Blog do José Luís Peixoto |
|---|
RespiraDepois de atravessar o oceano e ver o que existe do lado de lá, depois de traçar linhas irregulares no mapa da Europa, faço a pé o caminho entre a minha casa e o supermercado. Sou um privilegiado enquanto avanço com um saco dobrado na mão, a carteira no bolso interior do casaco, a conhecer todos os passos deste caminho. Posso descer pela escadinha do jardim, por baixo da oliveira que, no Outono, dá azeitonas que ninguém aproveita, ou posso seguir pela rua principal, passar em frente à paragem de autocarros e atravessar a passadeira. Penso em muitas coisas enquanto faço esse caminho: tenho de ir aos correios, às finanças, à segurança social. Encontro sempre alguém para olhar: as pessoas que fumam à porta do supermercado ou a cigana romena, com uma criança a dormir-lhe no colo, que me estende a mão e o olhar. Enquanto avanço entre a minha casa e o supermercado, posso pensar neste texto que estou agora a escrever ou posso pensar nas compras que preciso. Isto, claro, se não tiver feito uma lista num quadrado de papel. Às vezes, deixo um pedaço de papel preso nesses imãs do frigorífico de Londres ou Ibiza e escrevo lá aquilo de que preciso. Detergente da loiça, por exemplo. É também assim que faço com as ideias para textos como este. Não as afixo no frigorífico, mas anoto-as em papéis que perco e encontro nos lugares mais inesperados da casa, muitas vezes após anos, ou em blocos que começo e que nunca acabo. Posso estar enganado, mas, conhecendo-me, creio que, se tudo o resto falhar, poderei sempre contar com este caminho entre a minha casa e o supermercado. Bem sei que tudo muda: a casa pode deixar de ser minha, o supermercado pode desaparecer, a casa e o supermercado podem facilmente ser submersos por uma tristeza sem nome. Sei que o mundo pode ainda ser mais terrível do que isso, mas, com optimismo, gosto de pensar que este caminho está garantido. Não é pouco. Ao fazê-lo, carrego vagamente a memória daquelas ocasiões em que a minha mãe tirava um saco de plástico do armário e me pedia que fosse fazer um mandado à mercearia da Ti Ana Dezoito (quadrados de toucinho em cima do balcão de mármore, grãos de sal grosso em cima das folhas de papel pardo), ou quando o meu pai me dava uma garrafa e me mandava ir à do Ti Lourenço (o som e o cheiro do vinho tinto a escorrer do barril para dentro da garrafa, o funil de lata), ou quando a minha mãe me dava a bolsa de renda e me mandava à padaria de Ti Luísa do Peças (a farinha, queres mais bem cozidinho?) Enquanto caminho, eu sou essas memórias. Sou um corpo com pernas, braços e cabeça que é a representação física dessas memórias. Quando chego ao supermercado, sei o lugar das coisas. A meio da manhã ou da tarde, cruzo-me com homens e mulheres que têm mais de setenta anos e que fazem compras ainda mais insignificantes do que eu: um pacote de leite, duas maçãs, pão. Vejo-me a ser um deles. Não daqui a muitos anos, não sou confiante a ponto de acreditar que passarei dos sessenta, mas já hoje, sou já um deles. Como eles, aproximo-me dos homens que estão a jogar às cartas no jardim, e fico a tentar perceber o jogo por cima dos seus ombros. Como eles, leio todas as notícias do jornal, vejo com pormenor todos os papéis que me são deixados por rapazes brasileiros na caixa do correio. Como eles, escolho bem cada peça de fruta que disponho nesses sacos de plástico fino, que custam a abrir, e, como eles, tomo-lhes o peso com a balança do braço antes de os atar com um nó cego. É também como eles que encontro as palavras para este texto. Se tudo o resto falhar, como tantas coisas que já falharam efectivamente, posso sempre contar com este texto ou, pelo menos, com textos como este. Não tem de existir sempre a mais alta ambição em cada gesto. Ninguém aguenta viver assim e, para os vivos, viver é muito importante. Eu estou vivo. Respiro quando faço o caminho entre a minha casa e o supermercado, como respiro agora ao escrever esta palavra, e esta, e esta. Estão vivas também as pessoas com mais de setenta anos que cheiram melões no supermercado e que se balançam na aventura de comprar um (será que já estão maduros?) Será, será? Oh, dilema. Aquilo que digo a mim próprio, digo também aos outros: tenham calma. Agora, em especial para ti: do lugar de onde estás, tu próprio és o assunto que melhor vês, tu és a pessoa que está mais perto de ti. Por esse motivo, é normal que te pareça que cada detalhe é fundamental, essencial, que não podes viver sem ele. Mas podes. Os outros, esses que te amedrontam, que te telefonam todos os dias, que te escrevem emails e te perguntam: já está?, onde é que está?, porque é que não está? Esses parecem gigantes, têm os olhos muito abertos, mas, sabes, quando adormecem, são meninos indefesos. Como tu, também eles. Como tu, também eles recebem os mesmos telefonemas, os mesmos emails e, como tu, também eles, se encolhem ante gigantes, olhos muitos abertos, que, por sua vez, fazem a mesma coisa com outros e outros e outros, espelhos a reflectirem-se infinitamente. Se eles te perguntarem: já está? Podes responder: não, não está. E tudo continua. Se não tiveres o caminho entre a tua casa e o supermercado, terás outra coisa, qualquer coisa. Se não tiveres um texto como este para escrever, terás outra coisa que desconheço, mas que sei que existe. Por isso, respira, respira, respira.
Postado por: José Luís Peixoto
| 29/06/2009 - 14:31 |
Tradução Peixotão(Muito trabalho, muitas imagens e palavras e sons na cabeça têm-me impedido de vir aqui dar notícias. Para quebrar o hiato, deixo um aperitivo: mais um poema de Izet Saraljic (Bósnia, 1930-2002) , traduzido por mim a partir das traduções espanhola e italiana.)
O DONO DE UNS SAPATOS NÚMERO 43 CONTEMPLA UMAS SANDÁLIAS DE CRIANÇA EXPOSTAS NO MUSEU DE AUSCHWITZ Quanto amor pôs, antes da guerra, um sapateiro dos arredores de Lvov ao fazer estas sandálias para que uma criança pudesse, calçando-as, atravessar o maio da sua vida. E agora aqui estão, expostas no museu de Auschwitz. E o homem que as olha sente-se quase culpado. O homem cujo pé pôde crescer até ao número 43. Era ele quem, em 1941, saltava, calçando estas mesmas sandálias.
Postado por: José Luís Peixoto
| 27/06/2009 - 11:51 |
Como se chamam os habitantes de Boston?Já estou em Boston. Cheguei ontem. Está frio, céu cinzento e, às vezes, chovem gotas geladas. Já comi clam chowder e já gastei uma quantia exorbitante (que tenho pudor de referir) numa livraria. Deixo-vos o texto que escrevi para a Visão após a minha passagem por aqui em Setembro passado. Para aqueles que gostam mais de ver o filme do que de ler o livro, sigam o link no final.
Urina. O som familiar da urina a cair na água não perturba a embriagues gasosa do meu sono. Não interessa onde estou, mas sei que estou em Boston, mas não interessa onde estou porque estou num quarto de hotel e há pouca diferença entre quartos de hotel. Mudam os canais na televisão e o cheiro do detergente na alcatifa. De manhã, haverá sempre o som de aspiradores. É de tarde. Deixei a televisão ligada no canal Discovery Health, onde adormeci a ver um programa sobre obesidade mórbida. A voz do narrador entrou-me no sono, as vozes ocasionais dos obesos, deitados em sofás, deitados em camas, gruas, macas, entraram-me no sono. Agora, essas mesmas vozes falam sozinhas para a colcha desfeita sobre a cama vazia, são como electricidade. Não lhes presto atenção, têm a mesma existência vaga de, por exemplo, a cidade de Boston. São uma realidade teórica, abafada pela porta fechada da casa de banho e pelo som familiar, grosso, da urina a cair na água da sanita: o alívio de uma comichão entornada para fora do meu corpo. Lavo as mãos. Seguro a maçaneta da porta da casa de banho e, quando tento rodá-la, não roda. Mexo no botão que tranca a porta e não acontece nada. Normalmente, quando adormeço à tarde, privilégio de domingos, acordo de duas formas possíveis: devagar, com uma ligeira dor de cabeça; ou devagar, com um prazer morno espalhado pelos músculos. Agora, acordei de repente. Uma tomada de consciência que é como a efervescência súbita da coca-cola, a subir pela garrafa até transbordar. Uma espécie de anti-qualquer-coisa, uma implosão, sim, uma implosão. A casa de banho não tem janelas. A luz é amarela. Deixo de saber qual é a posição correcta do botão que tranca a porta. Tento abri-la das duas maneiras possíveis e não acontece nada. Bato com as duas mãos. Espero para distinguir alguma reacção e ouço apenas um silêncio feito das vozes dos obesos, sozinhos na televisão do quarto. Dou pontapés na porta. O mesmo silêncio. Bato na parede com as mãos abertas. Grito, tento chamar alguém. Estou no oitavo andar, como se estivesse enterrado vivo. Lavo as mãos. Lavo a cara. No espelho, sou amarelo. Tenho a cor da luz. O espelho é como uma janela para o interior fechado desta casa de banho. Sento-me no bidé. Encho os pulmões de ar. Quando era pequeno e fazia alguma coisa de mal, fechava-me na casa de banho antes que o meu pai chegasse a casa. Essa era a única divisão que tinha chave. Após dez minutos de espera, começava a imaginar que iria passar o resto da minha vida na casa de banho. Em instantes, acreditava nisso. Poderia dormir na banheira, tapar-me com toalhas, não faltaria a água potável e, numa primeira fase, poderia alimentar-me de pasta de dentes. Depois, a longo prazo, teria de atrair insectos comestíveis ou cultivar vegetais no intervalo dos azulejos. Quando o meu pai chegava, havia uma negociação que terminava com a porta a ser aberta devagar. Nem sempre foi assim. Houve uma vez em que, com o meu primo, roubei um cartucho da caçadeira do meu pai e fizemos uma bomba. Abrimos o cartucho com uma navalha, separámos a pólvora dos chumbos, fizemos um enxerto de arames e colocámos-lhe um rastilho. Guardámos a bomba numa gaveta e planeámos explodi-la no campo da bola. Essa hora deserta nunca chegou. A minha mãe descobriu a bomba e contou ao meu pai. Fechei-me na casa de banho. Ao fim da tarde, o meu pai chegou a casa. Abre a porta, Zé Luís. E eu dizia para ele se acalmar. Abre a porta. Zé Luís. Eu punha as culpas no meu primo, dizia que tinha sido ideia dele, e tinha mesmo. Abre a porta, Zé Luís. A voz do meu pai era sólida. Eu tinha oito ou nove anos e pedia perdão. Abre a porta, Zé Luís. Eu chorava e dizia que não queria. E, de repente, um estrondo ampliado pelo eco. Outro estrondo. A porta inteira a ceder na fechadura e nas dobradiças. O meu pai estava a arrombar a porta e a minha voz tremia. Espere. Não faça isso. Eu tremia. Agora, 1938-2008, faltam poucas semanas para o dia em que o meu pai faria setenta anos. Há quase treze anos, 1938-1996, que sinto falta dele. Estou fechado na casa de banho de um hotel em Boston e penso no que farei para sobreviver se ficar aqui para sempre. Volto a gritar, tento chamar alguém, mas paro. Lembro-me que, antes de adormecer, pendurei na porta do quarto o pequeno letreiro que diz “não incomode”.
Postado por: José Luís Peixoto
| 27/05/2009 - 22:16 |
Porto e Viana do CasteloEstarei na Feira do Livro do Porto a 14 de Junho e na Feira do Livro de Viana do Castelo a 11 de Julho.
Postado por: José Luís Peixoto
| 23/05/2009 - 19:01 |
Croácia e República ChecaACTUALIZAÇÕES Durante este viagem entre a Croácia e a República Checa, tentei por diversas vezes actualizar o blog e dar, na hora, notícias sobre aquilo que ia vendo nos diversos lugares por onde passei. Infelizmente, o meu computador e/ou a internet não deixaram. Muito frustrante. Não sei explicar exactamente o que se passou. Sei que nas tentativas que fiz, apenas o título ficava online. Todo o texto era ignorado. Já nem falo de colocar fotos ou vídeos. Nem alimento essa ambição. Quanto às razões disso, percebo zero. Não sei se é o sinal wireless dos hotéis que não tem capacidade, não sei se são as definições do meu macintosh ou do servidor do blog (a propósito, será que vai haver arquivo para 2009?) É pena que tenha sido assim porque se perde o entusiasmo do momento. Perdem-se os pormenores que gostava de vos ter contado na hora e que, parte dos quais, possivelmente, já esqueci. Ainda assim, vou tentar fazer o meu melhor. Aqui ficam notícias destas duas últimas semanas. CROÁCIA Cheguei a Zagreb num domingo, dia 10. Para mim, regressar a Zagreb é chegar a um dos meus lugares. Tenho muitas recordações da Ilica, da Praça das Flores, de tantos e tantos lugares dessa cidade, de tantos detalhes que me constituem, que fazem parte daquilo que sou. Chegar a Zagreb num domingo, pousar as malas no hotel e ir comer Cevapi é algo que só consigo fazer com um sorriso permanente. Depois, encontrar os amigos, que existem por baixo da pele e que, também eles fazem parte de mim. São como o nome de uma das minhas amigas croatas: Vida. Depois, começam a regressar à minha memória todas as palavras em croata que sei e que, no dia-a-dia, quase esqueço que sei: putovanje, zivot, ljubav. Muito bom. Terminei essa noite no festival Queer Zagreb, a assistir a uma peça de teatro de um grupo de São Paulo, em que cerca de uma dúzia de homens e mulheres meio despidos e meio vestidos com túnicas romanas falavam das virtudes da homossexualidade. A maioria dos actores eram croatas e falavam em croata, com um painel electrónico a passar o texto em português. Na segunda-feira, foi dia de apresentação. Quando foi marcada, estava prevista para a Universidade de Zagreb. No entanto, a Universidade está ocupada pelos alunos há cerca de um mês. Estão em protesto contra as propinas. Estão espalhados pela cidade, junto aos semáforos, com cartazes que dizem “Buzine pela educação”. Na Universidade, quando passei por lá, jogava-se às cartas e havia altifalantes que passavam o “the eye of the tiger”. Assim, a apresentação passou para o Centro de Língua do Instituto Camões em Zagreb. Falei apenas em português porque a audiência era composta exclusivamente por alunos de português (e portugueses em Zagreb). Correu muito bem. O Centro de Língua Portuguesa é novo. Na última vez que estive em Zagreb ainda não existia. É fruto de um trabalho que, estou certo, encheria de orgulho todos os portugueses que o conhecessem. Outra coisa que, de certeza, surpreenderia muitos portugueses seria saberem que, na Croácia, há mais de 400 alunos de português. Com óptimo domínio da língua, acrescente-se. Quantos alunos de croata existirão em Portugal? E quantos existirão no Brasil? Para ir ao encontro de mais alguns desses alunos, fui para Zadar, na costa do Adriático. O centro de Zadar fica numa península. Com o tempo muito bom, sol, calor, havia bastante gente a nadar mesmo no centro da cidade (eu inclusive). Não creio que existam muitas universidades no mundo que fiquem a pouco mais de dez metros do mar. Esse é o caso da Universidade de Zadar. A vista das janelas é um mar muito azul e, lá ao fundo, ilhas. Na universidade, os alunos em greve, dividiam-se entre as esplanadas e os mergulhos no Adriático. Foi aí que participei nas jornadas ibéricas onde, além de mim, participaram um autor galego, um asturiano, um catalão e uma autora das Ilhas Canárias que escrevia em castelhano. Em conjunto, fizemos uma leitura num lugar impressionante chamado Arsenal. Li em português o conto “Eu e as poetisas”, cuja tradução croata (feita por alunos da Universidade de Zadar) ia sendo projectada numa tela atrás de mim. Transcrevo o texto abaixo para que o conheçam. Além disso, entreguei prémios aos alunos que se distinguiram pelas melhores traduções de português e, no final, dei uma entrevista para o jornal cultural Zarez. De todas as vezes em que estive na Croácia, nunca tinha tido a oportunidade de visitar Zadar, apesar de já ter ouvido falar bastante. É, sem dúvida, um daqueles lugares inesquecível (como toda a costa e ilhas da Croácia, aliás). Eu, pelo menos, não irei esquecer Zadar. VIENA A viagem de avião entre Zagreb e Praga tinha uma escala em Viena. Era pouco o tempo para mudar de avião, por isso, saí a correr à procura da entrada para o voo entre Viena e Praga. Cheguei ofegante e a senhora da Austrian Airlines disse-me que o meu lugar não estava confirmado. Fiquei perplexo. Tratava-se de um overbooking... Após uma espera, confirmou-se que não estava confirmado. Era de noite e, por isso, levaram-me para um hotel no centro de Viena, onde fiquei a esperar o próximo voo para Praga (sete da manhã). Acabou por não ser mau de todo porque me deu a oportunidade de passear um pouco por Viena e ir beber um copo (dois) com o meu amigo Michael. Mas, ainda assim, confesso que não percebo qual a lógica do overbooking. Alguém me consegue explicar por que motivo as companhias aéreas vendem mais bilhetes do que o número de lugares que têm no avião? REPÚBLICA CHECA Assim, cheguei a Praga pouco antes da hora em que tinha de ir para a Feira do Livro. No início da tarde, apresentava a edição checa de “A Criança em Ruínas”, traduzido por Vlastimil Váne e publicado pela editora Dauphin (www.dauphin.cz), com o título “Díte V Troskách”. Vi pela primeira vez essa edição no tram (eléctrico, troley?) já a caminho da feira do livro. Quando puder, hei-de tentar afixar aqui a capa dessa edição, é de um azul-céu e tem uma imagem de Jan Horacek, onde surge um monte de fotografias a preto e branco. A apresentação foi muito simpática. Falei sobre o livro, li “Arte Poética” e li este poema, que talvez já conheçam e que transcrevo aqui em checo (sem acentos checos): kdyz se prostíral stul, byvalo nás pet: muj otec, má matka, mé sestry a já. pak se má starsi sestra vdala. pak se má mladsi sestra vdala. pak muj otec zemrel. dnes, kdyz se prostírá stul, je nás pet, krome mé starsi sestry, která je u sebe doma, krome mé mlasdsi sestry, která je u sebe doma, krome mého otce, krome mé ovdovelé matky. kazdy z nich je prázdné místo u tohoto stolu, kde jídám sám. ale vzdycky budou zde. kdyz se bude prostírat stul, bude nás vzdycky pet. dokut jeden z nás zustane nazivu, bude nás vzdycky pet. Tradução de Vlastimil Váne. Após o lançamento, houve autógrafos. Além da edição checa de “A Criança em Ruínas”, autografei também o Nikdo se Nedívá, que é como se chama o “Nenhum Olhar” em checo e que foi traduzido em 2004 pela Desislava Dimitrovová. Logo a seguir, fui participar num debate com uma escritora belga e um escritor grego, moderado por uma jornalista checa, sobre “Literature across the media”. Aquilo que se pretendia era que se falasse sobre projectos com meios para lá do livro. A belga trabalhava com vídeo, o grego fez um livro com um fotógrafo, eu falei do “Antídoto” e dos Moonspell, das letras para cantores, do Intermezzo, do trabalho com coreógrafos, fotógrafos, etc. No dia seguinte, saiu um artigo a resumir o que foi dito no jornal da Feira do Livro de Praga. No fim de semana, tive oportunidade de passear um pouco pela maravilhosa cidade de Praga. Na segunda-feira, apanhei o comboio das 13 horas para Brno. Na vez anterior em que estive em Praga, tinham-me falado bastante de Brno, mas não tinha tido oportunidade de me deslocar até lá. Tinha expectativas e foram todas cumpridas. Apesar de ter ficado pouco tempo (o suficiente para almoçar, apresentar o livro e voltar para Praga), gostei muito de Brno. O livro foi apresentado na sala subterrânea de um bar perante algumas dezenas de pessoas. Voltei a fazer leituras, mas falei bastante mais do que em Praga. O público colocou mais questões e ainda nos rimos todos um pouco. Além disso, venderam-se todos os livros que havia e autografei uma boa parte deles, assim como mais alguns romances em checo. Em princípio, o meu próximo romance a ser traduzido para checo será “Uma Casa na Escuridão”. Seja como for, espero reencontrar os amigos checos antes disso. Quando cheguei a casa, já tinha vários “pedidos de amizade” vindo da República Checa (e da Croácia) no facebook e no myspace. Assim, é mais fácil dizer “até breve”. AGRADECIMENTOS Acho que não é necessário escrever aqui os nomes das pessoas que me convidaram, traduziram e acompanharam nesta viagem pela Croácia e pela República Checa. Sinto uma gratidão imensa, comparável apenas à amizade que lhes guardo. IMAGENS DOS PRÓXIMOS CAPÍTULOS Na próxima semana, regresso aos Estados Unidos, onde vou participar de conversas sobre “The Implacable Order of Things” (“Nenhum Olhar”) em Boston e Nova Iorque. Estou muito curioso acerca da Universidade de Harvard e das pessoas que encontrarei por lá. Acredito que será memorável.
Postado por: José Luís Peixoto
| 20/05/2009 - 10:38 |
Conto que li em ZadarEste conto foi publicado originalmente no Jornal de Letras. Depois, revisto e publicado no volume "Hoje Não", que foi oferecido com a revista Sábado. EU E AS POETISAS Ninguém entendia a melhor poetisa do Quirguistão. Não porque ela não fosse fluente em várias línguas, mas porque falava demasiado baixo. Na fila do almoço, com um prato e talheres, enquanto esperava para servir-se de salmão fumado, uma tradutora finlandesa dobrava-se toda sobre a melhor poetisa do Quirguistão para tentar ouvi-la e, talvez, entendê-la. Cheguei a falar com o romancista mais promissor da Estónia sobre isto. Estávamos no alpendre da casa de madeira onde existia um bar. Eu cheguei para fumar um cigarro e o romancista mais promissor da Estónia já lá estava. Era um vulto semi-iluminado com mais de um metro e noventa. Tínhamos falado antes, mas não estávamos completamente à-vontade. O silêncio e a noite trouxeram-nos uma intimidade que não estávamos preparados para suportar. Foi ele que começou a falar de qualquer assunto sem importância. Talvez tenha falado de algo que o historiador fascista e escandaloso da Itália fez ou exigiu. Quando não tínhamos assunto, podíamos sempre falar das últimas novidades do historiador fascista e escandaloso da Itália. Quando não sabíamos nenhuma novidade, podíamos sempre perguntar por ele. Enquanto o romancista mais promissor da Estónia falava, o fumo do meu cigarro ondulava numa coluna branca que terminava no centro dos seus olhos. Eu desviava o cigarro, ele desviava o rosto, mas o capricho do fumo, como uma vontade humana e sólida, dirigia-se sempre aos seus olhos. Foi num desses momentos, depois de mais silêncio, que resolvi falar-lhe da melhor poetisa do Quirguistão. Falei-lhe da sua dificuldade em fazer-se entender e do seu ar vagamente misterioso, misterioso porque vago. O romancista mais promissor da Estónia olhou-me com embaraço e respondeu meio concordando, meio divergindo. Fiquei com a sensação de que tinha sido indiscreto e, não tendo mais nada para dizer, voltámos a partilhar o silêncio. Felizmente, apareceu o escritor exuberante da República Checa. Pediu-me um cigarro e o romancista mais promissor da Estónia aproveitou para sair. Entre dentes, menos que sussurrando, disse que ia à casa de banho, mas, por cima do ombro do escritor exuberante da República Checa, vi-o juntar-se a um grupo de pessoas que conversavam encostadas ao balcão. Na manhã seguinte, enquanto passeava nas margens do lago, descalço sobre a relva, cruzei-me com a poetisa que escrevia em dialecto da Lapónia. Seria difícil saber exactamente no raio de quantos quilómetros não havia nenhuma mulher mais atraente do que ela. Apesar de não haver resposta, essa questão era válida e ela sabia-o. Talvez fosse por isso que a poetisa que escrevia em dialecto da Lapónia era pouco simpática, ou talvez fosse por ser pouco simpática que, numa contradição vulgar da natureza, se tornava atraente. Quando me cumprimentou, estremeci. Já tínhamos sido apresentados, mas não esperava que reparasse em mim. Foi ela que começou a falar. Com um inglês com sotaque da Lapónia, disse qualquer coisa com que concordei. Sorri. Disse mais qualquer coisa e voltei a concordar. Voltei a sorrir. Quando chegou o silêncio, perguntei-lhe pelo historiador fascista e escandaloso da Itália. Ela riu-se e respondeu que, naquele dia, ainda não tinha tido nenhuma notícia dele. Ela riu-se. Estava tudo a correr-me bem. Nesse momento, eu estava consciente de que aquilo que estávamos a fazer tinha, no contexto internacional, o agradável nome de flirt. Eu sabia que havia revistas especializadas, com páginas inteiras de publicidade a perfumes, que teorizavam sobre essa questão em artigos com títulos como: 10 conselhos práticos sobre o que deve fazer durante o flirt, 10 conselhos práticos sobre o que não deve fazer durante o flirt. Enquanto o riso dela esmorecia, como a água do lago junto dos nossos pés, eu arrependia-me de nunca ter prestado a atenção devida a essas revistas e a única certeza que parecia apertar-me o peito era a necessidade de evitar o silêncio. Foi apenas com essa motivação que lhe falei da melhor poetisa do Quirguistão. Perguntei-lhe se conseguia entender alguma palavra daquilo que ela dizia. O rosto da poetisa que escrevia em dialecto da Lapónia desfez-se e voltou à sua altivez. Como se não percebesse porque estava ainda a falar comigo, despediu-se rígida e continuou o seu caminho, contornando o lago. Sozinho, com as sandálias na mão, fiquei a vê-la afastar-se. Passou a manhã e passou a tarde. Telefonei para casa e disse que estava com saudades. Foi já ao início do serão, quando todos esperavam o jantar. Estava sentado numa cadeira nas traseiras da casa de madeira onde existia um bar, apreciava a vista sobre o lago e entregava-me a pensamentos do tamanho da paisagem. De repente, saindo disparada pela porta, a melhor poetisa do Quirguistão veio a caminhar directa para mim. Sorri-lhe, mas ela não me sorriu de volta. Quando começou a falar, levantei-me porque achei que seria falta de educação continuar sentado. O rosto dela era sério enquanto falava. Das suas palavras, eu não conseguia entender mais do que um sussurro incompreensível. Ela, no entanto, não se calava. Erguia o indicador à frente do meu rosto e agitava-o com convicção. Do seu rosto asiático, percebi claramente que estava irritada. Aos poucos, foram saindo pela porta da casa de madeira várias pessoas que se paravam a olhar para nós. Em momentos, procurando compreensão, eu olhava para eles e encolhia os ombros. Nenhum deles reagia. A melhor poetisa do Quirguistão continuava a falar para mim como se aquilo que tinha para dizer não se esgotasse nunca. Ao mesmo tempo, agitava o indicador diante do meu rosto como se procurasse a melhor maneira de espetar-mo num olho. Não passou muito tempo até que estivesse uma multidão reunida junto à porta da casa de madeira. O romancista mais promissor da Estónia comentava qualquer coisa que a escritora finlandesa que vive na Noruega e que escreve em norueguês sobre a Finlândia escutava com atenção. A editora da Macedónia olhava-me com desdém. O escritor exuberante da República Checa parecia enjoado. A poetisa que escrevia em dialecto da Lapónia olhava-me como se fosse fulminar-me. Desisti de entender a melhor poetisa do Quirguistão e, pouco depois, ela desistiu de falar para mim. Começou a afastar-se e, quando passou entre a multidão, houve vários que a tentaram confortar. Quando entrou na casa de madeira, todos a seguiram. O único que ficou, que me sorriu e que caminhou na minha direcção foi o historiador fascista e escandaloso da Itália. Satisfeito, passou a mão pela careca, cumprimentou-me e, após poucos minutos, perguntou-me se queria ser seu amigo.
Postado por: José Luís Peixoto
| 20/05/2009 - 10:36 |
DatasQuem me conhece já sabe da minha dificuldade em memorizar nomes. Agora ficaram a saber que também me custa fixar datas. Enganei-me na data dos autógrafos na Feira do Livro do Porto. Quando houver notícias em relação à data correcta, aviso. Errei também nas datas das apresentações na Croácia. Zagreb foi no dia 11 e Zadar foi no dia 12 de Maio. Acho que sou mais ou menos bom a lembrar-me de caras.
Postado por: José Luís Peixoto
| 20/05/2009 - 10:33 |
Feiras do Livro de Lisboa e do PortoNas feiras do livro de Lisboa e do Porto, estarei na cadeirinha dos autógrafos. Em Lisboa já no próximo sábado, dia 9 de Maio, a partir das 18 horas; no Porto, no dia 23 de Maio, também a partir das 18 horas.
Postado por: José Luís Peixoto
| 05/05/2009 - 10:54 |
Nas livrarias portuguesas a partir de meados de Maio
Postado por: José Luís Peixoto
| 30/04/2009 - 08:52 |
Le PortugalAs coisas não começaram bem. No sábado, tinha acabado de sair do cybercafe onde, entre outras coisas, coloquei online o texto anterior, quando recebi um telefonema a perguntar onde estava. Tinha chegado a hora da minha leitura e não sabiam de mim. Percebi então que tinha entendido mal o que estava escrito no programa e tinha calculado mal a hora a que deveria ler (era um dos últimos da lista e, na noite anterior, tinham seguido a ordem). Corri para o hotel para apanhar os livros e, passados minutos, tinha um carro à espera para me levar à abadia de Neumunster. Cheguei, ouvi meio poema em alemão e, esbaforido, fui apresentado. Estavam duzentas e tal pessoas. Uma vez que era a noite em que todos os poetas liam, tinha apenas 5 minutos. Tudo bem. Comecei por ler “na hora de pôr a mesa” em francês, depois o original em português. Li depois “Arte poética”, também em francês e, quando ia para ler em português, fui interrompido pelo poeta do Luxemburgo que organiza o encontro. Tentei cumprimentá-lo, mas fiquei de mão estendida no ar. No momento, não me apercebi. Foi só ao longo da serão que foram chegando até mim as queixas dos muitos portugueses que estavam lá (afinal, há portugueses que assistem a leituras de poesia no Luxemburgo). A cada uma, ia percebendo que aquelas pessoas tinham a expectativa de ouvir mais em português e que a forma abrupta como terminou a leitura foi frustrante para elas. Ao mesmo tempo, tinha na memória a leitura da véspera na Kulturfabrik, em Esch, onde 6 poetas convidados leram das 19.30 até quase à meia-noite, nenhum deles respeitando o tempo que lhes tinha sido destinado. Assim, no domingo, 26, tinha a leitura na Galeria Simoncini, com menos poetas e com mais tempo para ler. Não me considero uma pessoa que guarda ressentimentos (a vida é curta), mas lembrei-me dos portugueses que fizeram e serviram o jantar de ontem, lembrei-me da portuguesa com quem fiquei a conversar na cozinha da Escola Europeia, lembrei-me das cabo-verdeanas que arrumavam os quartos do hotel e com quem também conversei, lembrei-me de que estava ali a representar Portugal e fiz o seguinte: antes da leitura, agradeci ao Instituto Camões (que apoiou o festival, custeando a minha viagem) e expliquei aos presentes que o propósito desse instituto é promover a língua e a cultura portuguesa, uma língua que é falada por cerca de 200 milhões de falantes (obrigado, Brasil) e que, no Luxemburgo, é falada por, pelo menos, 80 mil portugueses (maior comunidade de estrangeiros). Depois, expliquei que começava por ler o poema “Arte Poética”, que não tinha tido tempo de ler na véspera e, que no fim, se tivesse tempo, leria a tradução francesa. Li vários poemas de “A Criança em Ruínas” e de “A Casa, a Escuridão” tanto em português, como em francês. E, no fim, não tive tempo de ler a tradução francesa de“Arte Poética”. O ANIMAL Logo após a leitura da Galeria Simoncini, estavam todos os participantes do festival a almoçar numa esplanada de um hotel da Place d' Armes, no centrão da cidade do Luxemburgo, quando se afastaram as nuvens e ficou um sol bastante intenso. Tirei o casaco. Estava a conversar com o César Stroscio, mas ouvi claramente os dois empregados portugueses que estavam a pôr os pratos. Um deles, pensando que não o entendia e referindo-se às minhas tatuagens diz para o outro: “Já viste este? Tem o braço todo sujo.” Ao que o outro responde: “Ah pois tem, o animal.” Quando me virei para eles e lhes disse: “Talvez esteja mais lavado do que imagina”, arregalaram os olhos e foram-se embora. Na nossa mesa, estava o dono do hotel, o patrão deles. Não sei se foi por isso que o empregado que me chamou animal voltou passados alguns minutos para pedir umas desculpas atrapalhadas. Enfim, nada como uma descida à realidade.
Postado por: José Luís Peixoto
| 28/04/2009 - 10:23 |
De Braga a BarcelosExactamente há uma semana atrás, 18 de Abril, estava na Feira do Livro de Braga. Alguns dias antes, ao actualizar a minha agenda no myspace, escrevi por piada que me estava a preparar para fazer o caminho mais longo entre Braga e Barcelos. Isto porque, na Feira do Livro de Braga, iniciei um sequência de viagens que apenas terminará no dia 17 de Junho na Biblioteca de Barcelos. A saber: 18/4 – Feira do Livro de Braga 21/4 – Literatura em Viagem, Matosinhos 24/4 – Escola Europeia, Luxemburgo 25/4 – Le Printemps des Poètes, Luxemburgo 11/5 – Festival de Poesia de Zadar, Croácia 13/5 – Universidade de Zagreb, Croácia 15/5 – Feira do Livro de Praga, Rep. Checa 18/5 – Universidade de Brno, Rep. Checa 28/5 – Harvard Book Store, Boston, USA 17/6 – Feira do Livro de Barcelos Por aqui, irei dando notícias desta digressão “From Braga to Barcelos Tour” :) à semelhança do que aconteceu com as apresentações que fiz no México em Dezembro passado. Neste momento, estou no Luxemburgo. Estive ontem na fabulosa Escola Europeia onde tive a oportunidade de falar com duas turmas de alunos de português. Nessa escola, existem turmas em 26 idiomas. Em muitos aspectos, é uma escola única. Eu, pelo menos, nunca vi nada assim. Para quem anda pelos corredores, parece a escola perfeita: condições excelentes, alunos de alto nível, todo o tipo de actividades, etc. Faz lembrar aquele jogo de computador, os Sims. Aliás, acabei agora mesmo de dar um passeio pelas ruas do centro da cidade do Luxemburgo e essa é a impressão que se sente em toda a parte. As cores das coisas são limpas. Os carros são todos novos, as roupas são todas novas, toda a gente está impecavelmente penteada e engomada. As crianças portam-se bem e os animais de estimação estão todos convenientemente ensinados. Os adolescentes mais rebeldes parecem saídos de um qualquer videoclip da MTV. Ainda assim, as pessoas são pessoas e, ontem, na Escola Europeia, foi memorável encontrar aqueles rapazes e raparigas que leram alguns poemas dos meus livros de poesia, tocaram viola e me deram algumas ilustrações desses mesmos poemas (em breve, tentarei colocar aqui algumas). No serão de ontem, iniciou-se o Festival Le Printemps des Poètes, www.prinpolux.lu o mesmo conta com a presença de 14 poetas de outros tantos países europeus. A minha participação acontecerá hoje e amanhã. Em ambas as ocasiões, irei ler poesia. Hoje será na Abadia de Neumunster a partir das 10 da noite. Amanhã será na Galeria Simoncini a partir das 11 da manhã. Em ambos os casos, há um acompanhamento musical do argentino César Stroscio. Aqui virei dar conta dessas leituras públicas logo que me seja possível. PORTUGUESES Ao passear na Grand Rue, cruzei-me com um autocolante que anuncia “Os mensageiros portugueses estão de volta”. Aparentemente, não se tratava do D. Sebastião, mas sim um grupo de hip hop. Chamam-se JMP e têm um novo disco chamado “Realidade e Consciência”. Apoiem o hip hip português feito no Luxemburgo e oiçam-nos em http://myspace.com/jmphiphoptuga É de referir que a presença portuguesa no Luxemburgo é imensa. Estão registados cerca de 80 mil cidadão portugueses residentes no Luxemburgo (a população total do país ronda os 400 mil habitantes). Para além destes, existem todos os que nasceram cá e já têm nacionalidade luxemburguesa e existem os que não estão registados. É banal ouvir-se falar português na rua. Ainda assim, segundo me foi dito, não são grandes frequentadores de festivais de poesia. Logo à chegada, na quinta-feira, dia 23, estive a dar uma entrevista na Rádio Latina. Esta transmite maioritariamente em português, mas tem programas também em italiano, espanhol e crioulo cabo-verdeano (os cabo-verdeanos são a segunda maior comunidade lusofalante do Luxemburgo, com cerca de 10 mil imigrantes). Existem também jornais portugueses. Neste momento, ainda só tive oportunidade de folhear o semanário Contacto, www.jornal-contacto.lu que me pareceu de boa qualidade. Inesperadamente, encontrei (e comprei) uma revista alemã de tatuagens com a Ana Malhoa na capa (!). Quando houver condicões informáticas, partilharei. ROMANCE O texto que, em breve, será um romance vai comigo para todo o lado e, em todos os lugares, vai crescendo. Estando fora de casa, tenho menos possibilidade de me dedicar a ele. Assim, não irei sempre dando conta dos seus avanços. Fá-lo-ei quando existir alguma notícia que me pareça relevante. Por passar horas fechado no quarto (a ler, a escrever, a dormir e a tomar duche), creio que os outros poetas do encontro me consideram mais misantropo do que sou realmente. Por mim, tudo bem. Até fico mais misterioso e , consequentemente, mais chique. ;) 25 DE ABRIL Acordei com os discursos do 25 de Abril na Assembleia da República, via RTP Internacional. Gostei do discurso do Bloco de Esquerda e gostei do discurso do PP (não sei o que se anda a passar comigo...) Acabei agora mesmo de receber um telefonema da Lúcia Sigalho a dizer-me que correu bem a leitura do meu texto no Largo Camões (alguém esteve por lá?) Escrevi um texto para ser lido no âmbito das comemorações dos 35 anos do 25 de Abril. O mesmo foi lido pela actriz Flávia Gusmão. Deixei também gravadas declarações que deverão passar hoje no Rádio Clube Português e estive a tentar apresentar os Quinta do Bill num espectáculo que dá hoje à noite na RTP. Não, não pretendo seguir a bonita carreira de apresentador. Não se preocupem. :)
Postado por: José Luís Peixoto
| 25/04/2009 - 14:04 |
Mini-óperaOntem, no Teatro Nacional São Carlos, em Lisboa, estreou a ópera "Agripina", de Handel, e estreou também "O Velório de Cláudio", de Nuno Corte-Real, com o libreto escrito por mim. Este trabalho partiu de um convite do Teatro Nacional São Carlos e, inicialmente, estava destinado a ser um intermezzo. Com o acordo do encenador, o alemão Michael Hampe, "O Velório de Cláudio" acabou por ser apresentado antes da ópera "Agripina" e, desse modo, ficou a ser uma espécie de "mini-ópera", como muito bem observou Cristina Fernandes no jornal Público de ontem AQUI. Com cerca de 10/15 minutos, "O Velório de Cláudio" é interpretado por Alexandra Coku, Reinhard Dorn, Musa Nkuna, Luís Rodrigues, Chelsey Schill e Jorge Rodrigues, estará ainda em cena a 19, 21, 24, 26 e 27 de Abril.
Postado por: José Luís Peixoto
| 18/04/2009 - 09:56 |
Sim significa não
A única vez em que estive na presença da actriz Alexandra Lencastre foi em 1995. O país atravessava um período de alegre contestação. Toda a gente que eu conhecia estava contra o governo e Março, a confiar na minha memória, não tinha sido demasiado frio ou chuvoso. Se Portugal fosse um carro, bastava destravá-lo e deixá-lo deslizar, não se vislumbrava a necessidade de esforçar o motor contra qualquer espécie de subida. Os penteados e os bigodes dos anos oitenta estavam extintos. Os hipermercados prosperavam. Não tínhamos telemóvel ou internet, mas se estávamos destinados à felicidade, éramos felizes. Eu tinha vinte anos e estudava em Lisboa. Quem me via não desconfiava mais do que normalmente se desconfia de alguém com essa idade. Quando fui chamado para comparecer na pré-selecção, num apartamento em Sete Rios, ao lado do Jardim Zoológico, custou-me a acreditar. Para mim, os concursos de televisão eram uma realidade distante. Eu era anarquista, vegetariano, punk friendly e quase virgem. É certo que tinha autorizado a minha irmã a escrever o meu nome nos cupões, mas imaginava que concorressem milhares de pessoas e não conhecia ninguém que alguma vez tivesse participado num concurso de televisão. Eu nem tinha a certeza que a minha irmã se lembrasse mesmo de enviar os postais. Mas lembrava. Acordei cedo, faltei a uma aula e, com um pull-over cinzento, que ainda tenho, respondi às perguntas que me fizeram. Quando saí, não pensei se ia ser apurado, pensei no almoço. Telefonaram poucos dias depois. Eu não estava em casa. Foi a minha irmã que atendeu. O concurso chamava-se “Trocado em Miúdos”. Havia palavras e crianças a tentarem explicá-las. Havia palavras e o seu significado mais inocente. Depois, quem acertasse nas palavras-mistério ia acumulando pontos. Os parceiros dos concorrentes eram figuras públicas. A minha parceira foi a actriz Alexandra Lencastre. Havia palmas gravadas e, por isso, sempre que chegava um momento de aplaudir, fazíamos o gesto, mas não podíamos fazer barulho. Sozinhos no estúdio, com as luzes e com as câmaras, passámos grandes períodos a bater palmas em silêncio. Creio que não haveria grande possibilidade de contestar a nossa vitória. Foi clara. Eu e a actriz Alexandra Lencastre sorrimos um para o outro e não voltámos a ver-nos. O prémio foi um fim-de-semana em Londres para duas pessoas. A minha irmã agradeceu. Levantei o bilhete e os pormenores do hotel numa agência de viagens nas Olaias. À hora em que o concurso ia ser transmitido, a minha irmã, o meu cunhado e eu estávamos em frente à televisão, tínhamos o vídeo ligado e uma cassete preparada. A minha irmã tinha o dedo sobre o botão REC do comando. Esperámos duas horas. A minha irmã telefonou para lá. Sem aviso, o concurso tinha sido suspenso. Não cheguei a aparecer na televisão. Os bilhetes estavam guardados numa gaveta. Foi assim que viajei pela primeira vez de avião. A minha irmã tinha um guia de bolso e um plano exacto para aqueles três dias e meio. Creio que estávamos convencidos de que nunca mais voltaríamos a Londres. À noite, chegávamos ao nosso quarto na Russel Square e não tínhamos força para falar. No dia seguinte, acordávamos às sete. Os dias eram longos como quilómetros. No fim daqueles três dias e meio éramos uma espécie de emigrantes. Um para o outro, dizíamos “lá, na Trafalgar Square”, ou “lá, no British Museum”. Tínhamos feito tudo. Tínhamos a barriga cheia. E, na minha segunda viagem de avião, regressávamos felizes. Trazíamos porta-chaves para todos, ímanes de frigorífico e chocolates. No aeroporto, as malas chegaram ao tapete rolante como nos filmes. Tínhamos um carrinho para levá-las. Seguindo as indicações para a saída, ao longe, começámos a ver o meu cunhado e o nosso pai. Ao longe, os nossos sorrisos chocaram com os seus rostos sérios. Logo nesse momento percebemos que tinha acontecido algo. Foi o meu pai que nos disse que a nossa avó tinha morrido. Saímos do aeroporto e fomos para um velório quase deserto em Massamá. Caminhámos na direcção da nossa mãe, órfã. A nossa avó estava deitada num caixão. Chamava-se Joaquina e, a mim, chamava-me “o meu Zé Luís”. Havia velas eléctricas que se acendiam com moedas de vinte escudos. Nessa sala de uma igreja moderna, passámos a noite. O enterro aconteceu no dia seguinte, já na nossa terra. Eu e a minha irmã não chegámos a contar as histórias da viagem a Londres. As fotografias foram reveladas e guardadas. Dessa maneira, aprendi uma lição que continua comigo. Dessa maneira, aprendi que há palavras que significam o seu absoluto contrário. Às vezes, sim significa não.
Postado por: José Luís Peixoto
| 06/04/2009 - 11:21 |
Dois mesesEstou vivo. Ao longo destes dois meses, iniciei mentalmente a escrita destas palavras dezenas de vezes. No entanto, as passagens pela internet foram sempre demasiado rápidas, com dois ou três emails urgentes para responder e, logo a seguir, o regresso ao mundo e às palavras. Pensei falar-vos da breve viagem que fiz a Marrocos e da antologia de contos que saiu por lá (o conto "Dia de anos" a ler-se da direita para a esquerda,em árabe); pensei falar-vos da edição de "Morreste-me" e de "Gaveta de Papéis" em braille, das idas a escolas preparatórias e secundárias, etc. Ou seja, pensei falar-vos de várias coisas que me deixam feliz, orgulhoso, e que, se existir amizade desse lado, vos poderão dar alguma alegria também.
Postado por: José Luís Peixoto
| 06/04/2009 - 11:11 |
AsseioNesta época do ano, quando vivia na casa de lareiras que sempre pertencerá aos meus pais, uma das coisas que mais gostava de fazer era atear o lume. Acender uma pinha com fósforos ou no bico do fogão. Acender um fósforo. A explosão de um fósforo na ponta dos dedos é um assunto simultaneamente intenso e frágil, como o coração de uma ave. Da chama de um fósforo pode nascer um incêndio, o inferno, ou pode nascer um lume como aquele onde me aquecia na casa dos meus pais e que ardia durante todo o dia. E coloca-se a pinha no ponto onde a construção de lenha se cruza. Depois as chamas, depois as brasas, depois a cinza. É assim que espero que as palavras peguem. No resto do tempo, faço como no poema de Billy Collins, que aqui deixo traduzido por mim para português:
CONSELHO PARA ESCRITORES
lava as paredes e esfrega o chão do teu estúdio antes de compores uma sílaba.
O asseio imaculado é sobrinho da inspiração.
será a tua escrita; não hesites, pois em sair a campo aberto e lavar a face oculta das pedras, nem de passar um trapo nos ramos mais altos das florestas sombrias, pelos ninhos cheios de ovos.
e guardares as esponjas e escovas debaixo do lava-loiça, contemplarás a luz da aurora, o altar imaculado da tua secretária uma superfície limpa no centro de um mundo limpo.
um lápis amarelo, o mais afiado do bouquet, e cobre páginas com frases miúdas como longas filas de formigas devotas, que te seguiram desde o bosque. (10 págs.)
Postado por: José Luís Peixoto
| 03/02/2009 - 13:17 |
Estou apaixonadoPelo meu romance. No passado dia 7 de Janeiro, escrevi a primeira palavra daquele que começa a ser o meu próximo romance. Este romance parte de uma ideia que tive em finais de 2005 e que, desde então, se tem vindo a multiplicar pelo infinito. Em 2007 e 2008, dediquei-me à investigação acerca de alguns temas importante para o mundo do romance. Fi-lo utilizando os mais diversos meios e constituiu uma descoberta pessoal que contruibuiu para que o projecto do romance se adensasse ainda mais. E chegou o dia 7 de Janeiro. Por muito boas razões, tive de interromper a escrita do romance na semana passada. Espero retomá-la amanhã. Já chamei as personagens para junto de mim. Algumas já começaram a chegar. Neste blog, irei dando conta de algumas das questões e dos temas que me forem passando pela cabeça e pelos olhos ao longo da escrita deste meu próximo romance. Assim, mais tarde, poderemos lembrar-nos de como éramos. No final de cada post, escreverei o número de páginas que, nesse determinado momento, considere (praticamente) finais. Começo já a fazer essa contagem. Espero que me possam acompanhar.
Postado por: José Luís Peixoto
| 21/01/2009 - 15:07 |
ObrasÉ uma alegria chegar aqui e perceber que os nossos pedidos tiveram eco. Este blog já tem arquivos. Nada será como antes.
Postado por: José Luís Peixoto
| 21/01/2009 - 14:41 |
Not deadTenho um punk dentro de mim, debaixo da minha pele. Há vezes em que sou obrigado a pôr-me à sua frente e a segurá-lo pelos ombros, quer fugir, quer dar pontapés nos caixotes do lixo e deixá-los espalhados no meio da rua. Seguro-o como se tentasse evitar um briga. Não faças isso, não vale a pena. Na maior parte do tempo, esse punk está a dormir, sentado num passeio dentro de mim, encostado a uma parede, com as costas tortas, o pescoço torto, inconsciente, bêbado ou drogado com o perfume dos lugares onde vou. Esse punk dentro de mim não os suporta, prefere comer restos abandonados na mesa de esplanadas do que jantar de fato e gravata na casa de príncipes, prefere vomitar aguardente destilada pelo estômago do que ter de responder palavras vazias às palavras vazias dessas conversas. Já houve ocasiões em que esse punk quis puxar a toalha da mesa posta, aquilo que mais desejou foi ver o serviço inteiro de jantar suspenso por um instante no ar da sala e, depois, a desfazer-se no chão. Esse punk não é uma metàfora ou uma ironia. É um punk a sério. Tem um casaco que é sempre o mesmo e tem uma camisola, tem umas calças que são sempre as mesmas, com remendos de G.B.H. e de Chaos UK que não tapam os buracos nos joelhos. Aliás, os remendos não servem para tapar os buracos nas calças, servem para outras coisas. Também os buracos têm uma função que, aqui, agora, seria difícil de explicar. É possível olhar para os olhos desse punk que está debaixo da minha pele. Há vezes em que todo o seu rosto está escuro, coberto de sombras e apenas se distinguem os seus olhos, fixos, a brilhar. É mais ou menos divertido que alguém possa pensar que esse punk é uma metáfora ou uma ironia porque, se há algo que ele rejeita no seu discurso são as metáforas e as ironias. Esse punk gosta de escrever frases nas paredes, gosta de repetir refrões quatro vezes e considera que tanto as metáforas como as ironias são subterfúgios que algumas pessoas utilizam para não serem directas, para serem mentirosas, para serem cobardes e se protegerem daquilo que têm para dizer, para se protegerem do olhar dos outros sobre aquilo que têm para dizer. Esse punk engana-se muitas vezes, mas não tem medo de utilizar o verbo ser. Em conversas com outras pessoas, estando a falar ou a ouvir, é muito frequente que esse punk me esteja a sussurrar palavras ao ouvido. Tem uma voz riscada por grãos de areia. É como se a sua garganta fosse rugosa, e talvez seja. Esse punk prefere gastar aquilo que tem, prefere gastar-se, a ter tudo muito guardadinho em gavetas, apenas para ser usado em dias especiais, com muito cuidado para não riscar, para não sujar. Esse punk gosta de sujar-se. As outras pessoas têm dificuldade em entender o prazer imenso de estar sujo, de não tomar banho, de deixar o tempo acumular-se na pele, de torná-la morna, da certeza de vida que existe por baixo de tudo isso. Porque esse punk também tem muito dentro de si, também há muito debaixo da sua própria pele. Eu tenho um punk dentro de mim, debaixo da minha pele, e esse mesmo punk tem muito dentro de si. Não vou enumerar, não vou cair nessa vertigem. Vou apenas assinalá-la. Essa arqueologia pode exigir a vida inteira. Passamos muito tempo sozinhos, eu e esse punk. Se precisamos um do outro, basta chamarmos. Entendemo-nos bem, sabemos escutar-nos e, para alám da idade, somos dois velhos. Ele é um punk velho, que nunca desistiu, que nunca baixou a voz, apesar de tudo o que inventaram para o demover, para mudar o mundo que descobriu com 14, 15 anos, ou talvez antes. Eu sou um velho que, entre outras coisas, carrega um punk velho dentro de si. Ele conhece aquilo que faço quando não o estou a ouvir, ele perdoa-me aquilo que faço contra as suas convicções. Ele finge que não vê, mas vê. E entende. Eu também conheço aquilo que ele faz e que contraria o que diz, que é o exacto oposto daquilo que diz quando se exalta com as pessoas que falam na televisão ou que escrevem nos jornais. Também eu finjo que não vejo, mas vejo. E entendo. Entendo muito bem os instantes em que ele está a tratar de si, despenteado, em que passa as mãos pelo rosto, e é como um menino frágil. Esse punk, que grita rouco, que diz que quer matar este e aquele, que quer partir isto e aquilo, é como um menino fràgil, à mercê de mil coisas que o podem matar, partir, e que o matam devagar, que o desgastam, mas às quais ele resiste, porque ele tem memória, ele não esquece. Muitas vezes, quando estamos sozinhos, falamos de muitos assuntos, rimo-nos como pessoas normais. E ele não é esse punk que tenho dentro de mim, mas é uma pessoa com um nome, que chegou de um lugar. E eu não sou eu, sou também uma pessoa com um nome, que também chegou de um lugar. Rimo-nos. E parece-nos que não há outra pessoa que possa compreender as nossas histórias. Talvez seja mesmo assim: ficamos os dois, tatuados e rodeados de livros. Depois, quando estamos no centro de uma multidão, esse punk quer sair, mas eu digo-lhe que não, ninguém pode vê-lo mais do que apenas um pouco, quase nada. Se o vissem, os professores universitários iriam chocar-se. Apenas pelo seu reflexo, acreditariam saber tudo acerca dele. As senhoras que têm netas, filhas, deixariam de achar-me graça, ficariam baralhadas. Por isso, sou obrigado a pôr-me à frente do punk que está dentro de mim, debaixo da minha pele, sou obrigado a segurá-lo pelos ombros. Quando estamos sozinhos, sentamo-nos à mesa e, às vezes, juntos, ficamos em silêncio durante muito tempo.
Postado por: José Luís Peixoto
| 08/01/2009 - 15:39 |
2009Será um ano maravilhoso.
Postado por: José Luís Peixoto
| 08/01/2009 - 15:18 |