queria outra manhã, acordar, e a parecer-me que a mágoa tinha um cheiro. O meu marido nunca se apercebeu. O meu marido esqueceu-se de tocar-me há talvez quinze, dezasseis anos, nunca mais se lembrou. Em fevereiro, faço setenta anos. Esta parte do ano, outubro, ficou sempre ligada na minha cabeça aos outubros de quando era adolescente e ia para a escola. Na minha imagem mental dos meses, agora parece maio. Há cinco meses, em maio, eu ainda estava chocada. Ontem, ao lavar-me, passei a mão pelo clitóris e, instintivamente, admirei-me. Por instantes, pensei que pudesse ser uma verruga, um sinal, um caroço.

Os arredores de Reggensburg têm asseio, os muros estão sempre acabados de pintar. Temos vizinhos a boa distância. Gosto do vento, mesmo daquele vento frio a meio do inverno. Reggensburg fica a cerca de 225 quilómetros de Amstetten. Nunca fiz essa viagem, nem para um lado e nem para o outro. Quando saímos de Amstetten, fomos viver para Dortmund, ficámos lá dez anos. Depois, fomos para Weimar, ficámos lá dois anos, até o meu marido se reformar. Podíamos ter procurado casa em qualquer lado. O meu marido insistiu na Baviera porque ficava perto da Áustria, acabamos por concordar com Reggensburg. Quando pede alguma coisa, o meu marido gagueja. Às vezes dizia: Amstetetetetetten. Sozinho, planeava fins-de-semana em Amstetten. Dizia: vivemos cinco dos nossos melhores anos naquela cidade, porque não queres voltar? Eu começava por negar que não quisesse voltar. Depois, inventava desculpas sem tentar sequer fazer sentido. Não sei o que ele pensava de mim. Até podemos ficar no teu hotel, dizia o meu marido, sem saber o que dizia. Literatura. Adorava que o meu marido gostasse de ler. Tenho a certeza de que adoraria os russos: Tolstoi, Dostoievski, Gogol. Ah, Gogol. Quando quis trabalhar, o meu marido conseguiu-me uma posição a gerir uma pousada quase no centro de Amstetten. Após uma semana de serviço, meados de setembro, o Josef possuiu-me na cama dupla do quarto 28.

Sempre usámos este verbo um pouco antigo, talvez um pouco livresco, século XIX. Quando o Josef começava a rosnar, eu dizia-lhe: possui-me, possui-me. Tenho de falar dos seus olhos azuis. Os olhos azuis do Josef brilhavam, seriam suficientes para iluminar uma sala. Não estou a exagerar. Ou talvez só um pouco. Quando o Josef me sorriu, me tratou por menina, quando me apontou o olhar cheio de entoações, desfiz-me invisivelmente. A partir daí, tratou-se de seguir um sentido. Às vezes, quando deixávamos cair a cabeça sobre as almofadas da cama, eu ficava a fazer-lhe festas no pequeno bigode colado aos lábios. Não era ridículo. Eu sorria, enquanto a nossa respiração abrandava ao mesmo tempo. Depois, ele olhava para mim e sorria também. O Josef sabia sorrir. À noite, o meu marido contava-me todos os pormenores da vida dos seus colegas, mas eu não o ouvia. O Josef gostava de sexo de pé. Eu inclinava-me na direcção da janela e ele ficava por trás, apreciava a paisagem. Em certos assuntos, muitos, eu considerava o Josef um poeta. Amstetten era uma cidade sem sobressaltos, as campainhas das bicicletas, as estações do ano nos dias certos. O Josef tinha umas pernas firmes, que eu gostava de apertar no interior das minhas.

Quando estava bom tempo, aos sábados, o meu marido e eu fazíamos piqueniques. O Josef tinha cinquenta e oito anos, mais quatro do que eu, e bastava que me tocasse com um dedo. Se nos cruzávamos na rua, eu tremia. Ninguém podia suspeitar. Ele sorria sem olhar para mim. Uma vez, estava num restaurante, e o meu marido perguntou-me: estás com frio? Era o Josef. Quando ganhei coragem para olhar melhor, não era o Josef, não era sequer parecido, mas tremi, não consegui controlar-me. Quando o Josef punha a cabeça no meio das minhas pernas, eu fazia-lhe festas no cabelo. Havia semanas em que nos víamos duas vezes, três vezes, havia semanas em que não nos víamos. Dependia de muitos factores. Conheci o Josef quando tive aulas de dança, salsa. Estive em três aulas. Depois de conhecê-lo, desisti. Deixei de ter tempo. Precisava de todos os instantes para pensar nele.

O meu marido estava muito triste na noite em que me contou que tínhamos de partir para Dortmund. Eu disse-lhe algumas frases inacabadas, palavras incompletas. O meu marido disse: pois é. O meu marido nasceu na Saxónia, a meia dúzia de quilómetros de Dresden e, no entanto, já tinha adoptado um sotaque austríaco. Artificial, enjoativo, mas sentido. O meu marido é obediente. O Josef tinha verdadeiro sotaque austríaco, claro. Os seus érres davam-me tesão. Durante anos, eu corava só de lembrar-me dos seus érres. Nessa noite, o meu marido tinha a cabeça entre as mãos, a realidade. Eu não podia fazer outra coisa. Desde esse dia, até à partida, eu e o Josef comemo-nos como animais, como lobos, em todas as camas da pousada. Engolimo-nos. Em Dortmund, eu sonhava com ele. No duche. Em Weimar, comecei a conformar-me. Em Weimar, tivemos uma cadela, Lassie. O meu marido apareceu com ela pequenina, quando chegámos. Morreu uma semana antes de partirmos para Reggensburg, bem-educada. Conformei-me que não voltaria a ver o Josef. Por isso, nunca quis voltar a Amstetten. O Josef era um segredo para sempre. Havia momentos em que me parecia que só tinha existido na minha imaginação, mas isso é algo que me acontece com todo o passado. Há momentos em que me parece claramente que algum detalhe do passado, a minha mãe, sexo oral quando namorava com o meu marido, sopa de abóbora, só existiu na minha imaginação.

Eu não tinha qualquer fotografia do Josef. Mesmo já em Reggensburg, havia vezes em que me sentava no sofá, de braços cruzados, a esforçar-me para recordar o seu rosto. Quando não conseguia, ia à cozinha e fazia panquecas. Era uma espécie de compensação e, ao mesmo tempo, um hábito. Depois, noutros dias, via-o em tudo. Havia um calor. O rosto dele era como uma chama. Tentei aprender a bordar. Via o rosto dele nos novelos de linha, no pano esticado. Foi talvez por isso que, quando apareceu a imagem dele na televisão, não me admirei logo. Acho que não gerei sequer um pensamento, não reagi. Analisando, reconheço agora que a ordem dos meus instintos perante a sua imagem seria não verbalizar. Foi com alguns segundos de atraso que me apercebi que o Josef, o Josef, o meu Josef, estava na televisão. Não sei qual foi o meu aspecto. Perdeu-se para sempre a imagem do meu rosto porque estava sozinha, não estava ao espelho, estava em brasa, a ouvir. Eu não queria acreditar. Foi em abril. Quando acordo a meio da noite com pesadelos, acredito por instantes que posso sentir-me aliviada, que não é real, mas depois, acordada, o pesadelo é ainda mais intenso porque é real. O Josef punha a língua toda dentro da minha boca. Abril, abril, quando desliguei a televisão, cambaleei pela sala. Agarrei-me a móveis para não cair. E pensei: não. Pensei: não. Até cheguei a sorrir. Não pode ser. Em roupão, tirei o carro da garagem e fui comprar revistas e jornais. Nenhum tinha a notícia. Liguei o rádio do carro e não falavam de outra coisa. No dia seguinte, todos os jornais tinham a notícia.

O Josef tinha mantido a filha presa na cave durante vinte e quatro anos. Tinha-a violado repetidamente e tinha tido sete filhos com ela, um dos quais morreu. Na televisão e no rádio, chamavam-lhes filhos-netos. A filha do Josef e alguns dos seus filhos-netos viviam na cave. Um deles, uma rapariga com dezanove anos, nunca tinha visto o sol. Eu era obrigada a ouvir o meu marido comentar esta história e a repetir: em Amstetten, quem diria em Amstetten, e nós lá, quem diria. E perguntava-me se eu conhecia aquela rua. Eu respondia. Já me tinha perdido naquela parte da cidade. Este ano, em abril, choveu muito pouco. Tenho saudades de quando chovia em abril. Eu fixava a imagem do Josef na televisão e acreditava que os seus olhos líquidos me viam. Não tinham envelhecido. Eram os mesmos. Os lábios eram os mesmos. O Josef traiu o nosso segredo com o seu próprio segredo. Mas, agora, o seu segredo já não existe, toda a gente o conhece. Agora, só existe o nosso.


(Este conto foi anteriormente publicado na edição de papel da Bravo! e na antologia portuguesa "O Segredo".)

 

Postado por: José Luís Peixoto | 30/07/2009 - 09:39
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Memória

Passam hoje 97 anos sobre o dia em que Francisco Lázaro morreu.


à procura, procura do vento. Porque a minha vontade tem o tamanho de uma lei da terra. Porque a minha força determina a passagem do tempo. Eu quero. Eu sou capaz de lançar um grito para dentro de mim, que arranca árvores pelas raízes, que explode veias em todos os corpos, que trespassa o mundo. Eu sou capaz de correr através desse grito, à sua velocidade, contra tudo o que se lança para deter-me, contra tudo o que se levanta no meu caminho, contra mim próprio. Eu quero. Eu sou capaz de expulsar o sol da minha pele, de vencê-lo mais uma vez e sempre. Porque a minha vontade me regenera, faz-me nascer, renascer. Porque a minha força é imortal.

In Cemitério de Pianos

 

Postado por: José Luís Peixoto | 15/07/2009 - 12:11
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Conversa com o André

 
– André, deixa os brinquedos. Está na hora de ires dormir.

– Porquê, pai?

– Porque já é tarde. Olha, são quase onze horas da noite e já não são horas de os meninos de três anos estarem acordados.

– Porquê, pai?

– Porque os meninos, e todas as pessoas, têm de descansar. Depois de andarem todo o dia a correr e a brincar e a fazer coisas, têm de descansar. Além disso, amanhã, tens de acordar pronto para mais um dia. Amanhã, vai ser um dia mesmo bom, vais brincar mais, vais passear, vais ver muitas coisas novas.

– Porquê, pai?

– Porque é assim todos os dias. Cada dia traz sempre muitas coisas novas. Agora, neste momento, não sabemos ainda tudo aquilo que vamos ver, mas tenho a certeza de que vai ser assim. Amanhã, vais aprender palavras novas e, quando voltar a ser hora de ir dormir, já vais ser um menino mais crescido, a saber coisas que agora ainda não sabes. Vai ser assim todos os dias, todos os dias.

– Porquê, pai?

– Porque cada dia é sempre diferente dos outros, mesmo quando se faz aquilo que já se fez. Porque nós somos sempre diferentes todos os dias, estamos sempre a crescer e a saber cada vez mais, mesmo quando percebemos que aquilo em que acreditávamos não era certo e nos parece que voltámos atrás. Nunca voltamos atrás. Não se pode voltar atrás, não se pode deixar de crescer sempre, não se pode não aprender. Somos obrigados a isso todos os dias. Mesmo que, às vezes, esqueçamos muito daquilo que aprendemos antes. Mas, ainda assim, quando percebemos que esquecemos, lembramo-nos e, por isso, nunca é exactamente igual.

– Porquê, pai?

– Porque a memória não deixa que seja igual, mesmo que seja uma memória muito vaga, mesmo que seja só assim uma espécie de sensação muito vaga. É que a memória não é sempre aquilo que gostaríamos que fosse. Grande parte dos nossos problemas estão na memória volúvel que possuímos. Aquilo que é hoje uma verdade absoluta, amanhã pode não ter nenhum valor. Porque nos esquecemos, filho. Esquecemos muito daquilo que aprendemos. E cansamo-nos. E quando estamos cansados, deixamos de aprender. Queremos não aprender por vontade. Essa é a nossa maneira de resistir, mais ou menos, àquilo que nos custa entender. E aquilo que nos custa entender pode ter muitas formas, pode chegar de muitos lugares.

– Porquê, pai?

– Porque nos parece que é assim. Mas talvez não seja assim. Aquilo que nos custa entender é sempre uma surpresa que nos contradiz. Então, procuramos convencer-nos das mais diversas maneiras, encontramos as respostas mais elaboradas e incríveis para as perguntas mais simples. E acreditamos mesmo nelas, queremos mesmo acreditar nelas e somos capazes. Somos mesmo capazes. Não imaginas aquilo em que somos capazes de acreditar.

– Porquê, pai?

– Porque temos de sobreviver. Porque, à noite, a esta hora, temos de encontrar força para conseguirmos dormir, descansar, e temos de acreditar que no dia seguinte poderemos acordar na vida que quisemos, que desejámos. Temos de acreditar que poderemos acordar na vida que conseguimos construir e que essa vida tem valor, vale a pena. Muito mais difícil do que esse esforço é considerarmos que fomos incapazes, que não conseguimos melhor, que a culpa foi nossa, toda e exclusiva.

– Porquê, pai?

– Porque tivemos sempre boas intenções, porque tentámos sempre proteger aquilo que nos era mais precioso e aqueles que conhecíamos como importantes e válidos, aqueles que tínhamos visto sempre perto de nós a acharem-nos importantes, válidos e a protegerem-nos também. Mas isto que acontece connosco acontece também com aqueles que não conhecemos. Também esses acreditam que têm boas intenções e que tentam escolher o melhor. E, se escolhem um mal, tentam que seja um mal mínimo. E também eles choram às vezes.

– Porquê, pai?

– Porque somos todos iguais na fragilidade com que percebemos que temos um corpo e ilusões. As ambições que demorámos anos a acreditar que alcançávamos, a pouco e pouco, a pouco e pouco, não são nada quando vistas de uma perspectiva apenas ligeiramente diferente. Daqui, de onde estou, tudo me parece muito diferente da maneira como esse tudo é visto daí, de onde estás. Depois, há os olhos que estão ainda mais longe dos teus e dos meus. Para esses olhos, esse tudo é nada. Ou esse tudo é ainda mais tudo. Ou esse tudo é mil coisas vezes mil coisas que nos são impossíveis de compreender, apreender, porque só temos uma única vida.

– Porquê, pai?

– Não sei. Mas creio que é assim. Só temos uma única vida. E foi-nos dado um corpo sem respostas. E, para nos defendermos dessa indefinição, transformámos as certezas que construímos na nossa própria biologia. Fomos e somos capazes de acreditar que a nossa existência dependia delas e que não seríamos capazes de continuar sem elas. Aquilo em que queremos acreditar corre no nosso sangue, é o nosso sangue. Mas, em consciência absoluta, não podemos ter a certeza de nada. Nem de nada de nada, nem de nada de nada de nada. Assim, repetido até nos sentirmos ridículos. E sentimo-nos ridículos muitas vezes e, em cada uma delas, a única razão desse ridículo é não conseguirmos expulsar da nossa biologia, do nosso sangue, dos nossos órgãos, essas certezas injustificadas, ou justificadas por palavras sempre incompletas. Mas é bom que seja assim. Porque podemos continuar e, enquanto continuamos, continuamos. Estamos vivos. Ou acreditamos que estamos vivos, o que é, talvez, a mesma coisa.

– Porquê, pai?

– Porque o amor, filho.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 13/07/2009 - 08:18
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Aquilo que fiz depois de ler certos livros franceses

 1. Memórias de Adriano, Marguerite Yourcenar

Fui andar de bicicleta. Na minha infância e adolescência eu andava bastante de bicicleta. Em pouco tempo, dava um volta inteira à vila. Não porque tivesse pressa, mas porque tinha energia que precisava de gastar. Quando terminei de ler esse livro, tinha uma bicicleta vermelha, que foi a substituta da mítica bicicleta azul da minha infância. Com a bicicleta azul, fazia cavalinhos, chegava a andar dezenas de metros seguidos com a roda da frente no ar; com a bicicleta vermelha, tirava as mãos do guiador. Sem limite, podia andar o tempo que quisesse sem as mãos no guiador. Caí várias vezes até aprender, ou por me desconcentrar, ou por causa de um buraco ou por causa de qualquer coisa. Cair sem ter as mãos no guiador é desagradável. Tirando isso, sempre gostei muito de andar de bicicleta. Trata-se de uma máquina que respeita o corpo e que se adapta a ele, quase perfeitamente. O acto de pedalar é feito de círculos desenhados no ar por todo o corpo. Existe um movimento de ombros específico para cada maneira de pedalar. Depois, como resultado, o vento no rosto. Mesmo em Janeiro, Inverno mesmo Inverno, é melhor apanhar vento no rosto do que não apanhar. Sentir o toque abstracto do ar, essa matéria, é a certeza inequívoca de que estamos vivos. Se estamos a andar de bicicleta, então, é porque estamos mesmo vivos e temos todos os motivos para sorrir.

2. Uma cerveja no inferno, Rimbaud

Entristeci enquanto olhava através da janela do meu quarto. Lá ao fundo, estava a igreja, o adro, e as casas que rodeavam o adro, mas eu não via esse desenho, eu apenas olhava na sua direcção. Se tocaram os sinos na torre da igreja, eu não os ouvi. Mais perto, por baixo da janela, estava a tapada. Isso é algo que sei agora, teoricamente, porque, na altura, eu não olhava sequer para a tapada, o meu olhar sobrevoava-a e lançava-se numa indefinição, explodia talvez. Eu tinha entristecido subitamente, mas parecia-me que tinha sido devagar. Tudo me parecia lento, as cores dissolviam-se umas nas outras, os sons entornavam-se uns para dentro dos outros. Não tinha nenhum motivo para a tristeza. Com meio raciocínio chegaria a essa conclusão, mas evitava-o porque não queria perder o sabor daquela tristeza branda, feita de sons e imagens que existiam num lugar muito distante, onde eu nunca tinha estado, mas que recordava, como a memória de todos os lugares que me esperavam. Alguns onde, agora, já fui, e todos aqueles onde ainda irei.

3. Viagem ao fundo da noite, Celine

Fui comer pão com manteiga. Não era exactamente manteiga, era margarina vegetal. Embora mais fiel à realidade, acho que ficava menos bem ter escrito “fui comer pão com margarina vegetal”. Normalmente, na minha casa, chamávamos-lhe, ainda chamamos, o nome da marca. Assim, quando esse acto teve lugar, eu teria dito “vou comer pão com planta”. O pão estava guardado na caixa do pão, dentro do armário, na porta por baixo da televisão, sobre uma prateleira forrada com papel de embrulho em tons de cor-de-laranja, com um padrão de quadrados arredondados, algo aproximado de uma estética dos anos setenta. Por preguiça, nesses anos, eu raramente (nunca) cortava fatias de pão com a faca. Abria a porta do armário, abria a caixa do pão, segurava o pão e, com os dedos, arrancava um pedaço que, posteriormente, barrava com margarina vegetal, planta. Eu tirava sempre um pouco de côdea, gostava e gosto muito de côdea, mas o pão ficava com formas inusitadas que desagradavam à minha mãe. Não sei bem qual a razão etimológica, mas nessa altura, eu não dizia “um pedaço de pão”, não dizia sequer “um naco de pão”, dizia “um fanaco de pão”. Dessa forma, se tivesse encontrado a minha irmã no quintal, acho que era Primavera, acho que era de tarde, teria dito “vou comer um fanaco de pão com planta”. E foi mesmo isso que fiz. Já não me recordo do momento exacto em que mastiguei esse pão específico, mas recordo-me de outras vezes e sei, mesmo bem, que sempre foi um prazer imenso estar cheio de (esganado com) fome e comer um pedaço (fanaco) de pão cheio de margarina vegetal (planta) mal espalhada.

4. A religiosa, Diderot

Fui ver se os rapazes que costumavam jogar à bola em frente à oficina do meu pai já tinham chegado. Fui na minha bicicleta azul. Nessa altura, a corrente saltava com muita frequência e eu sujava as mãos todas de óleo para voltar a colocá-la. Cada vez que acontecia, eu pensava que tinha de levá-la a alguém que a arranjasse definitivamente, a apertasse. Quando terminava de colocá-la, esquecia-me desse propósito e pensava que, dessa vez iria ficar mais tempo sem saltar e, depois, quase milagre, iria arranjar-se sozinha. Os quase-milagres custam muito a acontecer. Quando cheguei à entrada da oficina do meu pai, os rapazes ainda não tinham chegado e a corrente da bicicleta saltou quando ia para fazer um cavalinho. Enquanto a estava a pô-la de novo, chegou o primeiro e o segundo rapaz. Limpei às mãos à parede. A marca das minhas mãos pequenas, a óleo, esticadas na parede, ficou lá durante vários anos, vários invernos choveram-lhe toda a sua força. Depois, ainda limpei as mãos nas ervas. Continuaram pretas, mas deixaram de estar pegajosas. Éramos então, três rapazes, sem bola, à espera de jogar à bola. Mas não fazia mal porque tínhamos muitos assuntos acerca dos quais podíamos conversar.

5. O estrangeiro, Camus

Não vou dizer aquilo que fiz. Tenho vergonha. Não deveria ter, mas tenho. Eu tinha treze anos e estava sozinho no meu quarto. Toda a gente já fez aquilo que eu fiz naquele momento. Se alguém se levantar a dizer que não o fez, tenho pena dessa pessoa. Alguém que sabe muito e que já viveu muito contava-me há pouco tempo que a maioria das coisas que nos acontecem não são escolha nossa. É preciso uma vida inteira, mais de sessenta anos pelo menos, para se fazer esta afirmação com propriedade. Pedindo emprestada a experiência da voz na qual escutei esta frase, acrescento que, se essa falta de escolha existe, então tem de estar presente nos momentos aparentemente pequenos, uma vez que são eles que, sucessivos e constantes, formam aquilo a que, no cume da montanha, chamamos “a vida”. Por isso, aquilo que fiz, treze anos, meu quarto, não foi exactamente uma escolha minha, foi uma circunstância. Feitas as contas, tudo é circunstância. Até poderia contar aquilo que fiz depois daquilo que fiz imediatamente após concluir a leitura de O Estrangeiro, de Camus, mas acredito que isso já não vos interesse tanto. Parece-me que gostariam de saber o que fiz logo depois de ler O Estrangeiro, de Camus, afinal esse é o título e o pressuposto deste texto, mas isso não vou dizer.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 07/07/2009 - 08:58
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Nitidez

Agora, as gotas de chuva que caem sobre a piscina, espaçadas e imprevisíveis, parecem-me a imagem que melhor descreve aquilo que existe dentro de mim e, no entanto, sei que se me sentasse a imaginar uma imagem concreta para este sentimento, nunca me lembraria desta visão simples, aqui, à minha frente: gotas de chuva a caírem sobre a piscina.

A minha idade irá parar no momento em que partires. Será uma espécie de morte cinzenta. Serás tu que partes, mas serei eu que desapareço. Para onde fores, haverá pessoas, que já existem agora, que respiram. No teu caminho, serão como pontos intermitentes de brilho. Talvez fales para essas pessoas, talvez elas te chamem pelo nome. Para onde fores, haverá mundo e vida. Aqui, continuará apenas a varanda onde estou: um balcão inútil sobre esta paisagem que se dissolverá numa cor única assim que partires. Sem surpresas, passarei a mão pelo cimento. Essa será uma carícia imaginária e desperdiçada.

Mas isso será depois, quando existirem lâminas em todas as lembranças, incêndios, horas suspensas e irreversíveis. Agora, estou aqui e ainda não partiste. A despedida já começou em cada palavra porque sei imaginar o silêncio, conheço-o. Engano-me a acreditar que só eu conheço o silêncio. Como em tantas outras tragédias banais, a mentira é um consolo, é sobrevivência. E ainda não partiste, eu ainda estou aqui. Dentro de mim, gotas de chuva caem sobre uma superfície lisa de água, misturam-se com ela e perturbam-na desde o seu interior, desenham uma organização impossível de círculos que se alargam e colidem. Agora, o céu triste. Agora, a tranquilidade. Gotas de chuva caem sobre a piscina.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 05/07/2009 - 10:48
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Respira

 Depois de atravessar o oceano e ver o que existe do lado de lá, depois de traçar linhas irregulares no mapa da Europa, faço a pé o caminho entre a minha casa e o supermercado. Sou um privilegiado enquanto avanço com um saco dobrado na mão, a carteira no bolso interior do casaco, a conhecer todos os passos deste caminho. Posso descer pela escadinha do jardim, por baixo da oliveira que, no Outono, dá azeitonas que ninguém aproveita, ou posso seguir pela rua principal, passar em frente à paragem de autocarros e atravessar a passadeira. Penso em muitas coisas enquanto faço esse caminho: tenho de ir aos correios, às finanças, à segurança social. Encontro sempre alguém para olhar: as pessoas que fumam à porta do supermercado ou a cigana romena, com uma criança a dormir-lhe no colo, que me estende a mão e o olhar. Enquanto avanço entre a minha casa e o supermercado, posso pensar neste texto que estou agora a escrever ou posso pensar nas compras que preciso. Isto, claro, se não tiver feito uma lista num quadrado de papel. Às vezes, deixo um pedaço de papel preso nesses imãs do frigorífico de Londres ou Ibiza e escrevo lá aquilo de que preciso. Detergente da loiça, por exemplo. É também assim que faço com as ideias para textos como este. Não as afixo no frigorífico, mas anoto-as em papéis que perco e encontro nos lugares mais inesperados da casa, muitas vezes após anos, ou em blocos que começo e que nunca acabo.

Posso estar enganado, mas, conhecendo-me, creio que, se tudo o resto falhar, poderei sempre contar com este caminho entre a minha casa e o supermercado. Bem sei que tudo muda: a casa pode deixar de ser minha, o supermercado pode desaparecer, a casa e o supermercado podem facilmente ser submersos por uma tristeza sem nome. Sei que o mundo pode ainda ser mais terrível do que isso, mas, com optimismo, gosto de pensar que este caminho está garantido. Não é pouco. Ao fazê-lo, carrego vagamente a memória daquelas ocasiões em que a minha mãe tirava um saco de plástico do armário e me pedia que fosse fazer um mandado à mercearia da Ti Ana Dezoito (quadrados de toucinho em cima do balcão de mármore, grãos de sal grosso em cima das folhas de papel pardo), ou quando o meu pai me dava uma garrafa e me mandava ir à do Ti Lourenço (o som e o cheiro do vinho tinto a escorrer do barril para dentro da garrafa, o funil de lata), ou quando a minha mãe me dava a bolsa de renda e me mandava à padaria de Ti Luísa do Peças (a farinha, queres mais bem cozidinho?) Enquanto caminho, eu sou essas memórias. Sou um corpo com pernas, braços e cabeça que é a representação física dessas memórias.

Quando chego ao supermercado, sei o lugar das coisas. A meio da manhã ou da tarde, cruzo-me com homens e mulheres que têm mais de setenta anos e que fazem compras ainda mais insignificantes do que eu: um pacote de leite, duas maçãs, pão. Vejo-me a ser um deles. Não daqui a muitos anos, não sou confiante a ponto de acreditar que passarei dos sessenta, mas já hoje, sou já um deles. Como eles, aproximo-me dos homens que estão a jogar às cartas no jardim, e fico a tentar perceber o jogo por cima dos seus ombros. Como eles, leio todas as notícias do jornal, vejo com pormenor todos os papéis que me são deixados por rapazes brasileiros na caixa do correio. Como eles, escolho bem cada peça de fruta que disponho nesses sacos de plástico fino, que custam a abrir, e, como eles, tomo-lhes o peso com a balança do braço antes de os atar com um nó cego.

É também como eles que encontro as palavras para este texto. Se tudo o resto falhar, como tantas coisas que já falharam efectivamente, posso sempre contar com este texto ou, pelo menos, com textos como este. Não tem de existir sempre a mais alta ambição em cada gesto. Ninguém aguenta viver assim e, para os vivos, viver é muito importante. Eu estou vivo. Respiro quando faço o caminho entre a minha casa e o supermercado, como respiro agora ao escrever esta palavra, e esta, e esta. Estão vivas também as pessoas com mais de setenta anos que cheiram melões no supermercado e que se balançam na aventura de comprar um (será que já estão maduros?) Será, será? Oh, dilema.

Aquilo que digo a mim próprio, digo também aos outros: tenham calma.

Agora, em especial para ti: do lugar de onde estás, tu próprio és o assunto que melhor vês, tu és a pessoa que está mais perto de ti. Por esse motivo, é normal que te pareça que cada detalhe é fundamental, essencial, que não podes viver sem ele. Mas podes. Os outros, esses que te amedrontam, que te telefonam todos os dias, que te escrevem emails e te perguntam: já está?, onde é que está?, porque é que não está? Esses parecem gigantes, têm os olhos muito abertos, mas, sabes, quando adormecem, são meninos indefesos. Como tu, também eles. Como tu, também eles recebem os mesmos telefonemas, os mesmos emails e, como tu, também eles, se encolhem ante gigantes, olhos muitos abertos, que, por sua vez, fazem a mesma coisa com outros e outros e outros, espelhos a reflectirem-se infinitamente. Se eles te perguntarem: já está? Podes responder: não, não está. E tudo continua. Se não tiveres o caminho entre a tua casa e o supermercado, terás outra coisa, qualquer coisa. Se não tiveres um texto como este para escrever, terás outra coisa que desconheço, mas que sei que existe. Por isso, respira, respira, respira.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 29/06/2009 - 14:31
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Tradução Peixotão

(Muito trabalho, muitas imagens e palavras e sons na cabeça têm-me impedido de vir aqui dar notícias. Para quebrar o hiato, deixo um aperitivo: mais um poema de Izet Saraljic (Bósnia, 1930-2002) , traduzido por mim a partir das traduções espanhola e italiana.)

O DONO DE UNS SAPATOS NÚMERO 43 CONTEMPLA UMAS SANDÁLIAS DE CRIANÇA EXPOSTAS NO MUSEU DE AUSCHWITZ

Quanto amor pôs, antes da guerra,

um sapateiro dos arredores de Lvov

ao fazer estas sandálias

para que uma criança pudesse,

calçando-as,

atravessar o maio da sua vida.

E agora aqui estão, expostas

no museu de Auschwitz.

E o homem que as olha

sente-se quase culpado.

O homem cujo pé pôde

crescer até ao número 43.

Era ele quem, em 1941,

saltava, calçando estas mesmas sandálias.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 27/06/2009 - 11:51
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Como se chamam os habitantes de Boston?

Já estou em Boston. Cheguei ontem.

Está frio, céu cinzento e, às vezes, chovem gotas geladas.

Já comi clam chowder e já gastei uma quantia exorbitante (que tenho pudor de referir) numa livraria.

Deixo-vos o texto que escrevi para a Visão após a minha passagem por aqui em Setembro passado. Para aqueles que gostam mais de ver o filme do que de ler o livro, sigam o link no final.

ABRE A PORTA, ZÉ LUÍS

Urina. O som familiar da urina a cair na água não perturba a embriagues gasosa do meu sono. Não interessa onde estou, mas sei que estou em Boston, mas não interessa onde estou porque estou num quarto de hotel e há pouca diferença entre quartos de hotel. Mudam os canais na televisão e o cheiro do detergente na alcatifa. De manhã, haverá sempre o som de aspiradores. É de tarde. Deixei a televisão ligada no canal Discovery Health, onde adormeci a ver um programa sobre obesidade mórbida. A voz do narrador entrou-me no sono, as vozes ocasionais dos obesos, deitados em sofás, deitados em camas, gruas, macas, entraram-me no sono. Agora, essas mesmas vozes falam sozinhas para a colcha desfeita sobre a cama vazia, são como electricidade. Não lhes presto atenção, têm a mesma existência vaga de, por exemplo, a cidade de Boston. São uma realidade teórica, abafada pela porta fechada da casa de banho e pelo som familiar, grosso, da urina a cair na água da sanita: o alívio de uma comichão entornada para fora do meu corpo.


Lavo as mãos.

Seguro a maçaneta da porta da casa de banho e, quando tento rodá-la, não roda. Mexo no botão que tranca a porta e não acontece nada. Normalmente, quando adormeço à tarde, privilégio de domingos, acordo de duas formas possíveis: devagar, com uma ligeira dor de cabeça; ou devagar, com um prazer morno espalhado pelos músculos. Agora, acordei de repente. Uma tomada de consciência que é como a efervescência súbita da coca-cola, a subir pela garrafa até transbordar. Uma espécie de anti-qualquer-coisa, uma implosão, sim, uma implosão. A casa de banho não tem janelas. A luz é amarela. Deixo de saber qual é a posição correcta do botão que tranca a porta. Tento abri-la das duas maneiras possíveis e não acontece nada. Bato com as duas mãos. Espero para distinguir alguma reacção e ouço apenas um silêncio feito das vozes dos obesos, sozinhos na televisão do quarto. Dou pontapés na porta. O mesmo silêncio. Bato na parede com as mãos abertas. Grito, tento chamar alguém. Estou no oitavo andar, como se estivesse enterrado vivo.


Lavo as mãos.

Lavo a cara. No espelho, sou amarelo. Tenho a cor da luz. O espelho é como uma janela para o interior fechado desta casa de banho. Sento-me no bidé. Encho os pulmões de ar. Quando era pequeno e fazia alguma coisa de mal, fechava-me na casa de banho antes que o meu pai chegasse a casa. Essa era a única divisão que tinha chave. Após dez minutos de espera, começava a imaginar que iria passar o resto da minha vida na casa de banho. Em instantes, acreditava nisso. Poderia dormir na banheira, tapar-me com toalhas, não faltaria a água potável e, numa primeira fase, poderia alimentar-me de pasta de dentes. Depois, a longo prazo, teria de atrair insectos comestíveis ou cultivar vegetais no intervalo dos azulejos. Quando o meu pai chegava, havia uma negociação que terminava com a porta a ser aberta devagar. Nem sempre foi assim. Houve uma vez em que, com o meu primo, roubei um cartucho da caçadeira do meu pai e fizemos uma bomba. Abrimos o cartucho com uma navalha, separámos a pólvora dos chumbos, fizemos um enxerto de arames e colocámos-lhe um rastilho. Guardámos a bomba numa gaveta e planeámos explodi-la no campo da bola. Essa hora deserta nunca chegou. A minha mãe descobriu a bomba e contou ao meu pai. Fechei-me na casa de banho. Ao fim da tarde, o meu pai chegou a casa. Abre a porta, Zé Luís. E eu dizia para ele se acalmar. Abre a porta. Zé Luís. Eu punha as culpas no meu primo, dizia que tinha sido ideia dele, e tinha mesmo. Abre a porta, Zé Luís. A voz do meu pai era sólida. Eu tinha oito ou nove anos e pedia perdão. Abre a porta, Zé Luís. Eu chorava e dizia que não queria. E, de repente, um estrondo ampliado pelo eco. Outro estrondo. A porta inteira a ceder na fechadura e nas dobradiças. O meu pai estava a arrombar a porta e a minha voz tremia. Espere. Não faça isso. Eu tremia.

Agora, 1938-2008, faltam poucas semanas para o dia em que o meu pai faria setenta anos. Há quase treze anos, 1938-1996, que sinto falta dele. Estou fechado na casa de banho de um hotel em Boston e penso no que farei para sobreviver se ficar aqui para sempre. Volto a gritar, tento chamar alguém, mas paro. Lembro-me que, antes de adormecer, pendurei na porta do quarto o pequeno letreiro que diz “não incomode”.


VÍDEO
http://www.vimeo.com/307996

 

Postado por: José Luís Peixoto | 27/05/2009 - 22:16
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Porto e Viana do Castelo

Estarei na Feira do Livro do Porto a 14 de Junho e na Feira do Livro de Viana do Castelo a 11 de Julho.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 23/05/2009 - 19:01
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Croácia e República Checa

ACTUALIZAÇÕES

Durante este viagem entre a Croácia e a República Checa, tentei por diversas vezes actualizar o blog e dar, na hora, notícias sobre aquilo que ia vendo nos diversos lugares por onde passei. Infelizmente, o meu computador e/ou a internet não deixaram. Muito frustrante. Não sei explicar exactamente o que se passou. Sei que nas tentativas que fiz, apenas o título ficava online. Todo o texto era ignorado. Já nem falo de colocar fotos ou vídeos. Nem alimento essa ambição.

Quanto às razões disso, percebo zero. Não sei se é o sinal wireless dos hotéis que não tem capacidade, não sei se são as definições do meu macintosh ou do servidor do blog (a propósito, será que vai haver arquivo para 2009?)

É pena que tenha sido assim porque se perde o entusiasmo do momento. Perdem-se os pormenores que gostava de vos ter contado na hora e que, parte dos quais, possivelmente, já esqueci.

Ainda assim, vou tentar fazer o meu melhor. Aqui ficam notícias destas duas últimas semanas.

CROÁCIA

Cheguei a Zagreb num domingo, dia 10. Para mim, regressar a Zagreb é chegar a um dos meus lugares. Tenho muitas recordações da Ilica, da Praça das Flores, de tantos e tantos lugares dessa cidade, de tantos detalhes que me constituem, que fazem parte daquilo que sou. Chegar a Zagreb num domingo, pousar as malas no hotel e ir comer Cevapi é algo que só consigo fazer com um sorriso permanente.

Depois, encontrar os amigos, que existem por baixo da pele e que, também eles fazem parte de mim. São como o nome de uma das minhas amigas croatas: Vida.

Depois, começam a regressar à minha memória todas as palavras em croata que sei e que, no dia-a-dia, quase esqueço que sei: putovanje, zivot, ljubav.

Muito bom.

Terminei essa noite no festival Queer Zagreb, a assistir a uma peça de teatro de um grupo de São Paulo, em que cerca de uma dúzia de homens e mulheres meio despidos e meio vestidos com túnicas romanas falavam das virtudes da homossexualidade. A maioria dos actores eram croatas e falavam em croata, com um painel electrónico a passar o texto em português.

Na segunda-feira, foi dia de apresentação. Quando foi marcada, estava prevista para a Universidade de Zagreb. No entanto, a Universidade está ocupada pelos alunos há cerca de um mês. Estão em protesto contra as propinas. Estão espalhados pela cidade, junto aos semáforos, com cartazes que dizem “Buzine pela educação”. Na Universidade, quando passei por lá, jogava-se às cartas e havia altifalantes que passavam o “the eye of the tiger”. Assim, a apresentação passou para o Centro de Língua do Instituto Camões em Zagreb. Falei apenas em português porque a audiência era composta exclusivamente por alunos de português (e portugueses em Zagreb). Correu muito bem. O Centro de Língua Portuguesa é novo. Na última vez que estive em Zagreb ainda não existia. É fruto de um trabalho que, estou certo, encheria de orgulho todos os portugueses que o conhecessem.

Outra coisa que, de certeza, surpreenderia muitos portugueses seria saberem que, na Croácia, há mais de 400 alunos de português. Com óptimo domínio da língua, acrescente-se. Quantos alunos de croata existirão em Portugal? E quantos existirão no Brasil?

Para ir ao encontro de mais alguns desses alunos, fui para Zadar, na costa do Adriático. O centro de Zadar fica numa península. Com o tempo muito bom, sol, calor, havia bastante gente a nadar mesmo no centro da cidade (eu inclusive). Não creio que existam muitas universidades no mundo que fiquem a pouco mais de dez metros do mar. Esse é o caso da Universidade de Zadar. A vista das janelas é um mar muito azul e, lá ao fundo, ilhas. Na universidade, os alunos em greve, dividiam-se entre as esplanadas e os mergulhos no Adriático. Foi aí que participei nas jornadas ibéricas onde, além de mim, participaram um autor galego, um asturiano, um catalão e uma autora das Ilhas Canárias que escrevia em castelhano. Em conjunto, fizemos uma leitura num lugar impressionante chamado Arsenal. Li em português o conto “Eu e as poetisas”, cuja tradução croata (feita por alunos da Universidade de Zadar) ia sendo projectada numa tela atrás de mim. Transcrevo o texto abaixo para que o conheçam. Além disso, entreguei prémios aos alunos que se distinguiram pelas melhores traduções de português e, no final, dei uma entrevista para o jornal cultural Zarez.

De todas as vezes em que estive na Croácia, nunca tinha tido a oportunidade de visitar Zadar, apesar de já ter ouvido falar bastante. É, sem dúvida, um daqueles lugares inesquecível (como toda a costa e ilhas da Croácia, aliás). Eu, pelo menos, não irei esquecer Zadar.

VIENA

A viagem de avião entre Zagreb e Praga tinha uma escala em Viena. Era pouco o tempo para mudar de avião, por isso, saí a correr à procura da entrada para o voo entre Viena e Praga. Cheguei ofegante e a senhora da Austrian Airlines disse-me que o meu lugar não estava confirmado. Fiquei perplexo. Tratava-se de um overbooking... Após uma espera, confirmou-se que não estava confirmado. Era de noite e, por isso, levaram-me para um hotel no centro de Viena, onde fiquei a esperar o próximo voo para Praga (sete da manhã). Acabou por não ser mau de todo porque me deu a oportunidade de passear um pouco por Viena e ir beber um copo (dois) com o meu amigo Michael. Mas, ainda assim, confesso que não percebo qual a lógica do overbooking. Alguém me consegue explicar por que motivo as companhias aéreas vendem mais bilhetes do que o número de lugares que têm no avião?

REPÚBLICA CHECA

Assim, cheguei a Praga pouco antes da hora em que tinha de ir para a Feira do Livro. No início da tarde, apresentava a edição checa de “A Criança em Ruínas”, traduzido por Vlastimil Váne e publicado pela editora Dauphin (www.dauphin.cz), com o título “Díte V Troskách”. Vi pela primeira vez essa edição no tram (eléctrico, troley?) já a caminho da feira do livro. Quando puder, hei-de tentar afixar aqui a capa dessa edição, é de um azul-céu e tem uma imagem de Jan Horacek, onde surge um monte de fotografias a preto e branco. A apresentação foi muito simpática. Falei sobre o livro, li “Arte Poética” e li este poema, que talvez já conheçam e que transcrevo aqui em checo (sem acentos checos):

kdyz se prostíral stul, byvalo nás pet:

muj otec, má matka, mé sestry

a já. pak se má starsi sestra

vdala. pak se má mladsi sestra

vdala. pak muj otec zemrel. dnes,

kdyz se prostírá stul, je nás pet,

krome mé starsi sestry, která je

u sebe doma, krome mé mlasdsi

sestry, která je u sebe doma, krome mého

otce, krome mé ovdovelé matky. kazdy

z nich je prázdné místo u tohoto stolu, kde

jídám sám. ale vzdycky budou zde.

kdyz se bude prostírat stul, bude nás vzdycky pet.

dokut jeden z nás zustane nazivu, bude nás

vzdycky pet.


Tradução de Vlastimil Váne.

Após o lançamento, houve autógrafos. Além da edição checa de “A Criança em Ruínas”, autografei também o Nikdo se Nedívá, que é como se chama o “Nenhum Olhar” em checo e que foi traduzido em 2004 pela Desislava Dimitrovová.

Logo a seguir, fui participar num debate com uma escritora belga e um escritor grego, moderado por uma jornalista checa, sobre “Literature across the media”. Aquilo que se pretendia era que se falasse sobre projectos com meios para lá do livro. A belga trabalhava com vídeo, o grego fez um livro com um fotógrafo, eu falei do “Antídoto” e dos Moonspell, das letras para cantores, do Intermezzo, do trabalho com coreógrafos, fotógrafos, etc. No dia seguinte, saiu um artigo a resumir o que foi dito no jornal da Feira do Livro de Praga.

No fim de semana, tive oportunidade de passear um pouco pela maravilhosa cidade de Praga.

Na segunda-feira, apanhei o comboio das 13 horas para Brno. Na vez anterior em que estive em Praga, tinham-me falado bastante de Brno, mas não tinha tido oportunidade de me deslocar até lá. Tinha expectativas e foram todas cumpridas. Apesar de ter ficado pouco tempo (o suficiente para almoçar, apresentar o livro e voltar para Praga), gostei muito de Brno. O livro foi apresentado na sala subterrânea de um bar perante algumas dezenas de pessoas. Voltei a fazer leituras, mas falei bastante mais do que em Praga. O público colocou mais questões e ainda nos rimos todos um pouco. Além disso, venderam-se todos os livros que havia e autografei uma boa parte deles, assim como mais alguns romances em checo.

Em princípio, o meu próximo romance a ser traduzido para checo será “Uma Casa na Escuridão”. Seja como for, espero reencontrar os amigos checos antes disso. Quando cheguei a casa, já tinha vários “pedidos de amizade” vindo da República Checa (e da Croácia) no facebook e no myspace. Assim, é mais fácil dizer “até breve”.

AGRADECIMENTOS

Acho que não é necessário escrever aqui os nomes das pessoas que me convidaram, traduziram e acompanharam nesta viagem pela Croácia e pela República Checa. Sinto uma gratidão imensa, comparável apenas à amizade que lhes guardo.

IMAGENS DOS PRÓXIMOS CAPÍTULOS

Na próxima semana, regresso aos Estados Unidos, onde vou participar de conversas sobre “The Implacable Order of Things” (“Nenhum Olhar”) em Boston e Nova Iorque. Estou muito curioso acerca da Universidade de Harvard e das pessoas que encontrarei por lá. Acredito que será memorável.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 20/05/2009 - 10:38
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Conto que li em Zadar

Este conto foi publicado originalmente no Jornal de Letras. Depois, revisto e publicado no volume "Hoje Não", que foi oferecido com a revista Sábado.

 
 EU E AS POETISAS

 Ninguém entendia a melhor poetisa do Quirguistão. Não porque ela não fosse fluente em várias línguas, mas porque falava demasiado baixo. Na fila do almoço, com um prato e talheres, enquanto esperava para servir-se de salmão fumado, uma tradutora finlandesa dobrava-se toda sobre a melhor poetisa do Quirguistão para tentar ouvi-la e, talvez, entendê-la. Cheguei a falar com o romancista mais promissor da Estónia sobre isto. Estávamos no alpendre da casa de madeira onde existia um bar. Eu cheguei para fumar um cigarro e o romancista mais promissor da Estónia já lá estava. Era um vulto semi-iluminado com mais de um metro e noventa. Tínhamos falado antes, mas não estávamos completamente à-vontade. O silêncio e a noite trouxeram-nos uma intimidade que não estávamos preparados para suportar. Foi ele que começou a falar de qualquer assunto sem importância. Talvez tenha falado de algo que o historiador fascista e escandaloso da Itália fez ou exigiu. Quando não tínhamos assunto, podíamos sempre falar das últimas novidades do historiador fascista e escandaloso da Itália. Quando não sabíamos nenhuma novidade, podíamos sempre perguntar por ele. Enquanto o romancista mais promissor da Estónia falava, o fumo do meu cigarro ondulava numa coluna branca que terminava no centro dos seus olhos. Eu desviava o cigarro, ele desviava o rosto, mas o capricho do fumo, como uma vontade humana e sólida, dirigia-se sempre aos seus olhos. Foi num desses momentos, depois de mais silêncio, que resolvi falar-lhe da melhor poetisa do Quirguistão. Falei-lhe da sua dificuldade em fazer-se entender e do seu ar vagamente misterioso, misterioso porque vago. O romancista mais promissor da Estónia olhou-me com embaraço e respondeu meio concordando, meio divergindo. Fiquei com a sensação de que tinha sido indiscreto e, não tendo mais nada para dizer, voltámos a partilhar o silêncio. Felizmente, apareceu o escritor exuberante da República Checa. Pediu-me um cigarro e o romancista mais promissor da Estónia aproveitou para sair. Entre dentes, menos que sussurrando, disse que ia à casa de banho, mas, por cima do ombro do escritor exuberante da República Checa, vi-o juntar-se a um grupo de pessoas que conversavam encostadas ao balcão.

Na manhã seguinte, enquanto passeava nas margens do lago, descalço sobre a relva, cruzei-me com a poetisa que escrevia em dialecto da Lapónia. Seria difícil saber exactamente no raio de quantos quilómetros não havia nenhuma mulher mais atraente do que ela. Apesar de não haver resposta, essa questão era válida e ela sabia-o. Talvez fosse por isso que a poetisa que escrevia em dialecto da Lapónia era pouco simpática, ou talvez fosse por ser pouco simpática que, numa contradição vulgar da natureza, se tornava atraente. Quando me cumprimentou, estremeci. Já tínhamos sido apresentados, mas não esperava que reparasse em mim. Foi ela que começou a falar. Com um inglês com sotaque da Lapónia, disse qualquer coisa com que concordei. Sorri. Disse mais qualquer coisa e voltei a concordar. Voltei a sorrir. Quando chegou o silêncio, perguntei-lhe pelo historiador fascista e escandaloso da Itália. Ela riu-se e respondeu que, naquele dia, ainda não tinha tido nenhuma notícia dele. Ela riu-se. Estava tudo a correr-me bem. Nesse momento, eu estava consciente de que aquilo que estávamos a fazer tinha, no contexto internacional, o agradável nome de flirt. Eu sabia que havia revistas especializadas, com páginas inteiras de publicidade a perfumes, que teorizavam sobre essa questão em artigos com títulos como: 10 conselhos práticos sobre o que deve fazer durante o flirt, 10 conselhos práticos sobre o que não deve fazer durante o flirt. Enquanto o riso dela esmorecia, como a água do lago junto dos nossos pés, eu arrependia-me de nunca ter prestado a atenção devida a essas revistas e a única certeza que parecia apertar-me o peito era a necessidade de evitar o silêncio. Foi apenas com essa motivação que lhe falei da melhor poetisa do Quirguistão. Perguntei-lhe se conseguia entender alguma palavra daquilo que ela dizia. O rosto da poetisa que escrevia em dialecto da Lapónia desfez-se e voltou à sua altivez. Como se não percebesse porque estava ainda a falar comigo, despediu-se rígida e continuou o seu caminho, contornando o lago. Sozinho, com as sandálias na mão, fiquei a vê-la afastar-se.

Passou a manhã e passou a tarde. Telefonei para casa e disse que estava com saudades. Foi já ao início do serão, quando todos esperavam o jantar. Estava sentado numa cadeira nas traseiras da casa de madeira onde existia um bar, apreciava a vista sobre o lago e entregava-me a pensamentos do tamanho da paisagem. De repente, saindo disparada pela porta, a melhor poetisa do Quirguistão veio a caminhar directa para mim. Sorri-lhe, mas ela não me sorriu de volta. Quando começou a falar, levantei-me porque achei que seria falta de educação continuar sentado. O rosto dela era sério enquanto falava. Das suas palavras, eu não conseguia entender mais do que um sussurro incompreensível. Ela, no entanto, não se calava. Erguia o indicador à frente do meu rosto e agitava-o com convicção. Do seu rosto asiático, percebi claramente que estava irritada. Aos poucos, foram saindo pela porta da casa de madeira várias pessoas que se paravam a olhar para nós. Em momentos, procurando compreensão, eu olhava para eles e encolhia os ombros. Nenhum deles reagia. A melhor poetisa do Quirguistão continuava a falar para mim como se aquilo que tinha para dizer não se esgotasse nunca. Ao mesmo tempo, agitava o indicador diante do meu rosto como se procurasse a melhor maneira de espetar-mo num olho. Não passou muito tempo até que estivesse uma multidão reunida junto à porta da casa de madeira. O romancista mais promissor da Estónia comentava qualquer coisa que a escritora finlandesa que vive na Noruega e que escreve em norueguês sobre a Finlândia escutava com atenção. A editora da Macedónia olhava-me com desdém. O escritor exuberante da República Checa parecia enjoado. A poetisa que escrevia em dialecto da Lapónia olhava-me como se fosse fulminar-me. Desisti de entender a melhor poetisa do Quirguistão e, pouco depois, ela desistiu de falar para mim. Começou a afastar-se e, quando passou entre a multidão, houve vários que a tentaram confortar. Quando entrou na casa de madeira, todos a seguiram.

O único que ficou, que me sorriu e que caminhou na minha direcção foi o historiador fascista e escandaloso da Itália. Satisfeito, passou a mão pela careca, cumprimentou-me e, após poucos minutos, perguntou-me se queria ser seu amigo.

 

 

Postado por: José Luís Peixoto | 20/05/2009 - 10:36
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Datas

Quem me conhece já sabe da minha dificuldade em memorizar nomes. Agora ficaram a saber que também me custa fixar datas.

Enganei-me na data dos autógrafos na Feira do Livro do Porto. Quando houver notícias em relação à data correcta, aviso.

Errei também nas datas das apresentações na Croácia. Zagreb foi no dia 11 e Zadar foi no dia 12 de Maio.

Acho que sou mais ou menos bom a lembrar-me de caras.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 20/05/2009 - 10:33
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Feiras do Livro de Lisboa e do Porto

Nas feiras do livro de Lisboa e do Porto, estarei na cadeirinha dos autógrafos. Em Lisboa já no próximo sábado, dia 9 de Maio, a partir das 18 horas; no Porto, no dia 23 de Maio, também a partir das 18 horas.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 05/05/2009 - 10:54
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Nas livrarias portuguesas a partir de meados de Maio

 

Postado por: José Luís Peixoto | 30/04/2009 - 08:52
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Le Portugal

 As coisas não começaram bem. No sábado, tinha acabado de sair do cybercafe onde, entre outras coisas, coloquei online o texto anterior, quando recebi um telefonema a perguntar onde estava. Tinha chegado a hora da minha leitura e não sabiam de mim. Percebi então que tinha entendido mal o que estava escrito no programa e tinha calculado mal a hora a que deveria ler (era um dos últimos da lista e, na noite anterior, tinham seguido a ordem). Corri para o hotel para apanhar os livros e, passados minutos, tinha um carro à espera para me levar à abadia de Neumunster. Cheguei, ouvi meio poema em alemão e, esbaforido, fui apresentado. Estavam duzentas e tal pessoas. Uma vez que era a noite em que todos os poetas liam, tinha apenas 5 minutos. Tudo bem.

Comecei por ler “na hora de pôr a mesa” em francês, depois o original em português. Li depois “Arte poética”, também em francês e, quando ia para ler em português, fui interrompido pelo poeta do Luxemburgo que organiza o encontro. Tentei cumprimentá-lo, mas fiquei de mão estendida no ar.

No momento, não me apercebi. Foi só ao longo da serão que foram chegando até mim as queixas dos muitos portugueses que estavam lá (afinal, há portugueses que assistem a leituras de poesia no Luxemburgo). A cada uma, ia percebendo que aquelas pessoas tinham a expectativa de ouvir mais em português e que a forma abrupta como terminou a leitura foi frustrante para elas. Ao mesmo tempo, tinha na memória a leitura da véspera na Kulturfabrik, em Esch, onde 6 poetas convidados leram das 19.30 até quase à meia-noite, nenhum deles respeitando o tempo que lhes tinha sido destinado.

Assim, no domingo, 26, tinha a leitura na Galeria Simoncini, com menos poetas e com mais tempo para ler. Não me considero uma pessoa que guarda ressentimentos (a vida é curta), mas lembrei-me dos portugueses que fizeram e serviram o jantar de ontem, lembrei-me da portuguesa com quem fiquei a conversar na cozinha da Escola Europeia, lembrei-me das cabo-verdeanas que arrumavam os quartos do hotel e com quem também conversei, lembrei-me de que estava ali a representar Portugal e fiz o seguinte: antes da leitura, agradeci ao Instituto Camões (que apoiou o festival, custeando a minha viagem) e expliquei aos presentes que o propósito desse instituto é promover a língua e a cultura portuguesa, uma língua que é falada por cerca de 200 milhões de falantes (obrigado, Brasil) e que, no Luxemburgo, é falada por, pelo menos, 80 mil portugueses (maior comunidade de estrangeiros). Depois, expliquei que começava por ler o poema “Arte Poética”, que não tinha tido tempo de ler na véspera e, que no fim, se tivesse tempo, leria a tradução francesa. Li vários poemas de “A Criança em Ruínas” e de “A Casa, a Escuridão” tanto em português, como em francês. E, no fim, não tive tempo de ler a tradução francesa de“Arte Poética”.

O ANIMAL

Logo após a leitura da Galeria Simoncini, estavam todos os participantes do festival a almoçar numa esplanada de um hotel da Place d' Armes, no centrão da cidade do Luxemburgo, quando se afastaram as nuvens e ficou um sol bastante intenso. Tirei o casaco. Estava a conversar com o César Stroscio, mas ouvi claramente os dois empregados portugueses que estavam a pôr os pratos. Um deles, pensando que não o entendia e referindo-se às minhas tatuagens diz para o outro: “Já viste este? Tem o braço todo sujo.” Ao que o outro responde: “Ah pois tem, o animal.” Quando me virei para eles e lhes disse: “Talvez esteja mais lavado do que imagina”, arregalaram os olhos e foram-se embora.

Na nossa mesa, estava o dono do hotel, o patrão deles. Não sei se foi por isso que o empregado que me chamou animal voltou passados alguns minutos para pedir umas desculpas atrapalhadas. Enfim, nada como uma descida à realidade.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 28/04/2009 - 10:23
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De Braga a Barcelos

Exactamente há uma semana atrás, 18 de Abril, estava na Feira do Livro de Braga. Alguns dias antes, ao actualizar a minha agenda no myspace, escrevi por piada que me estava a preparar para fazer o caminho mais longo entre Braga e Barcelos. Isto porque, na Feira do Livro de Braga, iniciei um sequência de viagens que apenas terminará no dia 17 de Junho na Biblioteca de Barcelos. A saber:


21/4 – Literatura em Viagem, Matosinhos

24/4 – Escola Europeia, Luxemburgo

25/4 – Le Printemps des Poètes, Luxemburgo

11/5 – Festival de Poesia de Zadar, Croácia

13/5 – Universidade de Zagreb, Croácia

15/5 – Feira do Livro de Praga, Rep. Checa

18/5 – Universidade de Brno, Rep. Checa

28/5 – Harvard Book Store, Boston, USA

17/6 – Feira do Livro de Barcelos


Por aqui, irei dando notícias desta digressão “From Braga to Barcelos Tour” :) à semelhança do que aconteceu com as apresentações que fiz no México em Dezembro passado.


Neste momento, estou no Luxemburgo. Estive ontem na fabulosa Escola Europeia onde tive a oportunidade de falar com duas turmas de alunos de português. Nessa escola, existem turmas em 26 idiomas. Em muitos aspectos, é uma escola única. Eu, pelo menos, nunca vi nada assim. Para quem anda pelos corredores, parece a escola perfeita: condições excelentes, alunos de alto nível, todo o tipo de actividades, etc. Faz lembrar aquele jogo de computador, os Sims. Aliás, acabei agora mesmo de dar um passeio pelas ruas do centro da cidade do Luxemburgo e essa é a impressão que se sente em toda a parte. As cores das coisas são limpas. Os carros são todos novos, as roupas são todas novas, toda a gente está impecavelmente penteada e engomada. As crianças portam-se bem e os animais de estimação estão todos convenientemente ensinados. Os adolescentes mais rebeldes parecem saídos de um qualquer videoclip da MTV.


Ainda assim, as pessoas são pessoas e, ontem, na Escola Europeia, foi memorável encontrar aqueles rapazes e raparigas que leram alguns poemas dos meus livros de poesia, tocaram viola e me deram algumas ilustrações desses mesmos poemas (em breve, tentarei colocar aqui algumas).


No serão de ontem, iniciou-se o Festival Le Printemps des Poètes, www.prinpolux.lu o mesmo conta com a presença de 14 poetas de outros tantos países europeus. A minha participação acontecerá hoje e amanhã. Em ambas as ocasiões, irei ler poesia. Hoje será na Abadia de Neumunster a partir das 10 da noite. Amanhã será na Galeria Simoncini a partir das 11 da manhã. Em ambos os casos, há um acompanhamento musical do argentino César Stroscio.


Aqui virei dar conta dessas leituras públicas logo que me seja possível.


PORTUGUESES

Ao passear na Grand Rue, cruzei-me com um autocolante que anuncia “Os mensageiros portugueses estão de volta”. Aparentemente, não se tratava do D. Sebastião, mas sim um grupo de hip hop. Chamam-se JMP e têm um novo disco chamado “Realidade e Consciência”. Apoiem o hip hip português feito no Luxemburgo e oiçam-nos em http://myspace.com/jmphiphoptuga


É de referir que a presença portuguesa no Luxemburgo é imensa. Estão registados cerca de 80 mil cidadão portugueses residentes no Luxemburgo (a população total do país ronda os 400 mil habitantes). Para além destes, existem todos os que nasceram cá e já têm nacionalidade luxemburguesa e existem os que não estão registados. É banal ouvir-se falar português na rua. Ainda assim, segundo me foi dito, não são grandes frequentadores de festivais de poesia.


Logo à chegada, na quinta-feira, dia 23, estive a dar uma entrevista na Rádio Latina. Esta transmite maioritariamente em português, mas tem programas também em italiano, espanhol e crioulo cabo-verdeano (os cabo-verdeanos são a segunda maior comunidade lusofalante do Luxemburgo, com cerca de 10 mil imigrantes).


Existem também jornais portugueses. Neste momento, ainda só tive oportunidade de folhear o semanário Contacto, www.jornal-contacto.lu que me pareceu de boa qualidade.

Inesperadamente, encontrei (e comprei) uma revista alemã de tatuagens com a Ana Malhoa na capa (!). Quando houver condicões informáticas, partilharei.


ROMANCE

O texto que, em breve, será um romance vai comigo para todo o lado e, em todos os lugares, vai crescendo. Estando fora de casa, tenho menos possibilidade de me dedicar a ele. Assim, não irei sempre dando conta dos seus avanços. Fá-lo-ei quando existir alguma notícia que me pareça relevante.

Por passar horas fechado no quarto (a ler, a escrever, a dormir e a tomar duche), creio que os outros poetas do encontro me consideram mais misantropo do que sou realmente. Por mim, tudo bem. Até fico mais misterioso e , consequentemente, mais chique. ;)


25 DE ABRIL

Acordei com os discursos do 25 de Abril na Assembleia da República, via RTP Internacional. Gostei do discurso do Bloco de Esquerda e gostei do discurso do PP (não sei o que se anda a passar comigo...)

Acabei agora mesmo de receber um telefonema da Lúcia Sigalho a dizer-me que correu bem a leitura do meu texto no Largo Camões (alguém esteve por lá?) Escrevi um texto para ser lido no âmbito das comemorações dos 35 anos do 25 de Abril. O mesmo foi lido pela actriz Flávia Gusmão.

Deixei também gravadas declarações que deverão passar hoje no Rádio Clube Português e estive a tentar apresentar os Quinta do Bill num espectáculo que dá hoje à noite na RTP. Não, não pretendo seguir a bonita carreira de apresentador. Não se preocupem. :)

 

Postado por: José Luís Peixoto | 25/04/2009 - 14:04
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Mini-ópera

Ontem, no Teatro Nacional São Carlos, em Lisboa, estreou a ópera "Agripina", de Handel, e estreou também "O Velório de Cláudio", de Nuno Corte-Real, com o libreto escrito por mim.

Este trabalho partiu de um convite do Teatro Nacional São Carlos e, inicialmente, estava destinado a ser um intermezzo. Com o acordo do encenador, o alemão Michael Hampe, "O Velório de Cláudio" acabou por ser apresentado antes da ópera "Agripina" e, desse modo, ficou a ser uma espécie de "mini-ópera", como muito bem observou Cristina Fernandes no jornal Público de ontem AQUI.

Com cerca de 10/15 minutos, "O Velório de Cláudio" é interpretado por Alexandra Coku, Reinhard Dorn, Musa Nkuna, Luís Rodrigues, Chelsey Schill e Jorge Rodrigues, estará ainda em cena a 19, 21, 24, 26 e 27 de Abril.


(47 págs.)

 

Postado por: José Luís Peixoto | 18/04/2009 - 09:56
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Sim significa não

A única vez em que estive na presença da actriz Alexandra Lencastre foi em 1995. O país atravessava um período de alegre contestação. Toda a gente que eu conhecia estava contra o governo e Março, a confiar na minha memória, não tinha sido demasiado frio ou chuvoso. Se Portugal fosse um carro, bastava destravá-lo e deixá-lo deslizar, não se vislumbrava a necessidade de esforçar o motor contra qualquer espécie de subida. Os penteados e os bigodes dos anos oitenta estavam extintos. Os hipermercados prosperavam. Não tínhamos telemóvel ou internet, mas se estávamos destinados à felicidade, éramos felizes. Eu tinha vinte anos e estudava em Lisboa. Quem me via não desconfiava mais do que normalmente se desconfia de alguém com essa idade.

Quando fui chamado para comparecer na pré-selecção, num apartamento em Sete Rios, ao lado do Jardim Zoológico, custou-me a acreditar. Para mim, os concursos de televisão eram uma realidade distante. Eu era anarquista, vegetariano, punk friendly e quase virgem. É certo que tinha autorizado a minha irmã a escrever o meu nome nos cupões, mas imaginava que concorressem milhares de pessoas e não conhecia ninguém que alguma vez tivesse participado num concurso de televisão. Eu nem tinha a certeza que a minha irmã se lembrasse mesmo de enviar os postais. Mas lembrava. Acordei cedo, faltei a uma aula e, com um pull-over cinzento, que ainda tenho, respondi às perguntas que me fizeram. Quando saí, não pensei se ia ser apurado, pensei no almoço.

Telefonaram poucos dias depois. Eu não estava em casa. Foi a minha irmã que atendeu. O concurso chamava-se “Trocado em Miúdos”. Havia palavras e crianças a tentarem explicá-las. Havia palavras e o seu significado mais inocente. Depois, quem acertasse nas palavras-mistério ia acumulando pontos. Os parceiros dos concorrentes eram figuras públicas. A minha parceira foi a actriz Alexandra Lencastre. Havia palmas gravadas e, por isso, sempre que chegava um momento de aplaudir, fazíamos o gesto, mas não podíamos fazer barulho. Sozinhos no estúdio, com as luzes e com as câmaras, passámos grandes períodos a bater palmas em silêncio. Creio que não haveria grande possibilidade de contestar a nossa vitória. Foi clara. Eu e a actriz Alexandra Lencastre sorrimos um para o outro e não voltámos a ver-nos.

O prémio foi um fim-de-semana em Londres para duas pessoas. A minha irmã agradeceu. Levantei o bilhete e os pormenores do hotel numa agência de viagens nas Olaias. À hora em que o concurso ia ser transmitido, a minha irmã, o meu cunhado e eu estávamos em frente à televisão, tínhamos o vídeo ligado e uma cassete preparada. A minha irmã tinha o dedo sobre o botão REC do comando. Esperámos duas horas. A minha irmã telefonou para lá. Sem aviso, o concurso tinha sido suspenso. Não cheguei a aparecer na televisão. Os bilhetes estavam guardados numa gaveta.

Foi assim que viajei pela primeira vez de avião. A minha irmã tinha um guia de bolso e um plano exacto para aqueles três dias e meio. Creio que estávamos convencidos de que nunca mais voltaríamos a Londres. À noite, chegávamos ao nosso quarto na Russel Square e não tínhamos força para falar. No dia seguinte, acordávamos às sete. Os dias eram longos como quilómetros. No fim daqueles três dias e meio éramos uma espécie de emigrantes. Um para o outro, dizíamos “lá, na Trafalgar Square”, ou “lá, no British Museum”. Tínhamos feito tudo. Tínhamos a barriga cheia. E, na minha segunda viagem de avião, regressávamos felizes. Trazíamos porta-chaves para todos, ímanes de frigorífico e chocolates. No aeroporto, as malas chegaram ao tapete rolante como nos filmes. Tínhamos um carrinho para levá-las. Seguindo as indicações para a saída, ao longe, começámos a ver o meu cunhado e o nosso pai. Ao longe, os nossos sorrisos chocaram com os seus rostos sérios. Logo nesse momento percebemos que tinha acontecido algo.

Foi o meu pai que nos disse que a nossa avó tinha morrido. Saímos do aeroporto e fomos para um velório quase deserto em Massamá. Caminhámos na direcção da nossa mãe, órfã. A nossa avó estava deitada num caixão. Chamava-se Joaquina e, a mim, chamava-me “o meu Zé Luís”. Havia velas eléctricas que se acendiam com moedas de vinte escudos. Nessa sala de uma igreja moderna, passámos a noite. O enterro aconteceu no dia seguinte, já na nossa terra. Eu e a minha irmã não chegámos a contar as histórias da viagem a Londres. As fotografias foram reveladas e guardadas. Dessa maneira, aprendi uma lição que continua comigo. Dessa maneira, aprendi que há palavras que significam o seu absoluto contrário. Às vezes, sim significa não.

*Publicado originalmente na revista Visão.

(42 págs.)

 

Postado por: José Luís Peixoto | 06/04/2009 - 11:21
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Dois meses

Estou vivo. Ao longo destes dois meses, iniciei mentalmente a escrita destas palavras dezenas de vezes. No entanto, as passagens pela internet foram sempre demasiado rápidas, com dois ou três emails urgentes para responder e, logo a seguir, o regresso ao mundo e às palavras. Pensei falar-vos da breve viagem que fiz a Marrocos e da antologia de contos que saiu por lá (o conto "Dia de anos" a ler-se da direita para a esquerda,em árabe); pensei falar-vos da edição de "Morreste-me" e de "Gaveta de Papéis" em braille, das idas a escolas preparatórias e secundárias, etc. Ou seja, pensei falar-vos de várias coisas que me deixam feliz, orgulhoso, e que, se existir amizade desse lado, vos poderão dar alguma alegria também.


Além disso, há o romance, solitário e silencioso, o grande segredo.


Voltei.


(42 págs.)

 

Postado por: José Luís Peixoto | 06/04/2009 - 11:11
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Asseio

Nesta época do ano, quando vivia na casa de lareiras que sempre pertencerá aos meus pais,  uma das coisas que mais gostava de fazer era atear o lume. Acender uma pinha com fósforos ou no bico do fogão. Acender um fósforo. A explosão de um fósforo na ponta dos dedos é um assunto simultaneamente intenso e frágil, como o coração de uma ave. Da chama de um fósforo pode nascer um incêndio, o inferno, ou pode nascer um lume como aquele onde me aquecia na casa dos meus pais e que ardia durante todo o dia. E coloca-se a pinha no ponto onde a construção de lenha se cruza. Depois as chamas, depois as brasas, depois a cinza.

É assim que espero que as palavras peguem.

No resto do tempo, faço como no poema de Billy Collins, que aqui deixo traduzido por mim para português:

 

CONSELHO PARA ESCRITORES


Mesmo que te mantenha a pé toda a noite,

lava as paredes e esfrega o chão

do teu estúdio antes de compores uma sílaba.


Limpa como se o Papa estivesse para vir.

O asseio imaculado é sobrinho da inspiração.


Quanto mais limpares, mais brilhante

será a tua escrita; não hesites, pois em sair

a campo aberto e lavar a face oculta

das pedras, nem de passar um trapo nos ramos mais altos

das florestas sombrias, pelos ninhos cheios de ovos.


Quando encontrares o caminho de volta para casa

e guardares as esponjas e escovas debaixo do lava-loiça,

contemplarás a luz da aurora,

o altar imaculado da tua secretária

uma superfície limpa no centro de um mundo limpo.


Então, de um pequeno copo, azul reluzente, tira

um lápis amarelo, o mais afiado do bouquet,

e cobre páginas com frases miúdas

como longas filas de formigas devotas,

que te seguiram desde o bosque.

(10 págs.)

 

Postado por: José Luís Peixoto | 03/02/2009 - 13:17
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Estou apaixonado

Pelo meu romance.

No passado dia 7 de Janeiro, escrevi a primeira palavra daquele que começa a ser o meu próximo romance.

Este romance parte de uma ideia que tive em finais de 2005 e que, desde então, se tem vindo a multiplicar pelo infinito. Em 2007 e 2008, dediquei-me à investigação acerca de alguns temas importante para o mundo do romance. Fi-lo utilizando os mais diversos meios e constituiu uma descoberta pessoal que contruibuiu para que o projecto do romance se adensasse ainda mais.

E chegou o dia 7 de Janeiro.

Por muito boas razões, tive de interromper a escrita do romance na semana passada. Espero retomá-la amanhã. Já chamei as personagens para junto de mim. Algumas já começaram a chegar.

Neste blog, irei dando conta de algumas das questões e dos temas que me forem passando pela cabeça e pelos olhos ao longo da escrita deste meu próximo romance. Assim, mais tarde, poderemos lembrar-nos de como éramos.

No final de cada post, escreverei o número de páginas que, nesse determinado momento, considere (praticamente) finais. Começo já a fazer essa contagem.

Espero que me possam acompanhar.


(4 págs.)

 

Postado por: José Luís Peixoto | 21/01/2009 - 15:07
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Obras

É uma alegria chegar aqui e perceber que os nossos pedidos tiveram eco. Este blog já tem arquivos. 

Nada será como antes.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 21/01/2009 - 14:41
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Not dead

Tenho um punk dentro de mim, debaixo da minha pele. Há vezes em que sou obrigado a pôr-me à sua frente e a segurá-lo pelos ombros, quer fugir, quer dar pontapés nos caixotes do lixo e deixá-los espalhados no meio da rua. Seguro-o como se tentasse evitar um briga. Não faças isso, não vale a pena. Na maior parte do tempo, esse punk está a dormir, sentado num passeio dentro de mim, encostado a uma parede, com as costas tortas, o pescoço torto, inconsciente, bêbado ou drogado com o perfume dos lugares onde vou. Esse punk dentro de mim não os suporta, prefere comer restos abandonados na mesa de esplanadas do que jantar de fato e gravata na casa de príncipes, prefere vomitar aguardente destilada pelo estômago do que ter de responder palavras vazias às palavras vazias dessas conversas. Já houve ocasiões em que esse punk quis puxar a toalha da mesa posta, aquilo que mais desejou foi ver o serviço inteiro de jantar suspenso por um instante no ar da sala e, depois, a desfazer-se no chão.

Esse punk não é uma metàfora ou uma ironia. É um punk a sério. Tem um casaco que é sempre o mesmo e tem uma camisola, tem umas calças que são sempre as mesmas, com remendos de G.B.H. e de Chaos UK que não tapam os buracos nos joelhos. Aliás, os remendos não servem para tapar os buracos nas calças, servem para outras coisas. Também os buracos têm uma função que, aqui, agora, seria difícil de explicar. É possível olhar para os olhos desse punk que está debaixo da minha pele. Há vezes em que todo o seu rosto está escuro, coberto de sombras e apenas se distinguem os seus olhos, fixos, a brilhar. É mais ou menos divertido que alguém possa pensar que esse punk é uma metáfora ou uma ironia porque, se há algo que ele rejeita no seu discurso são as metáforas e as ironias. Esse punk gosta de escrever frases nas paredes, gosta de repetir refrões quatro vezes e considera que tanto as metáforas como as ironias são subterfúgios que algumas pessoas utilizam para não serem directas, para serem mentirosas, para serem cobardes e se protegerem daquilo que têm para dizer, para se protegerem do olhar dos outros sobre aquilo que têm para dizer. Esse punk engana-se muitas vezes, mas não tem medo de utilizar o verbo ser.

Em conversas com outras pessoas, estando a falar ou a ouvir, é muito frequente que esse punk me esteja a sussurrar palavras ao ouvido. Tem uma voz riscada por grãos de areia. É como se a sua garganta fosse rugosa, e talvez seja. Esse punk prefere gastar aquilo que tem, prefere gastar-se, a ter tudo muito guardadinho em gavetas, apenas para ser usado em dias especiais, com muito cuidado para não riscar, para não sujar. Esse punk gosta de sujar-se. As outras pessoas têm dificuldade em entender o prazer imenso de estar sujo, de não tomar banho, de deixar o tempo acumular-se na pele, de torná-la morna, da certeza de vida que existe por baixo de tudo isso. Porque esse punk também tem muito dentro de si, também há muito debaixo da sua própria pele. Eu tenho um punk dentro de mim, debaixo da minha pele, e esse mesmo punk tem muito dentro de si. Não vou enumerar, não vou cair nessa vertigem. Vou apenas assinalá-la. Essa arqueologia pode exigir a vida inteira.

Passamos muito tempo sozinhos, eu e esse punk. Se precisamos um do outro, basta chamarmos. Entendemo-nos bem, sabemos escutar-nos e, para alám da idade, somos dois velhos. Ele é um punk velho, que nunca desistiu, que nunca baixou a voz, apesar de tudo o que inventaram para o demover, para mudar o mundo que descobriu com 14, 15 anos, ou talvez antes. Eu sou um velho que, entre outras coisas, carrega um punk velho dentro de si. Ele conhece aquilo que faço quando não o estou a ouvir, ele perdoa-me aquilo que faço contra as suas convicções. Ele finge que não vê, mas vê. E entende. Eu também conheço aquilo que ele faz e que contraria o que diz, que é o exacto oposto daquilo que diz quando se exalta com as pessoas que falam na televisão ou que escrevem nos jornais. Também eu finjo que não vejo, mas vejo. E entendo. Entendo muito bem os instantes em que ele está a tratar de si, despenteado, em que passa as mãos pelo rosto, e é como um menino frágil. Esse punk, que grita rouco, que diz que quer matar este e aquele, que quer partir isto e aquilo, é como um menino fràgil, à mercê de mil coisas que o podem matar, partir, e que o matam devagar, que o desgastam, mas às quais ele resiste, porque ele tem memória, ele não esquece.

Muitas vezes, quando estamos sozinhos, falamos de muitos assuntos, rimo-nos como pessoas normais. E ele não é esse punk que tenho dentro de mim, mas é uma pessoa com um nome, que chegou de um lugar. E eu não sou eu, sou também uma pessoa com um nome, que também chegou de um lugar. Rimo-nos. E parece-nos que não há outra pessoa que possa compreender as nossas histórias. Talvez seja mesmo assim: ficamos os dois, tatuados e rodeados de livros. Depois, quando estamos no centro de uma multidão, esse punk quer sair, mas eu digo-lhe que não, ninguém pode vê-lo mais do que apenas um pouco, quase nada. Se o vissem, os professores universitários iriam chocar-se. Apenas pelo seu reflexo, acreditariam saber tudo acerca dele. As senhoras que têm netas, filhas, deixariam de achar-me graça, ficariam baralhadas. Por isso, sou obrigado a pôr-me à frente do punk que está dentro de mim, debaixo da minha pele, sou obrigado a segurá-lo pelos ombros. Quando estamos sozinhos, sentamo-nos à mesa e, às vezes, juntos, ficamos em silêncio durante muito tempo.

*Publicado originalmente no Jornal de Letras.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 08/01/2009 - 15:39
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2009

Será um ano maravilhoso.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 08/01/2009 - 15:18
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Cá no prédio é assim

Subscrevo e estendo estes votos a todos vós, gentis condóminos deste lugar branco.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 24/12/2008 - 03:33
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A administração informa

Se o blog continuar nos moldes em que está, terei de ir apagando textos anteriores à medida que for colocando textos novos. Não existindo um arquivamento dos mesmos e estando todos em exposição nesta página única, dentro de pouco tempo, torna-se-á pouco prático, talvez mesmo inviável, deixá-los todos online neste espaço.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 24/12/2008 - 03:26
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Televisão a preto e branco

Tínhamos uma televisão a preto e branco. Sobre o ecrã estava uma tela azul de plástico. Havia dois fios que passavam sobre a televisão e que, atrás, tinham dois pesos de chumbo. A tela transformava as imagens a preto e branco, os desenhos animados, as telenovelas, os telejornais, em imagens que se moviam em diversos tons de azul. Em domingos, o sol entrava pelas janelas, torrentes oblíquas de luz sobre os mosaicos do chão da cozinha. Sei hoje que a minha mãe era nova. A minha avó vinha visitar-nos. A minha avó estava viva. Era a minha avó. Não sei que idade tinha. Começamos a saber a idade das avós apenas quando nos tornamos adultos. Quando somos crianças, sabemos que as avós são velhas. As mães são velhas porque são mães. As avós são as mães das mães. Sei hoje que a minha avó era nova. Não conheci a minha avó mais nova do que naqueles dias. Nesses domingos, eu podia estar a fazer qualquer coisa, podia estar apenas a passar pela cozinha. A minha avó estava sentada numa cadeira. A minha mãe, sob a janela, atravessada pela luz, estava inclinada sobre o lava-loiças e, com detergente, lavava a tela azul da televisão.


Às vezes, no Natal, os meus pais contavam a história de quando tinham aparecido as primeiras telefonias. As pessoas, todas em silêncio, sentadas na casa do povo à noite. Os rapazes a olharem para as raparigas. Essas eram histórias que eu conseguia imaginar, mas eu conseguia imaginar mesmo as histórias que o meu padrinho me contava do tempo da primeira república. Nesses dias, eu e os meus amigos víamos os mesmos desenhos animados e víamos as mesmas telenovelas. Falávamos disso a caminho da escola. Falávamos disso no recreio. Quando tínhamos cães acabados de nascer, davámos-lhes nomes de personagens das telenovelas. Entre os cães que tive, havia o Neco e o Quintanilha. Havia também a nossa cadela mais querida, aquela que vi nascer, que vi morrer e que aprendi a respeitar, que recordo sempre com todo amor que é possível entre uma pessoa e um animal, a Grisla, que tinha o nome da mãe de um ursinho dos desenhos animados, o Misha, mascote dos jogos olímpicos de Moscovo em 1980. No recreio, chamávamos nomes de personagens das telenovelas uns aos outros. Se havia um par de namorados, chamávamos-lhes os nomes das personagens que eram o casal mais apaixonado da telenovela. Alguns desses nomes duram até hoje. Alguns desses nomes, já passaram para os filhos. O Nacibe, o Mundinho ou a Gerusa fizeram com que, mais tarde, existissem também o Nacibe pequeno, a filha do Mundinho ou Gerusa pequena. As minhas irmãs compravam revistas brasileiras que tinham entrevistas dos actores das telenovelas. Eu lia essas revistas. Lia as fotonovelas: "Você já não me ama", "Amo sim"... Continuava a folhear páginas e dizia: "Olha a Malvina!" Eram personagens do "Casarão", ou da "Escrava Isaura" ou do "Dancing Days". No início de cada ano lectivo, as minhas irmãs reuniam essas revistas, tesouras e rolos de fita-cola sobre a mesa da cozinha. Depois, começavam a recortar as fotografias dos actores das telenovelas. Forravam os livros com essas fotografias e, depois, forravam essas fotografias com folhas de plástico. Eu haveria de estudar mais tarde por alguns desses livros, livros de geografia, gramáticas, livros com exercícios de matemática resolvidos a lápis. No seu interior tinham frases escritas por caligrafias de raparigas sobre o amor, frases que carregavam a esperança que as raparigas daquelas idades tinham sobre o amor. Raparigas de treze anos, que andavam no oitavo ano. Raparigas que imaginavam palavras como "amor", "paixão", "beijo", "carícia". Raparigas de treze anos que dançavam slows em matinés e em festas de anos. À hora da telenovela, oito e meia da noite, toda a gente sabia que não havia ninguém na rua. As mulheres que não tinham televisão, as mais velhas, as mais pobres, iam para casa de vizinhos. Sentavam-se muito direitas nos sofás. Os homens ficavam nos cafés. Em nossa casa, as minhas irmãs zangavam-se se alguém falava durante a telenovela. Pediam aos meus pais para se calarem. Ao fazê-lo, falavam. Os meus pais diziam que elas é que estavam a falar. De uma frase, nascia uma discussão que só parava quando as minhas irmãs ou os meus pais, sem estarem convencidos, deixavam de responder.


Eu e os meus amigos sabíamos que existiam televisões a cores, mas nunca tínhamos visto nenhuma. Quando alguns dos rapazes que andavam comigo na escola começaram a ter televisões a cores, não foi algo que nos surpreendesse. Nós sabíamos que existiam televisões a cores. No entanto, foi espantoso ver a abelha Maia ou o Dartacão pela primeira vez a cores. As cores. Às vezes, alguns dos rapazes que tinham televisões a cores deixavam-nos ver os desenhos animados na casa deles. As mães entravam e punham-se à frente da televisão. Tentavam oferecer-nos pão com tulicreme. Nós recusávamos de cabeça baixa, dizíamos "Não, obrigado". Outras vezes, viravam-se para os filhos e, como se nós não estivéssemos ali, diziam: "Jà te disse para não trazeres esta cachopada toda cá para casa". Às vezes, durante as brincadeiras, os rapazes que tinham televisões a cores diziam: "Se não me passares a bola para marcar golo, se não me emprestares o teu carrinho vermelho, se correres mais depressa do que eu, não te deixo ir a minha casa ver os desenhos animados." Às vezes, os rapazes que tinham televisões a cores escolhiam dois ou três entre o grupo de rapazes que estava a brincar na rua e, na hora dos desenhos animados, iam com eles para casa ver televisão. Nós ficávamos a vê-los enquanto desciam a rua e não conseguíamos fingir que não nos importava.


No dia em que o meu pai trouxe a nossa televisão a cores, já há muito tempo que eu dizia aos meus amigos que íamos ter uma televisão a cores. Poucos se impressionaram. Eu, no entanto, estava impressionado. Fui com o meu pai à loja. Entre televisões, o meu pai disse-me: "É uma destas." Depois, a carregá-la, tão pesada. Depois, a chegarmos a casa. A minha mãe a ver tudo. Eu, um pouco mais perto, a participar um pouco mais. O meu pai a tirar a televisão de dentro da caixa de cartão, a separar as proteções de esforovite. A televisão a preto e branco a ser tirada do seu lugar como algo que envelheceu. A minha mãe a limpar o pó do móvel e a televisão nova, brilhante. O meu pai começou a sintonizar os dois canais que existiam e a primeira imagem que apareceu foi um jogo entre o Benfica e o Estoril Praia. Eu conhecia os jogadores quase todos, conhecia as cores dos seus equipamentos. Tinha uma caderneta de cromos com as suas fotografias e os seus números. Eu e os rapazes da minha idade, trazíamos sempre connosco os cromos que tínhamos repetidos. Trazíamos sempre connosco uma lista, escrita à mão, com os números dos cromos que nos faltavam. O primeiro a acabar a colecção ganhava uma bicicleta que estava na montra do café do terreiro. Todos sabíamos quando alguém tinha acabado a colecção, todos sabíamos quem tinha ganho a bicicleta. Eu nunca acabei a colecção primeiro. Uma vez, ganhei uma bola. No primeiro dia em que tívemos televisão a cores, fiquei a ver o jogo de futebol. Teria ficado a ver outra coisa se fosse outra coisa que estivesse a dar na televisão. Depois, cresci.


Hoje, o meu filho e as minhas sobrinhas têm televisão por cabo. Têm canais que só passam desenhos animados. Há muitas telenovelas diferentes. Às vezes, no Natal, conto-lhes a história de como, quando eu era da idade deles, tinha uma televisão a preto e branco com uma tela azul de plàstico. Nem o meu filho, nem as minhas sobrinhas sabem a minha idade ao certo. Um dia, os meus filhos saberão que, hoje, ainda sou novo. Nesse dia, o meu filho e as minhas sobrinhas contarão as histórias de hoje a crianças que nâo conhecerei. Talvez nesse dia eu esteja, na cozinha, com as minhas irmãs, os meus pais e a minha avó a ver a nossa televisão a preto e branco.

*Publicado originalmente no Jornal de Letras.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 16/12/2008 - 03:36
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Aqui já é Lisboa

COUNTRY ROAD TAKE ME HOME

A montanha de trabalho que tinha deixado antes de partir, estava completamente intacta.
Para combatê-la, tenho dormido cerca de 10 horas por dia (mínimo).

 
UNS AQUI, OUTROS ALI

Já depois de chegar, percebi que, das duas encomendas que me pediram para trazer, conhecia previamente tanto os mexicanos que me pediram para trazê-las como os portugueses que as vão receber. Ao mesmo tempo, durante a minha estadia, houve três portugueses que também estavam no México e que, apesar de nos contactarmos, não cheguei a encontrar.
Além disso, o roaming. No México, mensagens de um telemóvel (celular) português enviadas para um telemóvel uruguaio. Ou seja, uma mensagem que vai do México para Portugal para o Uruguai e para o México. E, depois, responde-me. Ou seja, uma mensagem que vai do México para o Uruguai para Portugal e para o México.
Afinal, qual é o tamanho do mundo? 

 MÁQUINA FOTOGRÁFICA

Encontrei-a. Estava num bolso escondido da minha mochila. 
 

CONFÚCIO

Em Sayula, um aluno da escola onde estive, citou Confúcio. Disse: Se sabes como resolver o problema e não o fazes, então, estás pior do que antes.
Eu já conhecia esta frase antes de ouvi-la por lá. Mas foi bom recordá-la. É uma dessas frases que não se devem esquecer.


BLOG

Um pouco por conselho de Confúcio, um pouco por senso comum, este blog irá abrandar nos próximos tempos. Agora, há que aguentar o impacto do muito trabalho que tenho pela frente. Falo-ei com um sorriso. Estamos cá para isso.
Nos próximos meses, o meu ritmo de viagens será muito mais calmo daquilo que foi a média deste 2008. A razão para esse pousio tem a ver com a escrita. Novos mundos e novas personagens irão chegar às páginas escritas.
Ainda assim, "calmo" é um adjectivo muito realtivo. Apesar de não haver diário do México, o blog continuará a bom ritmo e espero que a merecer a vossa visita.


AGRADECIMENTOS

Agradeço muito a todas as pessoas que passaram por aqui nestes dias e que, desse modo, me fizeram sentir mais acompanhado nesta viagem. É um privilégio poder partilhar estes pormenores da vida convosco.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 10/12/2008 - 12:49
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Imagens quase aleatórias 1

 

Postado por: José Luís Peixoto | 10/12/2008 - 12:36
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Imagens quase aleatórias 2

 

Postado por: José Luís Peixoto | 10/12/2008 - 12:35
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Imagens quase aleatórias 3

 

Postado por: José Luís Peixoto | 10/12/2008 - 12:34
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Imagens quase aleatórias 4

 

Postado por: José Luís Peixoto | 10/12/2008 - 12:33
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Imagens quase aleatórias 5

 

Postado por: José Luís Peixoto | 10/12/2008 - 12:32
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Imagens quase aleatórias 6




Todas as fotos anteriores foram tiradas por mim.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 10/12/2008 - 12:23
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Aqui ainda é Guadalajara

PÁGINAS DEL MUNDO

Ontem, teve lugar o evento mais importante de entre os que participei aqui na Feira Internacional do Livro de Guadalajara (FIL) - refiro-me a “Páginas del Mundo”. Um evento para o qual fui um dos três autores convidados, juntamente com Kiran Desai e Yuri Andrujovich. Estar nessa posição foi, aliás, o que me permitiu ter tanto destaque nesta FIL. A sala estava cheia e a conversa com Amelia Guardiola correu muitíssimo bem. A mesma foi precedida da leitura de um excerto de Cemitério de Pianos (momento em que Simão fica cego) pelo actor Ricardo Delgadillo. Para mim, foi uma conversa muito à flor da pele, na qual estive sempre muito frágil (e creio que se notou) pelo facto de ter sido o dia do septuagésimo aniversário do meu pai. A conversa decorreu toda à volta do Cemitério de Pianos, o que contribuiu para essa fragilidade. Contei o significado daquela data para mim e, falando das personagens, falei do meu pai, falando da oficina do romance, falei da oficina do meu pai, falando do mundo do romance, falei do nosso mundo, da nossa vida, daquilo que passámos juntos, daquilo que me ensinou e legou. Hoje, em vários jornais mexicanos, ao referirem-se à conversa de ontem, referiram-se aos setenta anos do meu pai. Sei que isso o deixaria feliz.

FOTOS (PARTE I)

Passei a manhã de hoje a ser fotografado num cemitério por uma fotógrafa americana, que tinha encontrado na Feira do Livro de Brooklyn e que, apesar de termos tentado combinar algo na altura, não conseguimos chegar a fazer uma sessão de fotos. Aconteceu hoje. É uma new yorker típica. Cada vez que passávamos por um cão a dormir, ficava muito preocupada e dizia muito séria que estava morto. Por várias vezes, vi-a a cheirar flores de plástico, pensando serem verdadeiras. Gringos serão sempre gringos.

PLACER DE LA LECTURA

Hoje, às 5 e meia da tarde, tive uma conversa que me deu muito, muitíssimo prazer com Benito Taibo sobre o prazer da leitura. A assistir estariam entre 150 a 200 pessoas. Tive oportunidade de falar das minhas leituras, dos livros que me têm marcado ao longo da vida. Infelizmente, nem sempre tenho oportunidade de falar sobre os livros que leio. Nem sempre me perguntam isso e tenho o hábito de responder ao que me perguntam. Foi muito bom. Se tivesse ido de blazer, óculos e barba, até talvez houvesse quem me considerasse um intelectual (ironia, quase). O Benito Taibo foi ultra-simpático, muito inteligente e bem-humorado. Tentei acompanhá-lo. No final dei mais duas entrevistas, as últimas. Autógrafos, fotos, sorrisos, etc. Mais uns tempos e acho que seria capaz de acostumar-me a esta rotina (ironia, sem “quase”). Na parte dos autógrafos, houve quatro pessoas que me confessaram ter roubado os livros. Fiquei muito feliz. Eu próprio, no final da conversa de ontem, os tinha incentivado a fazê-lo. Os livros espanhóis chegaram a um preço proibitivo. Ainda assim, venderam-se (ou roubaram-se) todos os que vieram. Na próxima vez, felizmente, já estarão a preços mais acessíveis porque, desta viagem, resultou o interesse de duas editoras mexicanas em publicá-los localmente.

FOTOS (PARTE II)

Hoje, perdi a minha máquina fotográfica. Tem sempre de haver alguma coisita assim. Não é que estrague tudo, mas relembra a imperfeição de todos os momentos. Não sei se a roubaram (justiça providencial por incentivar o roubo de livros?) ou se a perdi. Seja como for, está e fica em Guadalajara.

Simultaneamente, saiu hoje num jornal daqui a fotografia publicada mais feia que alguma vez me tiraram. Num artigo sobre a conversa de ontem, numa foto de quase um quarto de página de jornal, estou com o indicador esticado sobre a cara, como se estivesse a coçá-la, com os olhos semi-abertos (semi-fechados).

24 HORAS

Hoje, tem sido um dia algo nostálgico porque, amanhã cedo, começo uma viagem que durará exactamente 24 horas (contando com o acerto da hora). Paragem na Cidade do México e em Madrid. Hoje, tive sempre consciência de que tudo o que estava a fazer era feito pela última vez nesta primeira visita que fiz ao México: última torta ahogada, última visita à Feira do Livro e despedidas sucessivas. E estes leitores, a transbordarem afecto e generosidade. E as filas intermináveis para comprar bilhete para entrar na Feira. Já tenho saudades e ainda estou aqui.

Levo o coração cheio deste país. Apesar de terem sido dias vividos até ao limite, aquilo que mais me impressiona é o tanto que ficou por viver, por conhecer e por saborear. Regressarei aqui, vezes e vezes e vezes.

O balanço será feito já em Portugal, no domingo. Esse será o último episódio desta série mexicana. Agora, há ainda uma noite e há muitas coisas que tenho de fazer pela última vez nesta primeira (mas não última) visita ao México.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 06/12/2008 - 01:51
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Hotel doce hotel

Foto minha (quando ainda tinha máquina).

 

Postado por: José Luís Peixoto | 06/12/2008 - 01:47
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Pai

José João Serrano Peixoto

n. 4 de Dezembro de 1938





SONG TO HALL UP HIGH

I know you watch over me
Father of all the past
And all that will ever be
You are the first and the last

The watcher of all that lives
The guardian of all that died
The one-eyed God way up high
Who rules my world and the sky

Northern wind take my song up high
To the Hall of glory in the sky
So its gates shall greet me open wide
When my time has come to die


Bathory, in Hammerheart (1990)

 

Postado por: José Luís Peixoto | 04/12/2008 - 15:24
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Flores

Foto minha.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 04/12/2008 - 15:14
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Arriba, arriba, ándale, ándale

LEITURA DE POESIA

Eu bem disse que estava pronto.

Ontem(2/12/2008), às 18 horas, começou a leitura de poesia. Não foi estritamente uma leitura de poesia, houve também alguma contextualização dos poemas. Foi uma hora e meia feita de palavras, mas não tenho palavras para descrevê-la.

A sala onde, uma vez por dia um autor lê poesia, é algo íntima, quando comparada com as outras. Terá talvez uns 50 lugares sentados em sofás, dispostos um pouco por todo o lado, que não estão necessariamente virados para o palco, mas que não estão de costas para o autor e o apresentador. Estavam umas 80 pessoas. O chão é alcatifado.

Espero que não tenha sido da tequilla, que era distribuída gratuitamente (tomei duas), mas, no final, por sugestão do público ofereci cada uma das páginas. Tive de autografá-las todas. E tivemos de sair e terminar do lado de fora porque ia começar a actividade que estava marcada para uma hora depois do fim da leitura.

Pela segunda vez no México, houve uma pessoa que se agarrou a mim a chorar. É impossível ficar indiferente a isso. Se não mencionasse esse detalhe para mim próprio, eu não seria eu.

MAESTRO JOSÉ

Sayula fica a cerca de uma hora e meia de Guadalajara. É a pequena cidade onde nasceu o escritor Juan Rulfo. Hoje (3/12/2008), às nove e meia da manhã, estava a sair do hotel para ir falar à escola preparatória (que é o nome que aqui dão às escolas secundárias/liceus). Quando eu e os meus acompanhantes (chamam-lhes os meus “anfitriones”) chegámos, estavam os professores de fato e gravata à nossa espera, as professores com vestidos prateados, dourados.

Escola pintadinha, linda. Fui caminhando de braço dado com o director, sempre com duas ou três pessoas à nossa frente a tirarem-nos fotos. O director ria-se com gargalhadas que contagiavam.

Entrei na sala cheia de alunos, 16/17 anos, gritaria total. Na mesa, à minha frente, uma placa a dizer “Maestro José Luís Peixoto”.

Começo a falar. No meio do que ia dizendo, li o poema “el la hora de poner la mesa...”, li o primeiro parágrafo do “Te me moriste” e li um parágrafo de “Una casa en la oscuridad”. Eu e aquela centena de adolescentes tivemos a mesma idade (se calhar ainda temos), rimo-nos das mesmas coisas e fizemos os mesmos silêncios. Eu suspirava e sentia um pequeno suspiro colectivo.

No final, estávamos de acordo que Sayula é uma espécie de Galveias (vila onde nasci). Abri um livro e fui dizendo o número das páginas. Assim se rifaram uns seis ou sete livros. Ofereci os que levava para a biblioteca. As dedicatórias que escrevi nesses livros foram lidas em voz alta pelo director. Terminámos e deixei de ver a luz durante uns minutos, comecei a autografar tudo o que me punham à frente: livros, papéis, mochilas, etc. Autografei três braços.

Dezenas de fotos de telemóvel depois, um rapaz pediu para falar comigo em inglês. Queria dizer-me que escrevia poesia. Queria falar em inglês porque não queria que os colegas entendessem.

DON JOSÉ

Além do Juan Rulfo, Sayula é conhecida pela sua produção artesanal de facas. Levaram-me a conhecer o decano dos fabricantes: Don Jose Ojeda. Não sei que idade terá. Oitenta? Arrisco esse número.

Enquanto o ouvia falar não podia deixar de lembrar-me do CD que tenho do Juan Rulfo a ler alguns contos de El llano en llamas. Esta é a região desse livro e a maneira como Don José fala é a forma de falar desse livro, usam a mesma linguagem, a mesma entoação das palavras.

Juan Rulfo nasceu en Sayula, mas nunca residiu aqui, viveu a alguns quilómetros. Em Sayula, viveu o tio de Juan Rulfo, dois quarteirões abaixo, grande amigo de Don José. Foi buscar uma moldura, onde está o tio de Juan Rulfo, quando ainda era jovem de sombrero. Eu e Don José ficamos a falar.

Normalmente, tenho alguma dificuldade de conversar com pessoas mais velhas. Por respeito. No entanto, sou capaz de ouvi-las muito bem. Com os velhos da minha terra, aqueles que me eram mais próximos, sempre fui avançando muito lentamente na minha confiança, perseguindo devagar a confiança que eles me davam e fazendo por merecê-la. Tratar uma pessoa mais velha como igual sempre me pareceu uma falta de educação, ou um mal-entendido, cometido pelas pessoas das cidades, que eram de fora e que não sabiam como nos comportamos. Sempre fui educado assim. Nunca fui de tratar pessoas mais velhas por tu, de negar-lhes alguma coisa que me pedissem ou de contradizê-las.

Desse modo, a minha relação com os velhos importantes na minha vida sempre foi de empatia, afecto profundo, mas de pudor. Sempre foi de respeito. Foi exactamente isso que aconteceu com Don José. Fiquei a ouvir as suas histórias, anedotas que lhe contava o tio do Juan Rulfo, a ouvi-lo dizer-me que não lhe faltava trabalho porque, passo a citar, “o mundo é infinito e a arte é infinita”.

E mostrou-me as facas mais valiosas que possui: lâminas trabalhadas, cabos de ouro, de marfim, etc. E andámos pela sua oficina, com calendários de mulheres nuas na parede, exactamente como na oficina do meu pai.

E tomámos ponche de romã juntos, tomámos mezcal e deu-me uma garrafa do seu mezcal. Com essa, são três as garrafas que já me ofereceram. Não sei se poderei levá-las todas (excesso de bagagem), mas essa vou levar de certeza.

Sussurrou-me que há anos que anda a anotar todas as suas histórias, disse-me que na próxima vez, mas mostrará - na próxima vez. E deu-me um livrinho que fez para promover a sua oficina, mas que apenas tem uma página a falar da oficina, o resto é ocupado por jóias como esta: “Que triste es llegar a viejo, es un constante sufrir. El chile se hace pellejo, la vieja te hace pendejo, todo se te va en dormir y aunque tengas buena vieja no te la puedes subir.”

UMA IMAGEM AVULSA DE GUADALAJARA

O pai que vai à frente a carregar uma cesta de chicharrón (uma espécie de torresmos) e o filho, de oito ou nove anos, que vai atrás, que o segue para todo o lado, a carregar um balde, literalmente um balde, cheio de molho vermelho e picante.

FIESTA

Todas as noites há festa em Guadalajara. Hoje, é em La Mutualista. Lá estarei, claro.

Creio que o dj não “tocará” techno minimal. (esta fica para quem for capaz de a entender).

 

Postado por: José Luís Peixoto | 04/12/2008 - 01:37
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On the road

Foto minha.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 04/12/2008 - 01:33
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Tradução Peixotão

ENTRECHÃO

Um roupeiro, um espelho, uma cadeira,
nenhuma estrela, o meu quarto, uma janela,
a noite como sempre, e eu sem fome,
com uma pastilha e um sonho, uma esperança.
Há muitos homens lá fora, em todas as partes,
e mais além a névoa, a manhã.
Há árvores geladas, terra seca,
peixes parados idênticos à água,
ninhos dormindo sob frágeis pombas.
Aqui, não há uma mulher. Falta-me.
Desde há dias que o meu coração quer fincar-se
debaixo de alguma carícia, uma palavra.
É áspera a noite. Contra muros, a sombra,
lenta como os mortos, arrasta-se.
Essa mulher e eu estivemos colados com água.
A sua pele sobre os meus ossos
e os meus olhos dentro do seu olhar.
Matámo-nos muitas vezes
ao pé da alba.
Recordo que recordo o seu nome,
os seus lábios, a sua saia transparente.
Tem os peitos doces, e de um lugar
a outro do seu corpo há uma grande distância:
de mamilo a mamilo cem lábios e uma hora,
de pupila a pupila um coração, duas lágrimas.
Amo-a até ao fundo de todos os abismos,
até ao último voo da última asa,
quando a carne toda não for carne, nem a alma
for ama.
É preciso amar. Isso já sei. Amo-a.
É tão dura, tão frágil, tão clara!
Esta noite, falta-me.
Sobe um violino desde a rua até à minha cama.
Ontem vi dois rapazes que, diante de uma montra
de manequins nus, se penteavam.
O silvado de um combóio preocupou-me por três anos,
hoje sei que é uma máquina.
Nenhum adeus é melhor do que o de todos os dias
a cada coisa, a cada instante, alto
o sangue iluminado.


Desamparado sangue, noite branda,
tabaco da insónia, triste cama.


Vou para outra parte.
E levo a minha mão que tanto escreve e fala.


Por Jaime Sabines
Do livro: Recuento de Poemas 1950/1993
Traduzido por J.L.Peixoto

 

Postado por: José Luís Peixoto | 02/12/2008 - 16:59
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Lunes

Em Guadalajara, está um tempo que, muitas vezes, não temos em Portugal no Verão. Está uma espécie de Primavera com aroma de Verão, muito sol, o que ajuda bastante a sorrir. Ontem, para além das várias entrevistas, que correram todas de forma excelente, foi sobretudo um dia para descansar. Andei sempre com os meus acompanhantes, que são muitíssimo simpáticos, embora às vezes seja estranho para mim ter sempre duas pessoas à minha volta. Acontece sentir-me responsável por eles e sentir que tenho de estar sempre divertido para que eles sintam que estão a fazer um bom trabalho. E estão.

À tarde, encontrei a minha editora francesa, um amigo poeta espanhol que vive no Uruguai e uma fotógrafa norte-americana, com quem fiquei de tirar umas fotos em Nova Iorque mas, depois, não tive tempo. Estes encontros parecem-me formar a imagem nítida de um certo aspecto da minha vida. Eu sou a única coisa que estas pessoas têm em comum. Cada uma delas vive no seu canto do mundo, na sua vida. São desconhecidos uns dos outros. Depois, existo eu, que carrego uma rede de muitas pessoas assim. Pessoas que existem nos contextos mais díspares e que se ignoram mutuamente. Muitas vezes, sinto-me um fantasma entre todas elas. Estou, mas não estou. Como Cassandra, a saber, mas a não poder contar a ninguém, porque ninguém acredita.

Hoje, terça-feira, começará o contacto real com o público presente nesta Feira do Livro, que impressiona pelas suas dimensões e pelos milhares de pessoas que a preenchem a todas as horas. Será às 18 horas, leitura de poesia.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 02/12/2008 - 16:33
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Domingo familiar

TEOTIHUACAN

Neste momento, é-me difícil encontrar palavras para descrever Teotihuacan. Passei lá a tarde e, neste momento, parece-me irreal. Se a foto abaixo não for suficiente, sugiro o google: Teotihuacan. Não há dois lugares com esse nome.


GUADALAJARA

Já estou em Guadalajara. Vou andar sempre acompanhado pelo Raúl e pelo Mário. A agenda, impressa num papelinho que tenho aqui à minha frente, está cheia. Amanhã, até às duas da tarde, terei dado 5 entrevistas seguidas: 3 jornais, 1 rádio e 1 televisão. As conversas ao vivo com o público começam na terça e vão ao ritmo de uma por dia, sendo a última na sexta.
A Feira do Livro de Gudalajara é a segunda maior do mundo, depois de Frankfurt.
No fear. Estou pronto.


ALGUMAS COISAS QUE APRENDI HOJE SOBRE O MÉXICO

- Na Cidade do México, há edifícios de 6/7 pisos em que, em cada andar, existem diversas salas, nas quais estão a decorrer velórios. Ou seja, tratam-se de prédios com algumas dezenas de funerais a decorrer em simultâneo e em permanência.

- Eu vi na Praça Garibaldi, mas contaram-me que é muito frequente em festividades, etc. Aqui, há pessoas que vendem choques eléctricos. Ou seja, andam com uma pequena bateria e dois cabos que acabam em dois tubos de ferro. Então, mediante o pagamento de 10 pesos, as pessoas seguram nos dois tubos e apanham um choque. Uns dizem que faz bem, outros dizem que faz mal. Uns dizem que é bom, outros dizem que é uma estupidez.


ALGUMAS COISAS QUE NUNCA TINHA FEITO ANTES DE VIR AO MÉXICO

- Comer insectos.
- Andar num táxi em que o taxista não tem o braço direito.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 01/12/2008 - 06:45
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A Pirâmide da Lua vista da Pirâmide do Sol

Foto minha.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 01/12/2008 - 06:42
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Maria Vicência Delfino

Enganei-me duas vezes. A mãe do meu pai chamava-se Maria Vicência.

Não quero arranjar desculpas para o meu engano, até porque não foi há muito tempo que tive uma conversa com a minha mãe sobre a minha avó paterna, mas aproveito para dizer que o lapso de lhe chamar Claudina tem a ver com o facto de o meu avô materno se chamar Luís Claudino, que também não conheci (o único avô que estava vivo quando nasci foi a minha avó materna); depois, o lapso de lhe chamar Delfina tem a ver, percebi agora, com o seu próprio sobrenome. Enfim...

Agradeço à minha irmã Anabela e ao meu primo José pelas chamadas de atenção.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 01/12/2008 - 06:39
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Para todo bien

MUSEO-CASA LEON TROTSKY

Ontem, de manhã. Comovente.


TIANGUIS DEL CHOPO

Ontem, à tarde. Tianguis del Chopo ou, simplesmente, El Chopo, é um grande mercado de culturas alternativas que acontece todos os Sábados na Cidade do México. Muita música pesada e dark, muita mesmo. A minha bagagem duplicou. De todos os lugares do género que conheço, e creio que conheço muitos, El Chopo é apenas comparável com a Galeria do Rock em São Paulo. Uma espécie de Camden Town, em Londres, se, além das roupas, existissem também milhares de CDs e de DVDs e tudo o que diz respeito a culturas ligadas ao rock mais marginal, inclusivamente livros. Se eu vivesse aqui, não sei bem o que seria da minha economia. Suspeito que, entre livros e discos, seria expulso de casa pelos livros e pelos discos. Se agora já tenho pouco espaço, e o receio de algum dia acordar (ou não acordar) debaixo de um terramoto de livros, se vivesse aqui, com a ajuda de El Chopo, seria muito pior. Basta dizer que, mal cheguei, encontrei logo o CD de Daemonarch. Agora, está aqui à minha frente. Mas não existe apenas música, existe tudo. Concertos ao vivo e milhares de coisas que nem se imagina que existam. Estou com pouco tempo e, por isso, deixo estas imagens para quem tiver curiosidade:



E este sobre algumas das personagens que se podem encontrar em El Chopo:



ALGUMAS COISAS QUE APRENDI ONTEM SOBRE O MÉXICO

- Dois dizeres populares mexicanos de grande sabedoria:
1 - Para todo mal, mezcal; para todo bien, también.
2 - Viernes, social; sabado, sexual; domingo, familiar.

- Os mexicanos não cantam a canção dos parabéns nos aniversários. O “cumpleaños feliz” espanhol não se canta no México. Em vez disso, nos aniversários, canta-se uma canção bastante diferente, com outra melodia, chamada “las mañanitas”.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 30/11/2008 - 13:28
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Quando eu chegar, há um certo filhinho que terá uma t-shirt de Slayer para usar no infantário

Foto minha.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 30/11/2008 - 13:16
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Pedido de desculpas à minha avó Delfina

É muito normal que existam imprecisões, maiores ou menores, nas entrevistas. É muito raro quando não existe. Não vejo nenhum drama nisso. É uma mostra dos mal-entendidos que sempre existem e expõe uma parte daqueles que deverão ser os mal-entendidos que existem normalmente, nas conversas de todos os dias.

Ontem, saiu um artigo sobre a mim no jornal Milenio, baseado numa entrevista. Esse artigo tem algumas imprecisões que nasceram, justamente, desses pequenos mal-entendidos. Como disse, não vejo nenhum drama nisso e não me incomoda. Aquilo que me frustra e me deixa o coração apertado. Foi que, pela primeira vez numa entrevista, perguntaram-me o nome dos meus avós e eu enganei-me no nome da minha avó materna. Acaba por ser triste porque creio que a sua memória merecia muito essa referência.

Nunca a conheci. A minha avó Delfina morreu alguns anos antes de eu nascer. Sei sobre ela que deu à luz o meu pai em 1938 e que, nessa altura, tinha 46 anos. O meu pai e os meus tios eram 6 irmãos, mas, ao longo da vida, a minha avó Delfina teve 12 filhos, 6 dos quais morreram na infância. Sei também que tinha epilepsia e, segundo descrição da minha mãe, tinha a língua toda retalhada por mordê-la durante os ataques.

Aqui está o artigo do jornal Milenio. Onde se lê “Claudina” deve ler-se “Delfina”.


LA REALIDAD, ÚNICA SUMISIÓN DE LA LITERATURA: PEIXOTO

Y muchas veces, cuando tengo dudas o cuando pienso por qué lo hago, lo hago por ellos, lo hago para decir y hablar con su voz”, dice José Luís Peixoto al referirse a sus abuelos paternos: José y Claudina y, maternos: Luis y Joaquina.
Este joven escritor portugués ha sido considerado junto a Kiran Desai, de India, y Yuri Andrujovich, de Ucrania, las presencias más importantes de literatos en la XVII Feria Internacional del Libro de Guadalajara (FIL).
“Un interés por la gente sencilla, la sabiduría de la geste iletrada” se trata de un interés constante en su búsqueda artística; su obra circula alrededor de las relaciones familiares, las que tal vez él mismo cultivó en el envejecido pueblo de Galveias, donde vivió hasta los 18 años.
Quizá, también por ello, este joven de 34 años con varios pearcing en su rostro y algún tatuaje en su cuerpo, con frecuencia cosecha expresiones como éstas de Saramago: “una de las revelaciones más sorprendentes de la literatura portuguesa actual”.
Su obra (novela, poesía, dramaturgia, artículos) permite asomarse a aquel pueblo árido, sus viejos, los jóvenes que hoy huyen demasiado pronto, pero que en sus tiempos corrían cada mes a la plaza del pueblo con la ansiedad de elegir la mayor cantidad de libros posible en la biblioteca itinerante.
En su obra también puede verse su casa, aquella que figura en al menos uno de sus libros (Una Casa en la oscuridad), “muchas veces que me parece que nunca salí de ahí. Todavía esa es mi casa, siempre será mi casa”, dice.
Este artista, al que se le reconoce una gran fuerza expresiva, con una prosa muy lírica publicó su primera novela, Nadie nos mira, a los 26 años de edad, con ella obtuvo el Premio José Saramago y rápidamente empezó a cosechar lectores por miles.
De México sólo conocía sus escritores. A Juan Rulfo llegó tarde, dice, pero le fascina. “Hoy la literatura va por muchos caminos. En mi propia concepción literaria el punto central es el ser humano. Me parece que es una manera de intentar conocernos unos a otros, son puentes entre personas”.
Su obra y su ideario coincide así con Gao Xingjian, el Premio Novel de la Literatura en 2000: “Lo único a que debe sumisión la literatura es la realidad (...) Las experiencias y enseñanzas ajenas que no pasan por el filtro de la propia vivencia acaban convertidas en simple conocimiento libresco”.
El escritor portugués habla de sus expectativas literarias, éstas tienen que ver con contestar a las cuestiones que toda la gente tiene y que siguen presentes en la literatura desde siempre: quién soy, para dónde quiero ir, qué pienso sobre la vida, la muerte, la felicidad, Dios.
“Son cuestiones para las que a lo mejor nunca tendremos una respuesta definitiva, pero me parece que es importante que uno vaya intentando alcanzar una respuesta, sea cual sea”, finaliza.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 30/11/2008 - 13:15
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Hoy en la Arena México: Los Perros del Mal vs. São Judas Tadeu

A CHARLA DE ONTEM

Ao meio-dia, ontem, estava a começar a conversa na Facultad de Estudios Superiores de Acatlán (http://www.acatlan.unam.mx/). No início, uma fadista mexicana a interpretar dois temas acompanhada de dois guitarristas também mexicanos. Se algum dia precisarem de fadistas estrangeiros, perguntem-me a mim. Ao longo do tempo, tenho vindo a acumular algum conhecimento e experiência sobre pessoas que, em diversas partes do mundo, se apaixonam pelo fado, muitas aprendem a língua portuguesa por causa disso. Seria interessante um encontro, em Portugal, de fadistas estrangeiros. Ontem, em Alcatlán, a canção portuguesa esteve presente numa excelente voz e no entusiasmo de dois guitarristas, entre os quais um rapaz de 15 anos, a jurar que o fado é um sentimento a que não é capaz de escapar.

Depois, a leitura, a conversa, as perguntas, conversa, leituras, conversa, até às 3 horas da tarde. Apesar de já ter visto muito, continuo a surpreender-me. É impressionante a resistência e o interesse que se nota nas pessoas que têm participado nestas apresentações. O fim chega porque há um momento em que se olha para o relógio e nos apercebemos que já passaram horas. As pessoas ficam até ao fim e inclinam-se para a frente nas cadeiras. Há pessoas a filmar com telemóveis, com máquinas fotográficas e com máquinas de filmar. Há gravadores pousados à minha frente na mesa e há pessoas nas primeiras filas com gravadores apontados para mim. A maneira como vejo este público mexicano é a do cínico que, não acreditando no amor, se apaixona e percebe o quanto se enganou.

Além disso, estou muito contente com aquilo que disse, tanto ontem, como nos dias anteriores. Houve várias pessoas que estiveram em mais do que uma charla e, por isso, fiz um esforço para não me repetir demasiado. Creio que consegui.

No final, foram rifados alguns livros meus e fui eu que os sorteei, folheando as páginas de um deles e dizendo os números que calhavam. As “rifas” eram distribuídas à entrada e consistiam nuns marcadores de livros com uma foto e alguns poemas meus. Ou seja, no final, havia dezenas de marcadores para autografar. Não repeti um único autógrafo. Além disso, de novo, livros, cadernos - houve um rapaz que me pôs um caderno à frente e me pediu para escrever uma definição de amor. E fotografias, muitas.



ALGUMAS COISAS QUE APRENDI ONTEM SOBRE O MÉXICO

- No México, o dia 28 de cada mês é o dia de São Judas Tadeu. Na rua e no metro, há pessoas de todos os géneros, dezenas, centenas, que passam a carregar imagens de São Judas Tadeu. Vão ser abençoadas numa igreja do centro da cidade. As imagens podem ser grandes (mais ou menos um metro) ou pequenas (alguns centímetros). Podem ir ao colo, abraçadas, ou na mão. Quase sempre envoltas por uma grande quantidade de rosários. Às vezes, há alguns homens que passam vestidos de São Judas Tadeu. Em todas essas pessoas, a fé é muito evidente.

- A língua náhuatl atravessa o espanhol que se fala no México e está presente nos mais diversos contextos. Exemplo muito frequente (tirado do dicionário de náhuatl que a Berenice me ofereceu): Chingar. tr. y prnl. Verbalización de chinco o chingo, “en el culo” (véase tzinco en esta sección). De tzintli, culo, ano, -co, part. locativa. Para el análisis de esta voz y de sus numerosas acepciones en México vease el Apéndice v.
Não resisto a deixar um verso de um livro de poesia náhuatl (tirado de um volume bilingue que me foi oferecido en Acatlán): Yan cuecuepontimani icniuhxochinquahuitl; que significica em espanhol: Ya echa brotes el árbol de la amistad. (Não tive de procurar muito, as palavras náhuatl são gigantes).



LAS LUCHAS

A Arena México é o maior recinto do país onde se pratica esta espécie de “luta” a que nas Estados Unidos chamam “wrestling” e que, aqui, chamam simplesmente “lucha”. Ontem, cheguei uns 15 minutos atrasados à Arena México. As imediações são, por si só, um espectáculo. Por um lado, as centenas de vendedores de tudo o que se relacione com as luchas, por outro lado, as próprias pessoas que vão às lutas, devidamente mascaradas, com os níveis de adrenalina altos e em ascensão. Esse pequeno atraso não tinha qualquer espécie de significado, uma vez que eu e as minhas companhias estávamos perante um programa de cinco lutas, cada uma com três caídas. Haveria muito para dizer sobre as luchas, talvez um dia o faça. Por agora, gostava apenas de dizer que é muito diferente assistir a uma dessas lutas pela televisão ou na quarta fila da Arena México com os lutadores quase a caírem-nos em cima, a ouvir-mos tudo o que dizem e com os pontapés na cara (e não só) a serem bem sonoros. Depois, este tipo de “luta” no México é bastante diferente da sua equivalente nos Estados Unidos. Guardando a ressalva de ter assistido a uma ao vivo (Mex) e a outra apenas pela tv (USA), fico com a sensação de que a primeira é muitíssimo mais genuína e, por outro lado, os lutadores são muito mais suicidas. As luchas são uma forma de entretenimento absolutamente popular que, em muitos aspectos, reflectem diversos aspectos deste sociedade. A imensa saturação de cores e de elementos decorativos que se encontra a cada esquina da Cidade do México, em lojas, carros, pessoas, casas, está bem presente nas luchas. O kitch está bem presente. O humor mexicano que, na tv, é representado por personagens grotescas (homens vestidos de mulheres horrendas, pessoas vestidas de insectos, etc) está presente nas luchas. As multidões sem fim estão presentes nas luchas. Além disso, há os vendedores que vendem de tudo em todos os momentos, há as meninas que vêm anunciar as diversas fases dos “combates” e que desfilam nos intervalos, há os lutadores que se dividem em “rudos” (de grande porte, brutos e desleais) e em “tecnicos”(altamente atléticos, que respeitam as “regras”), há as lutadoras que se dividem em “cabeleras” e “mascaras”, há um caleidoscópio de coisas. As luchas, no México, são um encontro entre o bailado, o circo e a ginástica. Por exemplo:




E assim terminaram as obrigações na Cidade do México. Hoje será para curtir e amanhã para viajar para Guadalajara, onde terei uma agenda carregada na Feira Internacional do Livro de Gaudalajara. Mais informações aqui:

http://www.fil.com.mx

Ainda assim, espero continuar a fazer o relatório destes dias.
O relatório possível, claro.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 29/11/2008 - 15:36
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Los chavos

Foto minha.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 29/11/2008 - 15:27
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Thanksgiving

DIÁRIOS E BLOGS

Tenho muitos amigos que têm blogs, que acreditam nos blogs e que, em todas as oportunidades, me tentavam convencer a ter um blog. Com algumas pessoas, esse tema tornou-se tão obrigatório como falar da proibição de fumar em espaços públicos com fumadores. Havia pessoas a quem parecia fazer confusão que eu, escrevendo, não o fizesse também para um blog. Eu ia dizendo que era exactamente por isso que não o fazia e escudava-me na frase do Bernardo Soares: “tanto me exteriorizei dentro de mim, que dentro de mim não existo senão exteriormente”. Que desassossego. Não queria, nem quero exteriorizar-me a esse ponto. Desse modo, consegui ultrapassar, com relativa abstinência, os anos mais entusiastas dos blogs em Portugal. Leitor atento de blogs de diversas naturezas, não bloguei e não comentei, apenas li e interiorizei.

Há poucos meses, quando falei com o João Gabriel de Lima, da Bravo, sobre a possibilidade deste blog, já começava a ter uma perspectiva diferente. Aquilo que mudou não foi a minha visão acerca dos blogs, que sempre me pareceram um meio de possibilidades infinitas, aquilo que mudou foi a forma como tenho conseguido organizar o meu tempo de um modo cada vez mais eficaz. Por inusitado que possa parecer, a minha decisão definitiva de avançar com um blog, aconteceu enquanto falava com um amigo que tem um blog (obenficasoueu.blogspot.com), e que me dizia que a grande vantagem que vê neste meio é que, daqui a alguns anos, saberá com precisão aquilo que pensava em determinadas épocas acerca de determinados temas (SLB). É bastante provável que eu estivesse distraído, mas creio que nunca tinha ouvido esse argumento. Convenceu-me de imediato. Ao longo da vida, mudamos muito, esquecemos quem fomos. Às vezes, parece-me que se encontrássemos um nosso “eu” passado teríamos dificuldade em reconhecê-lo da mesma maneira que nos custaria reconhecer um “eu” futuro. Talvez aconteça mesmo encontrarmos muitos “eus” passados e futuros com outros rostos e não nos reconhecemos neles porque deixámos de reconhecer aquilo que fomos, apagámos a realidade das fotografias, fomos/somos Stalins de nós próprios. Ao mesmo tempo, precisava de escrever a mim próprio numa linguagem de, justamente, falar comigo próprio, tranquila. Obviamente que sei que os vossos olhares estão aí, agradeço-o, mas confesso que, neste momento, penso mais num dos vários Zé Luíses futuros que, um dia, virão ler estas páginas, sorrir com elas, envergonhar-se delas, comover-se com elas, exactamente como se folheasse um álbum de fotografias. Também os meus filhos, poderão conhecer o pai que tinham quando eram pequenos. Aquilo em que pensava quando andava longe deles, a procurar brinquedos no México (ou na Turquia, ou no Brasil, ou na África do Sul, ou etc.) Estas palavras são fotografias.

É claro que nem sempre vou ter tempo de colocar textos novos. Mas poderei dar-vos a conhecer uma parte (a parte que me parecer melhor), dos textos diversos que vou publicando nos lugares mais imprevistos. E poderei também manter algo fixo, algo que não mude nesta vida com estranha forma, esta vida que traça linhas entre continentes, que está sempre a chegar e que está sempre a partir.

Vem tudo isto a propósito de, neste dois primeiros dias de México, nos momentos breves de silêncio, dar comigo a pensar neste blog. E a gostar.

AS CHARLAS DE ONTEM


Em conversa com alguns amigos que escrevem e que têm boa relação com o México, sobretudo americanos, já me tinha sido dito que este é um país onde qualquer ateu se reconcilia com o público leitor. Ontem, lembrei-me muito destas palavras.

Comecei o dia na UNAM, uma universidade que, no total, tem 270 mil alunos. Num anfiteatro cheio, durante 2 horas, li excertos mais ou menos longos do Cemitério de Pianos e falei e ouvi. Teria ficado muito mais tempo. Mais uma vez, voltei a dar todos os livros que levava e, além de livros, autografei todo o tipo de papéis e objectos. Naturalmente que relativizo o gesto de autografar, mas considero que o simples acto de pedir um autógrafo é logo um sinal de generosidade por parte de quem pede. O mesmo se aplica às milhentas fotografias de telemóvel. Tengo los ojos cerrados? Tiramos otra. Ao fim da tarde, foi a vez da charla na Fundacion Letras Mexicanas (www.fundacionletrasmexicanas.org/). A F,L,M. (as vírgulas na sigla são um pormenor deles, lindo por sinal), entre outras competências, atribui anualmente bolsas nas áreas de Narrativa, Poesia e Ensaio. Esses bolseiros frequentam workshops sobre os mais diversos temas e vão desenvolvendo trabalho nas áreas que lhes dizem respeito, não existindo, no entanto, a obrigação de apresentar qualquer obra. As bolsas têm um valor de cerca de mil dólares americanos, o que permite viver com conforto no México. Não vou tecer qualquer comentário, nem vou comparar com a realidade portuguesa. Deixo-vos só estes dados e confio no vosso juízo.

Para mim, foi extremamente gratificante conversar sobre literatura com cerca de 3 dezenas dos bolseiros desta instituição, mais ou menos 30 pessoas da minha idade e com o mesmo interesse pela escrita e a leitura. Comecei por falar daquilo que é viver exclusivamente da escrita literária. Como não podia deixar de ser, fiz também diversas leituras tanto de prosa como de poesia. Estou a tornar-me um especialista nas leituras em espanhol. Quando a conversa passou para o lado da plateia, tinha a ideia errada de que iríamos falar muito sobre o meio editorial internacional. Não levaria essa curiosidade a mal, afinal são pessoas que pretendem levar a escrita a sério, que já o fazem. Não foi assim, falámos apenas de escrita, de literatura. Concluo duas coisas: o México é um país grande e aqueles que ali estiveram são já escritores e não apenas comentadores ou personagens do meio literário. Isso, aliás, pode comprovar-se por aquilo que efectivamente escrevem. Se tiver tempo, em breve, hei-de colocar aqui algumas traduções retiradas do livro que me ofereceram com textos dos bolseiros desta fundação.

Tenho de ter cuidado com o México. Estou naquela fase em que me imagino a viver aqui.


ALGUMAS COISAS QUE APRENDI ONTEM SOBRE O MÉXICO

- Os emos no México são lindos. Existem em toda a parte e falam com voz muito frágil enquanto levam a mão à testa para quase afastar a franja. Há emos adultos. Nunca tive nada contra emos, agora tenho ainda menos. Além disso, aqui até há manifestações de emos, de que já ouvi falar bastante. Vale a pena fazer uma busca no google com as seguintes palavras: manifestación emo.

- Nas estações de metro e nas carruagens de metro, há zonas onde só é permitida a entrada a mulheres e a crianças. Na estação, essas zonas estão separadas por um muro transparente. De um lado, só existem mulheres e crianças, do outro estão os homens, algumas mulheres e algumas crianças.



P.S. - Ontem, foi a quarta quinta-feira de novembro, ou seja, dia de Thanksgiving. Não comi peru, comi huachinango ao almoço e pozole ao jantar, mas agradeci tudo o que pude. Ainda agradeço. Obrigado.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 28/11/2008 - 14:40
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Olha o passarinho... Onde?

Foto de Rogelio Laguna.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 28/11/2008 - 14:27
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Máquina calculadora

O passado dia 25 de Novembro foi o trigésimo quarto que vivi e, ao mesmo tempo, foi o mais longo. Tenho quase a certeza de que não houve outro 25 de Novembro na minha vida em que tenha ganho 6 horas (24+6=32). O tempo não é algo que se dê ou que se receba. O tempo é algo que se negoceia com a natureza. Talvez por isso, essas 6 horas foram trocadas por 12 horas de imobilidade num voo longo (32-12=20). Quanto às 6 horas, terei de deixá-las na alfândega quando regressar a Lisboa (6-6=0). A natureza é muito ciosa do seu tempo. É muito difícil negociar com a natureza.

É muito mais fácil negociar com os mexicanos. Por um lado, 1 euro equivale a 17 pesos, mais coisa, menos coisa (coisa-coisa=coisa); por outro lado, os sorrisos são gratuitos e produzem-se em grandes quantidades. Há fábricas de sorrisos a laborar dia e noite. Depois, há a língua. O espanhol, no México, é a única coisa comestível que não é picante. É doce, é dulcito.

No dia 26, hoje, fui o indivíduo mais despenteado que tomou o pequeno-almoço no hotel El Diplomático. Eram 5 horas da tarde em Portugal, 11 horas no México. Às 7 e meia, quando comecei a falar no Centro de Lectura Condesa, eram 1 e meia da noite em Portugal. Boa hora.

Na primeira apresentação que alguma vez fiz no México, olhei para as pessoas demoradamente, li excertos dos romances e dois ou três poemas, a la hora de poner la mesa, deixei frases a meio, falei das Galveias, contei histórias e, algumas vezes, ri-me sozinho, mas com gosto. Dei uma entrevista antes e outra depois da apresentação. Conheci pessoalmente leitores que apenas conhecia por email e internets várias, autografei livros, sorri para fotografias de telemóvel e ofereci todos os livros que levei.

Agora, são 3 horas. Em Portugal são 9 da manhã. Vou dormir quando as pessoas estão a acordar. Ou seja, o habitual.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 27/11/2008 - 07:31
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Raul Seixas de óculos e chapéu

Foto de Maribel Paradinha.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 27/11/2008 - 07:28
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Post scriptum

Mana, se tiver sempre acesso à internet e o blog não falhar, como tem acontecido ultimamente, tentarei deixar novidades todos os dias do que for vendo e vivendo por aqui. Se não te aborreceres, vai passando por cá. Agora, vou dormir porque estou um bocadinho cansado, rebuçado.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 26/11/2008 - 05:27
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Recado para a minha irmã Alzira

Mana, já cheguei à Cidade do México.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 26/11/2008 - 05:14
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Cão morto, férias, Alzheimer

Eu já sou crescido, pois é?, pergunta o meu filho muitas vezes. Na sua voz, que ainda não pronuncia os érres, ser crescido significa deixar de ter vigilância. Ontem, quase no fim da manhã, enquanto me dirigia para enterrar o cão, tive a certeza nítida de que sim, ser crescido significa deixar de ter vigilância.

Não era um cão grande, mas não conseguia levá-lo apenas com uma mão. Segurava a ponta da saca com as duas mãos e esticava os braços tanto quanto conseguia, não queria que me tocasse. A coluna vergada do cão notava-se através da saca. Nada se pode comparar ao peso de um corpo morto, é um peso com textura e consistência. Entre as mãos, com a ponta da saca, levava também o cabo da enxada, mas, como já tentei explicar, esse era um peso diferente. Pela estrada de areia branca e pó, buracos e pedras, caminhava em direcção aos pinheiros onde, quando era pequeno, apanhava pinhas com a minha mãe para acendermos o lume no Inverno. Nesse tempo, havia lebres que saíam disparadas por detrás do mato e havia os nossos cães, que trazíamos para passarem as férias connosco. Esses eram os cães da minha infância. Como gostaria de poder revê-los.

Eu não conhecia bem o cão que enterrei ontem. Tive pena de ver o seu corpo morto, o pêlo ainda molhado pela cacimba, as formigas já a cobri-lo e a rodeá-lo, fez-me impressão, mas, em mim, no lugar de cores carregadas encontrei apenas cinzento. Ontem, eu estava de calções, chinelos, t-shirt velha, sentado numa cadeira reclinável de campismo quando a minha mãe, a sussurrar, para as crianças não se aperceberem, me contou o que viu. Levantei-me devagar. Na rua, o cão estava arrumado ao nosso muro. Agora, enquanto escrevo, não me lembro do nome banal que chamávamos a esse cão que não pertencia a ninguém. Fui buscar a saca e a enxada. Noutros tempos, segundo letras estampadas, a saca serviu para carregar cinquenta quilos de adubo. Ontem, serviu para receber o corpo de um cão, empurrado por uma enxada, serviu depois para levá-lo até ao terreno de pinheiros e embrulhá-lo no interior de uma sombra, feita de areia fresca, sob o tronco de um pinheiro velho

Aqui, a maioria das pessoas vem de férias, ou vem passar o fim-de-semana, ou são reformados. Lembro-me deste lugar com muitas diferenças mas, parando-me a pensar, sei que nós fomos aquilo que mais mudou. Lembro-me do meu pai a comprar pés de pessegueiros no mercado, as raízes dentro de sacos atados; lembro-me de pedir que eu segurasse esses troncos fininhos enquanto cobria as raízes de terra. Agora, não consigo apanhar os pêssegos que crescem nos ramos mais altos destas árvores que, durante estes anos, nunca saíram daqui. No entanto, nós fomos aquilo que mais mudou, porque o meu pai já não está cá e porque o rapaz que o ajudava já não sou eu, também já não está cá.

Quando chegamos, há sempre o mesmo cheiro de casa fechada, há a luz que vem perturbar um tempo onde não aconteceu nada, não existiu nada: sombras e silêncio. Entre os objectos que vieram aqui parar, o pinguim de loiça, que sempre conheci sobre o frigorífico da minha avó, assiste à chegada de crianças que não a conheceram, que não ouviram a sua voz e que, mesmo assim, correm, observam o mundo e dizem palavras que nunca foram ditas. Talvez eu seja também feito de loiça porque é com a mesma surpresa que assisto a esse milagre. As crianças, atentas ao presente, agora-agora, conseguem transformar tempo comum em férias. Eu, ao deixar de saber como fazê-lo, ganhei a capacidade de observá-lo.

Ontem, o sol já queimava. No regresso, levava apenas a enxada. Estava um homem descalço, de pijama, encostado ao reboco de um muro. Apesar de não ser habitual, não havia motivo para estranhá-lo demasiado. Assustei-me apenas quando caminhou na minha direcção e me agarrou no braço. É só brincar? Querem lá ver o menino. Pensas que é só brincar? Os seus dedos eram muito fracos. Talvez oitenta anos. Os seus olhos eram vazios, ou feitos de água, dirigiam-se a outra pessoa no meu lugar. Tratava-me por menino e, entre aquilo que repetia, falava de brincar. Reconheci-o. Lembrei um rosto de há dez, quinze anos. Segurei-lhe no braço e levei-o comigo. Então, menino? Chega de brincar. Reconheci-o e fui levá-lo à casa onde a filha e o genro estavam preocupados, o portão de ferro. Ó menino, menino. Antes, enquanto subíamos, carregávamos as duas únicas sombras assentes na areia branca e a mim, erradamente, parecia-me que a estrada era infinita.

*Originalmente publicado na revista Visão.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 20/11/2008 - 15:39
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Sempre tudo

Nunca nada de ninguém, de Luísa Costa Gomes, é um título muito adequado para se falar de absoluta negação. Em literatura, um dos verbos mais evidentes é "ler". Uma das frases que mais me irrita é "hoje já ninguém lê o autor x".

De um modo geral, ouve-se esta frase quando o "autor x" se distinguiu de alguma forma e, com o passar do tempo, perdeu essa distinção. O caso mais habitual é o sucesso popular. Dois exemplos dados com frequência são O Noivado do Sepulcro, de Soares de Passos, ou A Velhice do Padre Eterno, de Guerra Junqueiro. Numa pesquisa rápida pelo google, encontram-se dezenas de transcrições completas do primeiro e uma edição em facsimile do segundo no site da Biblioteca Nacional - www.purl.pt. Para leituras que já ninguém faz, estão bastante acessíveis. Outro exemplo muito referido é A Selva, de Ferreira de Castro. Há poucos anos, fez-se uma longa-metragem baseada nesse romance, nas livrarias francesas é muito frequente a tradução desse romance feita por Blaise Cendrars, deve haver poucos alfarrabistas que não tenham exemplares disponíveis de A Selva. Ou muito me engano ou há livros que foram publicados no ano passado e que, hoje, não têm tanta exposição.

Avaliar o mundo pelas estatísticas dos nossos amigos é pouco aconselhável, dificilmente será representativo. Além disso, na vida, o absoluto não faz parte dos assuntos humanos. O relativo e o transitório têm sempre muitos lados. Se hoje morreu aquilo que ontem parecia eterno, é bem possível que amanhã renasça aquilo que hoje parece morto. Às vezes alguma coisa de alguém.

* Publicado originalmente na revista Time Out Lisboa

 

Postado por: José Luís Peixoto | 20/11/2008 - 15:21
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Efeito secundário (lado B)

O acto simples de estender a mão na luz e tocar-te

irá coincidir com os meus dedos a transformarem-se

em cores, nuvens de pó lançadas no ar. Esse será o

primeiro efeito da magia. Chamar-lhe-emos magia

por causa das crianças, mas saberemos que, em rigor,

será apenas uma ilusão. Talvez seja nesse instante

que os lábios começarão a fazer o playback de todo

o silêncio, como um beijo antigo, gravado noutro

disco. O efeito secundário dessa fotografia, desse

postal, desse pôr-do-sol, será um bombardeamento

de planos para o futuro, filhos em projecto, iremos

escolher mil nomes para menino, mil nomes para

menina, iremos perder tempo a pensar nos nomes

que daríamos se fôssemos ingleses, americanos, e

falássemos em inglês, americano, como as pessoas

felizes e garridas dos filmes de domingo à tarde

no primeiro canal, ou franceses e chatos, como as

pessoas tristes dos filmes de segunda-feira à noite

no segundo canal. O primeiro efeito desse instante

será um ardor à volta dos lábios ou a repetição da

guerra do Vietname, da mesma maneira que um

ciclone na China faz uma borboleta bater as asas

e pousar-me involuntária entre os olhos, asas como

óculos de cor, nuvens de pó  lançadas no ar, ou

como esperança apregoada nas ruas por multidões

indecisas, confusas, incertas, frágeis, feitas de

homens humanos, mulheres humanas e crianças-

-crianças, futuros homens e futuras mulheres,

prontos a repetirem todas as nossas dúvidas e todas

as vezes que olhámos o horizonte. E talvez o seu

melhor momento seja um espelho estragado, um

penteado definitivo ou a constatação humilde

de não serem mágicos, mas ilusionistas, donos

de um espectáculo honesto, como nós agora

a sermos o efeito principal e secundário de tudo

o que chega a nós, de tudo o que parte de nós,

de tudo o que nos ignora, nos transcende e nos

lança pela eternidade a partir do instante simples

em que estendo a mão na luz e, simples, te toco.

*Incluído no disco dos Sebenta com o mesmo título.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 20/11/2008 - 15:10
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Tradução Peixotão

NENHUMA TU


Tantas mulheres

e nenhuma tu.


Em Sarajevo

duzentas mil mulheres

e nenhuma tu.


Na Europa

duzentos milhões de mulheres

e nenhuma tu.


No mundo,

dois mil milhões de mulheres

e nenhuma tu.



Por Izet Sarajlic

Do livro: Una calle para mi nombre

Traduzido a partir do castelhano por J.L.Peixoto

 

Postado por: José Luís Peixoto | 18/11/2008 - 14:06
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Aproxima-te

"Como é que te chamas?"

Começo por pensar que todas as pessoas são iguais. Talvez por comodidade, talvez por segurança, começo por supor que todas as pessoas, na sua infinita variedade de passados, presentes e futuros, são iguais. É partindo desse pressuposto que digo "nós". Não o "nós" de apenas eu e tu, não o "nós" de país ou língua, mas o "nós" meu, teu e deles, de países e línguas, de todos aqueles que não nos estão a ouvir. E digo: nós temos um mundo no nosso interior. Digo: é fascinante a história de tudo aquilo que fomos, que passou e que nunca foi esquecido porque nunca foi identificado. Sem que nunca tenha sido arquivado de uma forma consistente, catalogado ou sequer registado, acabamos por chamar "caos" ou "alma" a esse mundo. Na fila do supermercado ou numa esplanada, junho, acabamos por chamar-lhe "pensamento". E mesmo durante o instante em que dizemos essa palavra, "pen-sa-men-to", somos assaltados por uma sucessão de frases, sobrepostas às vezes, ou por imagens, ou por melodias, ou por palavras soltas, ou por tudo isto, sobreposto, misturado, em luta ou em harmonia.

"Onde é que nos encontrámos antes?"

Tiramos fotografias para vermos quando formos mais velhos, para não esquecermos. Nesse mundo que existe por tràs dos olhos é impossível tirar fotografias. É impossível filmá-lo. As palavras são insuficientes porque variam consoante a voz que as canta. As palavras escritas, a verem-nos desde o papel, são muito diferentes daquelas que, dentro de nós, se desfazem. às vezes, são como pássaros mortos na palma da mão. Outras vezes, são como a sua sombra. E, no entanto, escrever é falar para esse interior. Coloca uma ponte entre palavras e palavras, irmãos que se encontram. As palavras escritas no papel atravessam a pele e são despejadas directamente, com um ritmo, nesse mundo sem fronteiras que cada um de nós transporta. São como soldados a saltarem da parte de trás de um camião. Seriam necessárias muitas reticências se conseguíssemos escutar cada pormenor desse interior. É neste ponto que se coloca o problema da atenção. Temos olhos e, quanto à atenção, acontece o mesmo de quando olhamos para a distância e, a partir de certa altura, os contornos fogem dos objectos. Nesse nosso mundo/caos/alma, suponho que exista também uma distância: imagens que passam lá muito longe, por trás destas que passam logo aqui, palavras que passam onde apenas conseguimos ver vultos.

"Gosto da cor dos teus olhos."

Mergulhar no pensamento pode ser como mergulhar em contos infantis, podemos ser uma espécie de Alice deslumbrada. Podemos também encontrar masmorras e prisões perpétuas. Depende daquilo que procurarmos. Mais incrível do que não termos sempre esta consciência de nós próprios é o tão pouco que temos esta mesma consciência em relação aos outros. Está uma mulher sentada à nossa frente no autocarro, está o nosso pai, estás tu, e não somos sempre capazes de imaginar que, depois do rosto, ou sobre o rosto, invisível, está um choque frontal de palavras, está uma intermitência de frases, está uma imagem fixa, melodia, timbre de voz, etc. Apesar de já ter sido usado neste texto, "pensamento" parece-me um termo desadequado porque implica atenção. Estas palavras e imagens e melodias organizam-se em enxame. Mesmo quando oferecemos a atenção ao mundo, elas continuam lá, dentro de nós como se estivessem à nossa volta.

"Posso tocar-te os làbios?"

Cada palavra escrita alimenta-se dessas muitas palavras que a formam, cada palavra escrita é uma condensação. Cada palavra dita é feita da organização dessas palavras, mesmo que. Mesmo que, por vezes, se interrompam.

"Posso soprar-te os làbios?"

É agora que pergunto: o que é a memória? Um sentido poderia defender que as palavras e as coisas que nos constituem seriam viajantes, seguiriam movimentos -  um pouco como os cometas, os astros. Desse modo, talvez fosse possível estabelecer um cálculo que pudesse prever cada ideia, palavra, imagem, etc. Seria assim, fácil, não fosse a circunstância de esse mesmo mundo existir com outro, depender dele - aquele que tem árvores, cidades e lugares concretos, aquele que está à nossa volta. Esse mundo que chamamos quando dizemos "mundo" e que, no entanto, é o encontro de todas as nossas solidões. Porque, mesmo que não procuremos palavras, acabamos por desconfiar que a incomunicabilidade absoluta existe, até entre nós e nós próprios. Ainda assim, somos capazes de encontrar muitas justificações para continuar os mesmos equívocos, para sermos incertezas vestidas de fatos, gravatas, ou tailleurs, escolhidos segundo critérios que aprendemos. Construir sistemas foi a parte mais fácil da nossa tarefa. Encontrar nome para os seus significados será outra das partes. Até lá, essas definições permanecerão enterradas por baixo daquilo que apenas podemos suspeitar quando nos detemos perante um horizonte ou perante uma cena de devastação. Olhar dessa maneira é um sentido que pertence às crianças, como a reflexão verdadeira é um sentido que pertence aos anciãos. Por isso, somos crianças paradas no extremo de um miradouro, de um cabo sobre o oceano. Tentamos imaginar o universo. Tentamos imaginar o infinito sem conseguirmos perceber que, no infinito do universo, existe um número infinito de mundos, todos eles infinitos em si, comportando mundos infinitamente. Depois, nos intervalos dessa incapacidade, encontramo-nos e somos funcionais. Cumprimentamo-nos à chegada e despedimo-nos à partida. A civilidade existe para nos guiar mas, ao mesmo tempo, acaba por nos desviar de nós próprios, acaba por dificultar que nos aproximemos de dizer aquilo que é evidente apenas para cada um de nós. Não é difícil concluir que são muito mais as palavras que não podemos dizer do que aquelas que conhecemos. Há fronteiras que ainda não sabemos ultrapassar, que estão connosco, que são nós.

"Posso beijar-te?"

*Publicado originalmente no Jornal de Letras.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 14/11/2008 - 12:53
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Tradução Peixotão

A MINHA ESTÂNCIA EM ISTAMBUL

Existem várias versões

acerca da minha estância em Istambul.


De acordo com a primeira,

fui com o encargo de uma suspeita missão política.


De acordo com a segunda,

tratava-se de uma aventura romântica.


Na terceira versão

chegou a falar-se de tráfico de drogas.


Evidentemente que o facto de eu jamais ter posto

os pés em Istambul não interessa a ninguém.



Por Izet Sarajlic

Do livro: Una calle para mi nombre

Traduzido a partir do castelhano por J.L.Peixoto

 

Postado por: José Luís Peixoto | 12/11/2008 - 17:35
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Já revelei as fotografias de Istambul

Não choveu.


No estudio-cozinha, com o apresentador-cozinheiro de um programa de tv.  

 

Postado por: José Luís Peixoto | 11/11/2008 - 15:16
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Pai e filho

Sou o teu pai. Quando te seguro ao colo, entro no teu olhar, passo-te os dedos pelas faces e sinto que também eu tenho duas semanas porque uma parte de mim nasceu contigo há duas semanas. Agora, enquanto dormes, escrevo-te e imagino que, num instante longe deste instante, chegará um dia em que tu serás grande e segurarás uma folha escrita com estas palavras. Estas palavras são uma corda que une este momento presente e passado a esse momento futuro e presente. Daqui, desta ponta da corda, se der um pequeno puxão nas palavras, tu irás senti-lo aí. Se eu disser verdades, tens duas semanas, és pequenino, eu e a tua mãe amamos-te, tenho a certeza que irás sentir estas verdades aí. No entanto, hoje, aqui, eu não posso saber a maneira como irás sentir estas verdades, estes pequenos puxões, porque eu não sei tudo aquilo que irá acontecer entre este momento e o momento em que serás grande e segurarás uma folha escrita com estas palavras. Seguro numa ponta da corda, mas não sei o seu comprimento, a sua forma ou a sua resistência. Ainda assim, sei, imagino, que estás aí nessa ponta das palavras e quase que tenho vergonha de falar contigo. É difícil escolher palavras para falar com essa pessoa em que te tornaste. Ainda não conheço esse rosto que lê cada palavra deste meu embaraço. Além disso, tenho medo que estas palavras envelheçam mal ou que eu próprio envelheça mal. Talvez encontres aqui adjectivos que deixem de se usar. Talvez comeces a ler estas palavras e talvez, na tua ideia, eu seja alguma coisa que deixou de se usar. Irás olhar para aquilo em que me tornarei e tentarás entender aquilo que quis dizer-te hoje pelos significados que, nessa idade, tiver dado às palavras. Filho, eu tenho trinta anos e sou o teu pai. Tu tens duas semanas, és pequenino, és querido, eu e a tua mãe amamos-te. Quando percebemos que estás feliz, ficamos felizes. Quando choras, ficamos inquietos e não paramos, fazemos tudo, fazemos tudo até ficares feliz de novo. Filho, eu tenho trinta anos, mas sinto que também tenho duas semanas porque uma parte de mim nasceu contigo há duas semanas. Estas são as palavras que quero dizer-te. Os seus significados são simples e não tenho medo de dizer que são puros porque são puros mesmo. No dia em que leres estas palavras, saberás muitas coisas. Eu também já soube muitas coisas. Ser pai não é apenas saber, ser pai é compreender. Por isso, espero que possas reler estas palavras num dia em que sejas pai também. Eu, que sou o teu pai, tive um pai e tive um avô. Tão bem como eu sei que o meu pai era uma pessoa, quando fores pai, saberás que eu, aquele que hoje te escreve e aquele que há duas semanas começou a viver paralelo a ti, sou uma pessoa. De mim, espera amor e espera uma pessoa. Como as pessoas, às vezes, engano-me, não sei respostas, tenho medo, tenho frio, minto, faço coisas feias, desisto, escondo-me e fujo. Eu compreendo que tu irás enganar-te muitas vezes, não saberás respostas, terás medo, terás frio, mentirás, farás coisas feias, desistirás, esconder-te-ás e, quando todos te procurarem, terás fugido. Eu compreendo-te. Segurei-te ao colo, entrei no teu olhar. Foi há menos de uma hora. Passei-te os dedos pelas faces, tentando imaginar a forma como o teu rosto vai crescer. Estas palavras serão o espelho do teu rosto. O teu rosto ficará parado sobre elas. Gostava que soubesses que, hoje, quis tanto ver esse teu rosto que lê. Se puderes, passa agora os dedos pelas tuas faces. Talvez no dia em que leres estas linhas tenhamos deixado crescer entre nós o pudor de nos tocarmos com afecto simples e puro. Pai e filho. Por isso, passa os dedos pelas faces para sentires aquilo que sentiste hoje, duas semanas de vida, pequenino e amado. Ou então, chama-me para junto de ti. Na outra ponta destas palavras, serei outro. Terá passado tempo que, agora, não posso imaginar. Mas, nesse dia, quando chegar a estas palavras que me preparo para deixar agora, assim que olhar para elas, lembrar-me-ei daquilo que é estar a escrevê-las, ter trinta anos e estar a escrever enquanto tu, com duas semanas, estás a dormir. Será como se eu, hoje, fosse também filho desse eu que irá ler estas palavras. O rosto que tenho hoje estará dentro desse rosto que terei da mesma maneira que o teu rosto de criança estará também naquele de quando leres estas palavras. Filho, eu tenho trinta anos e sou o teu pai. Tu tens duas semanas, és pequenino, és querido, eu e a tua mãe amamos-te. Quando percebemos que estás feliz, ficamos felizes. Quando choras, ficamos inquietos e não paramos, fazemos tudo, fazemos tudo até ficares feliz de novo. Filho, eu tenho trinta anos, mas sinto que também tenho duas semanas porque uma parte de mim nasceu contigo há duas semanas. Estas são as palavras que quero dizer-te. Os seus significados são simples e não tenho medo de dizer que são puros porque são puros mesmo. Chama-me para junto de ti. Mostra-me estas palavras que escrevi hoje e pede-me para te passar os dedos pelas faces com o mesmo carinho e com a mesma ternura com que hoje toquei os teus contornos de menino. Tenho a certeza que não terei esquecido. Por mais que aconteça entre hoje e esse dia, por mais mortes e terramotos, tenho a certeza que não terei esquecido. E obriga-me a jurar que nunca deixaremos crescer entre nós um pudor que impeça de nos abraçarmos, de nos beijarmos, de passarmos os dedos pelas faces um do outro. Pai e filho. Eu sou o teu pai. Tu és o meu filho.



*Publicado originalmente no Jornal de Letras.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 10/11/2008 - 12:41
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Desobrigatório

O Dr. Bayard, o Dr. Pierre Bayard, psicanalista e professor de literatura na Universidade Paris VIII, é o autor de Como falar dos livros que não lemos?, publicado em Portugal pela Verso da Kapa (no Brasil pela Objetiva). Grande parte das 160 páginas desta edição são destinadas a responder à pergunta nomeada no título, dando para isso várias sugestões. Segundo o Dr. Bayard, sem precisar de ler uma página e sem levantar suspeitas, podemos falar da capa, das críticas, da editora, do visual do autor ou de outros aspectos que se relacionem mais ou menos com o livro. Se não houver alternativa, se formos mesmo obrigados a falar do livro em concreto, devemos discorrer acerca dos supostos efeitos que a sua suposta leitura teve em nós e, assim, parecendo que estamos a falar do livro, estaremos na realidade a falar de nós, o que não deverá ser difícil.

Desta forma, Dr. Bayard faz também a absoluta desresponsabilização daqueles que não leram/lêem. Diz-lhes que não precisam sentir-se culpados. Chega mesmo a enumerar uma boa quantidade de casos ilustres: Paul Valéry, por exemplo, que era capaz de tecer profusos elogios a obras que nunca lera; ou Montaigne que pouco fixava daquilo que lia. O próprio Dr. Bayard assegura que, nas suas aulas, passa horas a falar de livros que apenas folheou. Num tom irónico, o único perigo destas páginas é que, como tantas vezes acontece com as ironias, haverá muita gente que não as distingue como tal. Nenhuma surpresa. Aliás, chego a perguntar-me o que acharia o próprio Dr. Bayard do facto de alguém falar do livro dele sem nunca o ter lido, como acabou de acontecer nestas linhas que aqui terminam.

* Publicado originalmente na revista Time Out Lisboa.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 10/11/2008 - 10:35
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Prá semana almoçamos no Pacheco

Os meus primos chegaram da América.

Andaram na guerra.

Clicar aqui.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 10/11/2008 - 10:08
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Tradução Peixotão

INTERESSANTE

O meu amigo é interessante, mas não está no seu apartamento.

A conversa deles parece interessante, mas estão a falar numa língua que não compreendo.

Ambos têm a reputação de serem pessoas interessantes e, por isso, estou certa de que a conversa deles é interessante, mas estão a falar numa língua de que só compreendo um pouco, por isso só apanho fragmentos como "estou a ver" e "no Domingo" e "infelizmente".


Este homem tem uma boa compreensão do seu assunto e diz muitas coisas que são provavelmente interessantes em si mesmas, mas eu não estou interessada porque o assunto não me interessa.


Eis uma mulher que conheço a vir na minha direcção. Está muito entusiasmada, mas não é uma mulher interessante. Aquilo que a entusiasma não será interessante, simplesmente não será interessante.


Numa festa, um homem nervoso, a falar muito depressa, diz muitas coisas espertas sobre assuntos que não me interessam particularmente, como a restauração de casas históricas e, em particular, a idade do papel de parede. Ainda assim, por ser tão esperto e por me dar tanta informação por minuto, não me canso de o ouvir.


Eis um engenheiro de trânsito, inglês e muito belo. O facto de ser tão belo, e tão animado, e de ter uma pronúncia inglesa tão boa, fá-lo parecer, de cada vez que vai para começar a falar, que está prestes a dizer algo interessante, mas ele nunca é interessante, e mesmo assim está a dizer algo interessante, de novo sobre padrões de trânsito.

Por Lydia Davis

Do livro: Samuel Johnson is indignant

Traduzido por J.L.Peixoto

 

Postado por: José Luís Peixoto | 09/11/2008 - 15:33
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Recado para a minha irmã Alzira

Mana, amanhã vou para Istambul.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 05/11/2008 - 17:04
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Algumas coisas invisíveis

Ontem, perdi a carteira com todos os meus cartões e documentos. Quero pedir-vos desculpas antecipadas por ter de voltar a escrever sobre a morte. Não é por mal. Não é porque queira perturbar-vos. Às vezes, perguntam-me se não tenho outro tema e chego a pensar que não. Perguntam-me se não me canso. Eu canso-me. Antes do verão, uma senhora disse-me: um escritor vê beleza nos lugares mais difíceis. Eu sorri, cobri a sua frase com silêncio e pensei: não é verdade.

Nesta semana que passou, na terça-feira, sentei-me no sofá da casa da minha irmã e estive a ver filmagens antigas. Metade das conversas eram: estás a filmar?, não me filmes, ela está a filmar?, não está a filmar, pois não? Depois, havia minutos longos em que esqueciam a máquina ligada e filmavam o chão: as pedras da rua, os passos mais lentos ou mais rápidos, a respiração. Está a filmar? Isto está a filmar? Havia partes em que estávamos todos juntos, todos mais novos. Entre nós, a falar connosco, a rir connosco, estavam os nossos mortos. A minha sobrinha, que agora se deprime e usa soutiens, era um bebé ao colo de um dos nossos mortos. Eu era um adolescente despenteado e desagradável, com um pullover de lã. A minha mãe raramente se sentava. Como nós, os nossos mortos perguntavam: ela não está a filmar, pois não? E ouvia-se a voz da minha irmã, atrás da máquina, a dizer: olhe para aqui, diga lá qualquer coisa.

Cada vez que participo num programa de televisão em directo, tenho vontade de me levantar e de, a completo despropósito, dar uma estalada no apresentador. Não tenho nenhuma espécie de aversão para com qualquer apresentador. Pelo contrário. Normalmente, são pessoas que sabem fazer muito mais expressões faciais do que aquelas que mostram. A corrente que me puxa é a curiosidade acerca daquilo que aconteceria depois. Fazem-me perguntas: quando começou a escrever?, porque escreve?, quais são os autores que mais o influenciaram? Eu respondo devagar, e, por detrás de cada palavra, sinto vontade de levantar-me, ter a completa percepção de todos os meus movimentos e dar-lhes uma estalada.

Houve um dia desta semana em que perguntei aos nossos mortos se podia ser insensato. Eles disseram logo que sim.

No domingo, quando já começava a anoitecer, passei por uma criança que estava à espera, sozinha, dentro de um carro. Era um rapaz de seis ou sete anos. Estava sentado, muito direito, no banco de trás, e brincava com os dedos. Temo não ser capaz de explicar a opressão que senti no peito. Num instante, fui levado para um passado de há trinta anos atrás. Lembrei-me de ser aquele exacto menino e de não saber se os meus pais voltavam. Posso ir também? Não, espera aí. Por favor, posso ir também? Não, espera aí. O tempo passa de maneira diferente para as crianças. Cinco minutos é muito tempo, dez minutos é muito tempo, meia hora nunca mais acaba. Eu olhei para esse rapaz de seis ou sete anos, mas creio que ele não me viu. Melhor assim. Eu não iria querer um estranho a olhar para mim enquanto me doía o medo de ficar sozinho para sempre.

Perguntei aos nossos mortos se podia chorar. Eles disseram que sim, podia chorar o quanto quisesse.

Chorei dentro do carro com seis ou sete anos e chorei fora do carro, trinta e quatro anos, atràs de uma árvore, ridiculamente, a fingir que atava um sapato.

Quero pedir-vos desculpa por ter chorado.

Nestes últimos dias, nesta semana, no supermercado e noutros lugares bem iluminados, tem-me acontecido estar a conversar com a minha mãe ou com a minha sobrinha e, de repente, reparo que estou a falar para uma pessoa qualquer que não conheço e que olha para mim muito admirada. A minha mãe ou a minha sobrinha ficaram lá atrás a ver qualquer coisa e eu fico muito envergonhado por estar a demonstrar tanta familiaridade para uma desconhecida que só de modo remoto poderia ser confundida com a minha mãe ou com a minha sobrinha. Uma vez, só reparei nesse engano quando já ia começar a zangar-me por não me responder. Noutra vez, só reparei quando já estava a abanar-lhe o braço para que visse algum objecto que me parecia importante e que, agora, já não me consigo lembrar do que era.

Durante esta semana, várias vezes, também perguntei aos nossos mortos se podia fechar os olhos. Eles disseram que sim, claro que sim. E pediram para não lhes fazer mais perguntas, disseram que a resposta será sempre sim.

* Publicado originalmente na revista Visão.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 05/11/2008 - 17:02
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Tradução Peixotão

INTRODUÇÃO À POESIA


Peço-lhes que escolham um poema

e que o segurem de encontro à luz

como um slide de cores


ou que encostem um ouvido à sua colmeia.

Digo soltem um rato no poema

e vejam-no procurar a saída,


ou entrem no quarto do poema

e apalpem as paredes em busca do interruptor.


Quero que façam esqui aquático

na superfície do poema

e que acenem ao nome do poeta na margem.


Mas tudo o que fazem

é amarrar o poema a uma cadeira

e torturá-lo até que confesse.


Começam por espancá-lo com uma mangueira

para averiguar o que realmente significa.


 Por Billy Collins

Do livro: The apple that astonished Paris

Traduzido por J.L.Peixoto

 

Postado por: José Luís Peixoto | 04/11/2008 - 13:54
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Texto sobre mim

- Eu entendo bem que tenhas de escrever sobre alguma coisa mas, por favor, não escrevas sobre mim.

- Porquê?

- Porque prefiro dissolver-me na história do mundo. Um grito que chega ao silêncio, percebes? Um grito que chega ao esquecimento. Quem me conhece, conhece-me. Os outros não existem. Assim, se escreves sobre mim, os outros começam a acreditar que me conhecem também, o que é mentira. No fundo, não quero que escrevas sobre mim porque não quero que pactues com uma mentira.

- Só por isso?

- Não, claro que não. Ser o objecto da tua escrita não é como ser modelo de um quadro, não é como deixar que captes a minha imagem, não é passar algumas horas imóvel e já está. Ser o objecto da tua escrita é ter a minha biologia alterada, é sentir um ligeiro enjoo, um mau gosto na boca, como se tivesse acabado de acordar e tivesse bebido vodka na noite anterior. Sempre assim, durante dias, durante meses, anos, durante a vida toda, como se tivesse acabado de acordar e tivesse bebido vodka na noite anterior.

- Compreendo, mas não concordo.

- Não precisas concordar, basta que compreendas. E respeites.

- Sempre te respeitei.

- Não disse o contrário.

- Ah.

- Olha, escreve aquela citação do Wittgenstein.

- Não me digas o que devo escrever.

- Se escreveres sobre mim, estou, de certa forma, a dizer-te o que deves escrever. Ao ser como sou, determino as palavras que vais utilizar. Só poderás usar as palavras que me dizem. Ficarás privado de usar um grande número de palavras que não fazem parte de mim, nem de nada que sejam os meus movimentos, nem de nada que eu toque com a minha acção ou sequer com um pequeno resto da minha identidade. Essas palavras, signos, só poderão ser usadas se não tiveres qualquer compromisso com a verdade ou se fores incompetente.

- Para ti, tudo é sempre muito simples.

- E é simples, é mesmo simples. Se não tiveres qualquer compromisso com a verdade, não estarás a escrever sobre mim. Mesmo que acredites que estás a escrever sobre mim poderás estar a escrever sobre, por exemplo, um candeeiro.

- Mas o que é a verdade?

- A verdade é o meu cu. Porque é que fazes perguntas idiotas?

- Desculpa. Continua.

- Continuando, se fores incompetente, não conseguirás escrever sobre mim. Serás como uma criança a quem pedem para desenhar a mãe. A própria criança se apercebe de que aqueles riscos não são a sua mãe: os lábios dela não são um risco, o nariz dela não é um risco, os olhos dela não são dois pontinhos cegos. Então, a criança culpa-se a si própria e julga-se incompetente, não percebendo que a sua mãe, aquilo que para ela é a sua mãe, é impossível de desenhar.

- Então mesmo que eu queira, não posso escrever sobre ti, não consigo, é isso?

- Não. Não foi isso que eu disse. Se fosse assim, não te pedia para não o fazeres. Deixava-te andar, chamava-te passarinho e deixava-te andar.

- Passarinho?

- Ou pardal. Olha, porque é que não usas aquela citação do Wittgenstein?

- Qual citação?

- Aquela que tens na porta do frigorífico.

- Ah.

- Se começares com uma citação, ainda por cima do Wittgenstein, verás que é como se já estivesses meio trabalho feito. Os leitores vão considerar que tens um alto nível intelectual e vão querer associar-se a ti, vão querer dizer que já te leram porque vão estar convencidos de que, desse modo, também eles demonstram um alto nível intelectual. Na realidade, nem é necessário que cites o Wittgenstein, basta que refiras o seu nome. Assim: Wittgenstein. É claro que, mais tarde, começarão também a apenas referir o teu nome. Muito poucos te lerão realmente, mas esses poucos serão aqueles que importam: professores universitários, críticos, júris de prémios literários. Mas o teu nome será referido. É isso que importa, não é?

- Sim, é isso que importa.

- Como vês, não há motivo para escreveres sobre mim.

- Enganas-te. Há motivos fortes para escrever sobre ti.

- Há?

- Há.

- Há?

- Há.

- Quais?

- O primeiro motivo é o amor.

- Piegas. Não tens nada melhor do que esse sentimentalismo bàsico?

- O segundo motivo é que estou grávido de ti.

- Como aconteceu isso? Não tivemos nenhum contacto a esse nível e, além do mais, que eu saiba, os homens não engravidam.

- Se a lógica explicasse tudo, a felicidade poderia ser calculada. A lógica é sempre o mais fácil, é sempre o caminho mais simples. Infelizmente, o mundo não se compadece com essas invenções.

- Mas o que há para além da lógica?

- Há o teu medo, toda a extensão do teu medo. E há muito mais. Esse também é um dos motivos pelos quais quero escrever sobre ti.

- Explica.

- Como tentaste dizer quando falaste sobre o compromisso com a verdade e a incompetência, escrever sobre ti será sempre escrever sobre mim. Definir-te implica, muito antes, definir-me.

- Egocêntrico.

- Desculpa, não ouvi. Podes repetir?

- Egocêntrico.

- Chama-me o que quiseres, piegas, egocêntrico, tanto me faz. O mundo não se detém perante os teus medos e as tuas inseguranças. Vou escrever sobre ti porque és o único assunto.

- E, no fundo, vais sempre escrever sobre ti, não é?

- Sim, no fundo, vou sempre escrever sobre mim.

*Publicado originalmente no Jornal de Letras.

 

Postado por: José Luís Peixoto | 03/11/2008 - 16:53
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